Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Eu concluo, senhores, tornou o moço, animando-se. Um dia... foi há sete anos, pouco mais ou menos, a Sr.ª D. Honorina acabava de contar nove anos de idade. Houve um belo jantar de família, ao qual eu fui presente; findo ele a Sr.ª D. Ema de Mendonça chamou sua neta para junto de si, convidou-nos a ouvi-la, e contou uma história de uma cruz de família, cruz milagrosa, que por direito pertencia à Sr.ª D. Honorina, desde o dia em que fizesse nove anos de idade.
Consequentemente, a cruz apareceu riquissimamente preparada, cravada de preciosos brilhantes...
— Aí esteve o meu primeiro erro... disse Ema.
— Deixe-o continuar, acudiu Hugo.
— A Sr.ª D. Honorina, criança como era naquele tempo, demonstrou com todas as graças infantis o prazer que sentia por possuir a bela cruz. Então, o Sr. Lauro, que amava e muito a sua prima, e que gostava de mover suas respostas, com ela gracejando, disse-lhe — eis uma bela cruz para ser furtada... tem ricos brilhantes, que se podem vender... — e foi a Sr.ª D. Ema quem lhe respondeu, dizendo: — Lauro, tu és um louco; não se graceja sobre um objeto sagrado.
— Foi assim, disse Ema; eu me lembro de tudo isso.
— Nós nos demoramos até à noite; uma salva contendo a cruz foi deposta sobre um aparador no quarto da Sr.ª D. Honorina; às dez horas da noite a jovenzinha dormia; então, o Sr. Lauro foi pé por pé... entrou no quarto... e quis acordar sua prima... depois, vendo-a nos braços do mais sossegado sono, arrependeu-se do que ia fazer... e retirou-se sem acordá-la, e depois de beijá-la nos lábios...
Honorina corou até à raiz dos cabelos.
— E a cruz de brilhantes?! perguntou Ema.
— A cruz de brilhantes?! exclamou Félix; a cruz de brilhantes?!... ouvi-me até o fim, senhores. Um homem, que ouvira a história dessa cruz, e o gracejo do Sr. Lauro, introduziu-se furtivamente no quarto da menina; já estava aí, quando este entrou, querendo acordá-la; esse homem escondeu-se; e depois, tendo saído o Sr. Lauro, ele apoderou-se da cruz... e saiu cuidadosamente. O Sr. Lauro entrara nesse quarto, como homem honrado que era, e, pois, mais de dois olhos o viram também sair; o outro entrou como um ladrão... e, com as precauções de um ladrão, retirou-se sem ser percebido.
— Meu Deus!... exclamou Ema levantando as mãos.
Hugo e Honorina estavam tão silenciosos como estupefatos.
— Quando se procurou a cruz... ela tinha desaparecido; a princípio julgaram todos que o Sr. Lauro a havia escondido por zombaria... ele jurou que não, mas algumas pessoas asseguraram tê-lo visto entrar no quarto... ele o confessou também... finalmente, os senhores o sabem: o Sr.
Lauro de Mendonça foi expulso desta casa como um homem infame!...
— Tu o denunciaste!... bradou Ema exasperada.
— Eu fui um miserável caluniador!...
— E o ladrão?
— O ladrão?!... o ladrão?!... o ladrão?!... exclamou Félix com voz lúgubre; o ladrão fui eu!
— Maldito!... gritou Ema levantando a mão como querendo amaldiçoá-lo.
— Miserável!... bradou Hugo.
— Desgraçado!... disse Honorina.
Terríveis tormentos deviam estar dilacerando o coração do infeliz guarda-livros.
— Tudo isso!... maldito!... miserável!... desgraçado!... maldito, sim: porque fui capaz de ceder a essa influência satânica do demônio da inveja! maldito porque manchei a minha vida! maldito porque cometi um crime infame, e denunciei a um inocente como perpetrador dele!... miserável, porque, sofrendo torturas indizíveis, remorsos despedaçadores, nunca tive ânimo em sete anos que são passados, de vir aqui ajoelhar-me, confessar o meu crime, e obter o meu perdão!... desgraçado, sim, oh! muito desgraçado!... porque as penas que tenho sofrido, que sofro, e que sofrerei, são ainda maiores do que meu próprio delito!...
No entanto, Ema arquejava exasperada!... seu semblante deixava adivinhar que havia no fundo da sua alma uma dor cruel; Hugo o percebeu, e cuidadoso lhe falou:
— Que tem, minha mãe?
— Arrependimento também!... ele era inocente!...
— Eu o pensava, minha avó!... disse Honorina.
— E a cruz?... e a cruz?... exclamou a velha voltando-se de repente para Félix.
O guarda-livros arrancou do seio a caixa forrada de veludo preto, e de joelhos aos pés de Honorina:
— Só a ela!... disse, só a ela, que me há de perdoar!...
— Nunca!... nunca!... bradou Ema arrancando a caixa da mão da neta.
— Perdão!... perdão!... perdão!...
— É ela!... é a mesma!... a cruz sagrada!... a cruz da família!... exclamou a velha beijando a santa relíquia com entusiasmo.
— Perdão!... perdão!... perdão!...
— Possa meu primo perdoar-lhe, disse Honorina, como eu de todo o meu coração o perdôo...
— Nunca!... nunca!... sai desta casa!... disse Ema.
— Minha mãe! acudiu Hugo; ele deve estar bem arrependido!...
— Nunca!... nunca!... bradou a velha afastando-se até o fundo da sala, como horrorizada. Era tal a comoção que experimentava Ema, que Hugo a seguiu ao sofá, onde ela acabava de cair sufocada.
Félix aproveitou esse momento, e falando a Honorina:
— O meu perdão!... disse ele.
— Eu já lhe perdoei de todo o meu coração, respondeu ela.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.