Por José de Alencar (1857)
D. Antônio passeava ao longo da sala, com a mesma serenidade de seus dias tranqüilos e plácidos de outrora; de vez em quando o fidalgo parava na porta do gabinete, lançava um olhar sobre sua mulher que orava e sua filha adormecida; depois continuava o passeio interrompido.
Os aventureiros grupados junto à porta seguiam com os olhos o vulto do fidalgo que se perdia no fundo escuro da sala, ou se destacava cheio de vigor e de colorido na esfera luminosa que cingia a lâmpada de prata suspensa ao teto.
Mudos, resignados, nenhum desses homens deixava escapar uma queixa, um suspiro que fosse; o exemplo de seu chefe reanimava neles essa coragem heróica do soldado que morre por uma causa santa.
Antes de obedecerem à ordem de D. Antônio de Mariz, eles tinham executado a sua sentença proferida contra Loredano; e quem passasse então sobre a esplanada veria em torno do poste, em que estava atado o frade, uma língua vermelha que lambia a fogueira, enroscando-se pelos toros de lenha.
O italiano sentia já o fogo que se aproximava e a fumaça, que, enovelando-se, envolvia-o numa névoa espessa; é impossível descrever a raiva, a cólera e o furor que se apossaram dele nesses momentos que precederam o suplício.
Mas voltemos à sala em que se achavam reunidos os principais personagens desta história, e onde se vão passar as cenas talvez mais importantes do drama.
A calma profunda que reinava nessa solidão não tinha sido perturbada; tudo estava em silêncio: e as trevas espessas da noite não deixavam perceber os objetos a alguns passos de distancia.
De repente listras de fogo atravessaram o ar, e se abateram sobre o edifício; eram as setas inflamadas dos selvagens que anunciavam o começo do ataque; durante alguns minutos foi como uma chuva de fogo, uma cascata de chamas que caiu sobre a casa.
Os aventureiros estremeceram; D. Antônio sorriu.
— É chegado o momento, meus amigos. Temos uma hora de vida; preparai-vos para morrer como cristãos e portugueses. Abri as portas para que possamos ver o céu.
O fidalgo dizia que lhe restava uma hora de vida, porque, tendo destruído o resto da escada de pedra, os selvagens não podiam subir ao rochedo senão escalando-o; e por maior que fosse a sua habilidade, não era possível que consumissem nisso menos tempo.
Quando os aventureiros abriram as portas, um vulto resvalou na sombra, e entrou na sala. Era Peri.
X
CRISTÃO
O índio dirigiu-se rapidamente a D. Antônio de Mariz.
— Peri quer salvar a senhora.
O fidalgo abanou a cabeça em sinal de dúvida.
— Escuta! replicou o índio.
Aproximando os lábios do ouvido de D. Antônio, falou-lhe por algum tempo em voz baixa, e num tom rápido e decisivo.
— Tudo está preparado: parte, desce o rio; quando a lua estender o seu arco chegarás à tribo dos Goitacás. A mãe de Peri te conhece: cem guerreiros te acompanharão à grande taba dos brancos.
D. Antônio de Mariz ouviu em profundo silêncio as palavras do índio; e quando ele terminou, apertou-lhe a mão com reconhecimento.
— Não, Peri: o que me propões é impossível. D. Antônio de Mariz não pode abandonar a sua casa, a sua família e os seus amigos no momento do perigo, ainda mesmo para salvar aquilo que ele mais ama neste mundo. Um fidalgo português não pode fugir diante do inimigo, qualquer que ele seja: morre vingando a sua morte.
Peri fez um gesto de desespero.
— Assim tu não queres salvar a senhora?
— Não posso, respondeu o cavalheiro; o meu dever manda que fique e partilhe a sorte de meus companheiros.
O índio no seu fanatismo não compreendia que houvesse uma razão capaz de sacrificar a vida de Cecília, que para ele era sagrada.
— Peri pensou que tu amasses a senhora! disse ele fora de si.
D. Antônio olhou-o com uma expressão de dignidade e nobreza.
— Perdôo-te a ofensa que me fizeste, amigo; porque é ainda uma prova de tua grande dedicação. Mas acredita-me; se fosse preciso que eu me votasse só ao sacrifício bárbaro dos selvagens para salvar minha filha, eu o faria sorrindo.
— E por que recusas o que Peri te pede?
— Por quê?... Porque o que tu pedes não é um sacrifício, é uma vergonha; é uma traição. Tu abandonarias tua mulher, teus companheiros, para salvar-te do inimigo, Peri?... O índio abaixou a cabeça com abatimento.
— Demais, essa empresa demanda forças com que um velho como eu já não pode contar. Havia duas pessoas que a poderiam realizar.
— Quem? perguntou Peri com um raio de esperança.
— Uma era meu filho, que a esta hora está bem longe daqui; a outra deixou-nos esta manhã e nos espera; era Álvaro.
— Peri fez pela senhora o que podia; tu não queres salvá-la; Peri vai morrer a seus pés.
— Morrer? disse o fidalgo. Quando tens a liberdade e a vida à tua disposição? E julgas que consentirei nisto?... Nunca! Vai, Peri; conserva a lembrança de teus amigos; a nossa alma te acompanhará na terra. Adeus. Parte: o tempo urge.
O índio ergueu a cabeça com um gesto soberbo de indignação.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.