Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Oh! mas é preciso conseguir para mim o perdão de sua avó e de seu pai! eu podia esconder para sempre o meu crime; uma pessoa, porém, por amor da senhora talvez, uma única pessoa no mundo me arrastou a face pela vergonha, e me obrigou a vir aqui! não há, pois, virtude no que fiz!... confesso-o; eu estava arrependido; mas o medo... o medo só de um homem pôde fazer tanto; e é em nome desse homem que eu exijo também da senhora o meu perdão! e que faça com que sua família me perdoe e esqueça o meu delito!... não sou eu1... é ele quem lhe restitui a sua cruz, quem prova a inocência de seu primo, quem exige que eu seja por todos perdoado!... é ele!... ele só!...
— E quem é ele?... perguntou Honorina admirada.
— O moço loiro!...
Honorina não pôde esconder o prazer imenso que sentia; sorrir belo e divino espraiou-se em seus lábios... abriu a boca para exalar um longo suspiro... e soltou um grito...
Hugo e Ema acudiram, medrosos.
— Minha avó!... meu pai!... exclamou a virgem fora de si, o perdão!... o perdão deste homem pelo amor de Deus!...
Minutos depois Félix descia as escadas de Hugo de Mendonça, perdoado por toda aquela família.
Antes que o guarda-livros acabasse de descer a escada, outra vez desenhou-se atrás de uma das vidraças uma sombra de mulher, que se voltou para o lado da árvore, debaixo da qual ainda estava o desconhecido; mas desta vez não foi ele, mas, sim, a mulher quem agitou no ar um lenço branco.
Portanto, não era acaso, era um sinal de antes ajustado.
Quando Félix chegou à rua, o desconhecido aproximou-se dele e disse:
— Sei tudo: o senhor cumpriu a sua palavra, e foi perdoado. Adeus!
Um momento depois, Félix caminhava apressadamente para o lado da casa de comércio, onde morava, e um pouco atrás dele o desconhecido descia pelo cais da Glória.
Às nove horas da noite dois vultos se aproximaram um do outro junto à igreja da Lapa do Desterro.
XXXVII
Carlos
Félix entrou em seu quarto, nesse quarto em que pouco antes se haviam passado cenas para ele acerbas, e atirou-se sobre o leito, vestido como estava, sem lhe importar mais trancar a porta por dentro.
Eram pouco mais de nove horas da noite, e posto que já estivesse o armazém fechado, ainda nenhum dos caixeiros e serventes deveria dormir.
Aflito ainda com o que tinha ocorrido, porém, sentindo-se livre desse peso enorme que por sete anos lhe esmagara o sossego, Félix pôde, enfim, ordenar suas idéias e pensar no vôo desses acontecimentos inesperados, na representação improvisada desse drama vergonhoso em que lhe coubera o mais triste papel.
Havia um ponto em que Félix não podia explicar sem acusar a Otávio como traidor; de que meio se valera esse desconhecido para saber até o lugar onde ele tinha escondido a cruz de brilhantes?...
Estava, pois, entregue a tais pensamentos, quando, ao voltar uma vez os olhos, viu em pé, com os braços cruzados defronte de seu leito, um jovem de dezesseis anos, caixeiro da casa.
Esse menino era belo, alegre e esperto, e mostrava-se, então, abatido e melancólico.
— Que fazes aí, Carlos?... perguntou Félix sem mostrar-se enfadado.
— Eu o estava observando, Sr. Félix, estava colhendo no seu rosto os pensamentos que o ocupam.
— Tu és um importuno, por aqui teres vindo sem motivo algum, e és um tolo pelo que acabas de dizer.
— Eu não sou importuno, Sr. Félix, porque foi uma forte razão quem aqui me trouxe, e não sou tolo, porque, em verdade, sei a respeito de que estava o senhor pensando.
— Então, a respeito de quê?... perguntou Félix ensaiando um sorriso.
— O senhor estava pensando, disse o menino sem hesitar, como é que um homem desconhecido e estranho pôde ter inteiro conhecimento de um contrato criminoso, efetuado em alta noite e sem testemunhas, entre o senhor e Otávio.
— Carlos!...
— Estava pensando em quem poderia ter confiado a esse desconhecido as menores circunstâncias dessa cena criminosa. Quem poderia ter dito que o objeto que Otávio lhe deixou em troca dos que levou, fora escondido no segredo de sua carteira.
— Meu Deus!... meu Deus!... exclamou Félix escondendo o rosto.
— Estava, enfim, pensando que fora o seu próprio amigo quem atraiçoara o seu segredo. — Sim!... é isso mesmo!... disse Félix erguendo-se e encarando o rosto do menino; é isso mesmo!... e então?..
— Não foi Otávio quem o traiu.
— E, portanto, quem foi?...
— Para o dizer, Sr. Félix, é que me acho aqui a esta hora.
— Bem... bem...
— O Sr. Félix vai ouvir a minha história.
— Carlos! que me importa isso?
— Mais do que pensa.
— E o nome?... o nome do traidor antes de tudo!...
— Mas é preciso ouvir a minha história.
— É longa?...
— Fá-la-ei breve.
— Pois conta-a, disse Félix sentando-se no leito.
— Sr. Félix, perguntou o menino, conhece, sabe quem é o desconhecido que aqui veio esta noite?...
— Diz-se um amigo de Lauro de Mendonça.
— Bem, tornou o menino, depois de pensar um instante; bem, é isso mesmo; agora vou começar a minha história.
Félix esperou um momento, mas, notando que o menino não falava, olhou para ele e disse:
— Anda, fala.
Ora, Carlos era eminentemente sangüíneo, e alguma coisa que o devia fazer corar, obrou sobre ele, de forma que seu rosto se tornou de repente cor de escarlate.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.