Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Mariana estava bela e deslumbradora como em seus primeiros dias de ventura; chamava o mancebo como dantes – sr. Cândido, – porém seus olhos ardentes e amorosos lhe davam ao mesmo tempo o mais carinhoso dos nomes.
Anacleto não podia compreender aquela metamorfose; mas respeitava o segredo da felicidade de sua filha, tanto quanto havia respeitado outrora o de seus tormentos.
Celina sorria para a vida... amava, era amada, e enfim esperava ser feliz; que lhe importava o mais?...
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Chegou o dia destinado para o casamento de Henrique e Mariana.
Tudo estava pronto: o altar, o sacerdote, os dois amantes e os convidados.
Só faltava Cândido. Debalde o esperaram por muito tempo.
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Na manhã desse dia Cândido, ao erguer-se do leito, recebeu da mão de Irias uma volumosa carta a ele dirigida.
Abriu e leu a carta curioso.
“Meu irmão: – Deste-me uma grande lição de virtude: mostrar-te-ei que a não gastaste mal comigo.
“Eu era um moço perdido, sem nobreza, sem generosidade e sem amor do que é verdadeiramente belo. Provarei que, com o exemplo da honra, soube conhecer os meus erros.
“Meu irmão, quando eu tornar a aparecer a teus olhos, não te envergonharás de me apertar a mão. Eu parto, para onde não sei ainda.
“Voltarei talvez um dia... quando o estudo, a meditação, as lágrimas, e as viagens tiverem gasto todos os meus remorsos, e me disserem que já não sou o mesmo.
“Voltarei digno de meu irmão; digno daquele que fez arder a meus olhos um milhão e um processo.
“No entretanto, meu irmão, eu te deixo a minha casa, confio-te a riqueza que nos deixou nosso pai. Acompanham a esta a escritura e todas as disposições necessárias para que tomes a direção da casa, como seu administrador-geral e meu sócio.
“Não é possível recusar, meu irmão; em nossa casa te esperam, e quando receberes esta, já estarei longe do Rio de Janeiro.
“Adeus, meu irmão. Eu te agradeço me teres feito bom... me teres feito cristão.
“Adeus! até um dia.
“Teu irmão, – Salustiano.”
Acabando de ler a carta, Cândido vestiu-se apressadamente, e saiu agitado. Encontrando João e Rodrigues, contou-lhes o que havia, e correram todos três em procura de Salustiano.
Perderam quase todo o dia em inúteis indagações; finalmente descobriram que o mancebo tinha tirado um passaporte e que se embarcara ao romper da aurora em um navio europeu.
Os três amigos correram à praia... tomaram informações; um inconveniente inesperado demorava o navio por algumas horas. Cândido, Rodrigues e João atiraram-se dentro de um bote e mandaram remar com toda a força para o navio.
Já não estavam longe... reconheceram em pé sobre a tolda, com os olhos embebidos na cidade que ia deixar, o infeliz Salustiano. Cândido soltou um grito de prazer; era-lhe possível arredar seu irmão daquela triste viagem.
Salustiano ouviu o grito... lançou os olhos sobre o batel... e estendeu os braços...
Mas o navio abriu de repente as asas... e gracioso deslizou sobre as águas.
– Adeus! gritou Salustiano, agitando seu lenço branco, adeus! até um dia!
– Adeus! respondeu Cândido chorando.
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Eram nove horas da noite quando, em companhia de João e Irias, Cândido entrou no “Céu cor-de-rosa”.
O sarau já tinha começado.
O mancebo desculpou o melhor que pôde sua ausência, dirigindo-se a Anacleto e Henrique.
Correu depois aos pés de Mariana, e, aproveitando um momento, disse-lhe toda a verdade em duas palavras.
Faltava Celina.
A “Bela Órfã” saudara com sorriso de amor a chegada de seu amado, e não podendo esconder sua perturbação, saiu da sala e fugiu para o jardim.
Mariana compreendeu o olhar de Cândido que se voltava a-lhes por toda a sala, e apontando para a porta do corredor, disse sorrindo:
– No jardim.
Cândido voou para o jardim.
Celina estava em pé junto de uma roseira.
Os dois amantes ficaram defronte um do outro perturbados, suspirando, e sem dizer palavra durante muito tempo.
Quando enfim Cândido ia pronunciar a primeira frase de amor... ouviu-se uma voz melancólica e trêmula que cantava perto:
“Era um dia um mancebo, que ardente “Pobre vida esquecido vivia;
“E uma virgem formosa, inocente,
“Que outra igual não se viu, não se via.
“Quem separa o ardor da beleza?...
“Um abismo fatal: – a pobreza.”
Cândido e Celina reconheceram a voz do velho Rodrigues e ficaram suspensos escutando o romance da virgem.
Finalmente o bom velho chegou à última estrofe do romance e cantou:
“E o mancebo, que tinha tentado A paixão que nascia abafar, Hoje a ela de todo curvado
Stá cos olhos no céu a clamar:
“Quem não fora nascido; – ou então
“Quem colhera o terceiro botão!...”
Cândido, sem pensar talvez no que fazia, repetiu como um eco o último verso da estrofe.
“Quem colhera o terceiro botão...”
A “Bela Órfã” compreendeu o pensamento de Cândido; tirou da roseira um botão de rosa e o ofereceu ao feliz mancebo.
Dava-lhe o seu coração.
Cândido recebeu de joelhos o presente de amor.
– Parabéns!... disse uma voz doce.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.