Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Pereira — E eu dou-me os parabéns por não ter ainda chegado a senhora Dona Hortênsia; desejava achar-me a sós com Vossa Excelência para testemunhar-lhe o meu profundo afeto, oferecendo-lhe a palma da beleza. (Apresenta a rosa no cartucho).
Leonina (Recebendo) — Oh! a rosa!... (Deita fora o cartucho).
Pereira — Não deite fora o cartucho!...não deite fora o cartucho!...
Leonina — Mas que tem de singular este cartucho?...
Pereira (Apanhando-o e oferecendo-o de novo) — Minha senhora, é que há cartucho e cartucho!...
Leonina (Recebendo e à parte) — Querem ver que é um bilhetinho amoroso?...
(Abre) Oh!!!
Pereira — Perdoe-me Vossa Excelência... é um simples sinal...
Leonina — Senhor! Há dois insultos neste indigno papel! Há dois insultos, porque o senhor fez-me corar por meu pai, e porque ousou fazer-me um presente de dinheiro! Há dois insultos...ou não há insulto algum, porque Vossa Senhoria, senhor comendador, não compreende quanto respeito se deve a uma senhora. Eis aí o seu papel!...Ei-lo...vê bem que o não posso rasgar; é uma dívida de meu pai.
Pereira — Minha senhora...por quem é...
Leonina — Eis aí a sua letra! Está me queimando os dedos: ei-la aí! E pois que não a vem receber, apanhe-a no chão. (Atira a letra ao chão e volta as costas).
Pereira — Perdão, minha senhora, eu sou um bruto. (Apanha a letra).
CENA X
Pereira, Leonina e Hortênsia.
Hortênsia — Oh! a rosa!...a palma da beleza na mão de Leonina!...
Leonina — A rosa?... é verdade...nem dela me lembrava!...(Desfolha a rosa).
Hortênsia — Que fazes, minha filha?
Leonina — Oh! minha mãe! Esta rosa tinha espinhos: feriu-me!
FIM DO SEGUNDO ATO
ATO III
Sala interior em casa de Maurício; sempre o mesmo luxo e elegância; mesa pequena, mas de rico trabalho, à direita e um pouco ao fundo. Portas laterais e ao fundo.
CENA I
Hortênsia e Maurício, tendo na mão um livro que logo depois vai colocar sobre a mesa.
Maurício — Não, Hortênsia, as ilusões desapareceram; a hora da desgraça vai soar para nós; já dissipamos toda a nossa fortuna, e legaremos a Leonina a mais horrível miséria.
Hortênsia — Ora, que andas sempre a sonhar futuros pavorosos!
Maurício — Não, este livro não mente; ele me assinala a ruína e a vergonha, porque me traz à memória dívidas que não posso pagar; ele me lança em rosto um crime, porque em um momento de desvario ousei vender escravos que tinha hipotecado. Estão aqui vestidos de seda que apareceram em uma só noite; brilhantes e enfeites, que importam em contos de réis. Devo às lojas de modas, devo aos joalheiros, devo aos tapeceiros, devo as mobílias e o aluguel das nossas casas; devo tudo e a todos! E o que é mais! Essa hipoteca, que não soube respeitar, me denuncia um crime de estelionato, e não há meio de escapar às suas conseqüências.
Hortênsia — E choras o que gastaste comigo e com tua filha?
Maurício — Não; mas quando penso que me arruinei para engolfar-me em prazeres que duraram instantes; quando penso que sacrifiquei o futuro de nossa filha a vãs pretensões que só a vaidade inspirava, maldigo mil vezes a loucura que me arrastou à perdição.
Hortênsia — E pretendes lançar-me em rosto essas despesas que somente agora lastimas?...querias que eu fosse a bailes e teatros e neles me apresentasse vestida pobre e miseravelmente, para ficar exposta ao escárnio das senhoras e ao desprezo dos homens?...
Maurício — Eu não me queixo de ti, Hortênsia; choro apenas a nossa desgraça e maldigo a minha imprudência.
Hortênsia — Fora talvez melhor que tivéssemos vivido ignorados; que uma vez por outra nos reuníssemos com uma ou duas famílias de classe baixa, e que enquanto jogasses a bisca com os maridos, eu conversasse sobre receitas de doces com as mulheres?... Não faríamos dívidas e teríamos a glória de casar Leonina com algum empregado de pouco mais ou menos, se escapássemos de casá-la com o filho de algum marceneiro.
Maurício — Hortênsia! Não assenta bem tanta soberba em quem está batendo às portas da miséria.
Hortênsia — Ora! O que nós estamos é chegando ao dia do triunfo. O comendador se mostra loucamente apaixonado por Leonina...
Maurício — Mas o infame procedimento que teve ontem...
Hortênsia — Não pensou no que fez e deu-me a satisfação mais completa. Leonina há de tornar-se às boas com ele e eu te asseguro que o comendador nos pedirá nossa filha em casamento no dia dos anos desta.
Maurício — Oh! se isso não fosse uma nova ilusão!
Hortênsia — Não o duvides. O próprio comendador mo deu a entender; o que, portanto, nos cumpre é disfarçar a crise que nos ameaça e salvar as aparências por alguns dias.
Maurício — Entendo; devemos representar o último ato da comédia da impostura.
CENA II
Maurício, Hortênsia e Anastácio, que fica junto à mesa.
Anastácio — Juntinhos a conversar! Os meus dois fidalgos estão de certo desenrolando a sua genealogia: quero apreciá-los de parte. (Vê o livro e abre-o) Oh! o livro de receita e de despesa! Isto é uma obra rara e proibida na casa do desmazelo e da dissipação. (Examina).
Hortênsia —
Tratemos da nossa festa: convêm que seja de estrondo, e que se fale
durante um mês inteiro do baile de máscaras dado em honra dos anos de Leonina.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.