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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Deixarei Henrique, senhora, prosseguiu Salustiano, e hei de vir fazer a mesma pergunta a um honrado velho que vive de amar sua filha... que a julga pura, que...

Mariana soltou um grito; Cândido ia dar um passo, mas ela atirou-se entre ele e Salustiano.

– Embora! exclamou com fogo, embora! perca-se tudo! rompa-se este casamento que deveria fazer a ventura do resto da minha vida! derrame ainda meu pai lágrimas amargas por minha causa; mas renegar meu filho? afastá-lo de meus olhos? negar-lhe o meu seio? nunca, nunca! agora, senhor, antes de todos está meu filho.

E chorando lágrimas de amor, abraçou-se estreitamente com Cândido.

– Bem, senhora, disse Salustiano tomando o chapéu, eu me retiro... tudo está decidido entre nós.

Cândido tinha sentido vibrar todas as cordas do coração de sua mãe; compreendeu que ia ser a causa de seus tormentos e de sua desgraça; e fazendo um violento esforço, desprendeu-se dos braços que o apertavam, e lançando-se adiante de Salustiano, exclamou:

– Uma palavra, senhor!

– O que temos? perguntou com desprezo o moço.

– Conhece a letra de seu pai?

– Sim.

– Pois veja.

E tirando do bolso uma folha de papel, que mostrava ter estado por muito tempo guardada, Cândido abriu-a aos olhos de Salustiano.

Era o escrito pelo qual Leandro reconhecia Cândido por seu filho.

Salustiano quando acabou de ler, tremia da cabeça até aos pés, e estava pálido como um finado.

– Eu sou seu irmão, disse Cândido.

Salustiano não respondeu.

– Metade da fortuna de que se acha de posse pertence-me de direito,

Salustiano, com os lábios brancos e convulsos, olhou com um olhar espantado e feroz para aquele que lhe estava falando.

Cândido voltou o rosto para Rodrigues e perguntou:

– Diga-me, sr. Rodrigues, sabe pouco mais ou menos quanto devo receber do sr. Salustiano?

– Um milhão, respondeu o velho.

– Pois bem, tornou Cândido com todo o sangue frio:

– Sr. Salustiano... meu irmão, eu dou-lhe um milhão pela carta de minha mãe.

O velho deu um passo...

Mariana ficou extática...

Salustiano continuou a olhar espantado para Cândido,

– O caso é simples, continuou Cândido: o senhor não conseguirá nunca desposar aquela que pretende; ao muito fará infrutiferamente a desgraça de minha mãe. E para que isso, senhor? para que procurar um remorso? acabemos com isto. Eis aqui uma vela que arde, acendamos nela nossas duas folhas de papel. Um queima um escrito que lhe dá um milhão, outro extingue uma carta que vale uma desgraça. Senhor, outra vez, o caso é simples: trata-se de um milhão!

Salustiano instintivamente lançou a mão ao bolso e tirou dele um papel.

Os dois mancebos aproximaram-se um do outro; Salustiano estava desfigurado, Cândido risonho e animado.

– Senhor, disse este, permita que minha mãe examine se é essa a carta de que se trata.

Salustiano chegou-se a Mariana que, depois de ler a carta, respondeu:

– É ela mesma,

– Senhor, continuou Cândido dirigindo-se a seu irmão: jura pela sua honra, pela salvação de sua alma, e pelas cinzas de sua mãe e de nosso pai, que nunca abusará deste segredo?

– Juro, murmurou Salustiano.

– Então... ao fogo!

Chegaram-se os dois moços para junto da luz; mas o velho Rodrigues, suspendendo Cândido, exclamou:

– Mancebo, lembra-te que vais queimar um milhão.

Cândido, com o mais eloqüente silêncio, apontou com a mão esquerda para sua mãe, e deixou cair a direita sobre a luz.

Enquanto as duas folhas de papel ardiam, Salustiano olhava para as chamas com a estupidez de um idiota, e Cândido com o sorrir de um anjo.

Só restavam cinzas... Mariana lançou-se com entusiasmo sobre Cândido.

– Meu filho!

Cândido recebeu-a de joelhos.

– Agora eu! disse uma voz.

Todos olharam: era João que acabava de entrar na sala.

– Que é isto?...

– É a vingança! bradou de.

Salustiano deixou-se cair aterrado sobre uma cadeira.

– Falsário!... falsário!... exclamou João sacudindo o processo subtraído a Jacó, diante dos olhos de Salustiano. Falsário! falsário! eis aqui a vingança!...

– O que quer dizer isto? perguntou Cândido a Rodrigues.

Breves palavras do velho explicaram tudo.

Cândido avançou para João.

– Meu bom amigo, eu sou o filho de Leandro, eu sou o herdeiro da amizade de cem anos.

A voz do moço era doce e tão terna, como foi o olhar que João lançou sobre ele.

– Em nome de meu pai, em nome da sagrada amizade que doravante há de ligar-nos até a morte, João, meu amigo, dá-me esse processo!...

João ficou imóvel, arrasaram-se-lhe os olhos d’água.

Cândido estendeu o braço e tirou-lhe o processo das mãos... sem que o velho fizesse a menor resistência.

– Por mais que queiras, João, disse Rodrigues comovido...? tu não podes ser mau...

Cândido tinha-se chegado outra vez junto da luz, e queimava o processo. – É meu irmão, disse de soluçando.

CONCLUSÃO

A FELICIDADE e o prazer estavam sorrindo de mil modos no “Céu cor-derosa”.

Cândido freqüentava de novo e mais assiduamente que nunca a casa de Anacleto; dirigindo-se a Mariana, tratava-a por – minha senhora; – mas sua voz tinha um tom de indizível ternura.

(continua...)

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