Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Havia na ação que praticava Raquel para salvar a sua própria rival, aquela que era amada pelo homem que ela amava; havia na dor dessa moça, no oferecimento de suas jóias um não sei quê de tão nobre, de tão grande e generoso, que Jorge pretendeu debalde falar... e começou a soluçar, chorando abraçado com o seu querido anjo. Porque Raquel tinha, na verdade, uma alma de anjo.
XXXVI
A cruz da família
O desconhecido e Félix saíram da casa de comércio de Hugo de Mendonça às sete horas e meia da noite, e, subindo ambos para uma sege, que esperava esse homem misterioso, que se nomeara simplesmente o moço loiro, foram caminho do bairro da Glória.
Segundo as ordens que recebeu, o boleeiro fez levar a sege a galope, e, deixando atrás de si diversas ruas tortuosas e feias da nossa cidade velha, e depois o Largo da Ajuda, o Passeio Público, o Largo da Lapa e o cais da Glória, entrou finalmente na rua diplomática, e foi parar exatamente defronte da casa de Hugo de Mendonça.
Toda a curta viagem se fizera em completo silêncio entre os dois; e só quando parou a sege, foi que o desconhecido, saltando para fora, e ajudando Félix a descer, disse-lhe, apontando para uma árvore frondosa, que ficava dentro do jardim, e a alguns passos da casa de Hugo: — Ali vou eu esperá-lo; no meu rosto poderá o senhor ler o propósito em que estou de me não deixar iludir; vá pois... cumpra o que prometeu, e receba o perdão de que carece.
E, conduzindo a Félix pela mão, até o corredor de entrada da casa de Hugo de Mendonça, o desconhecido empurrou-o para dentro, e foi colocar-se debaixo da árvore como firme sentinela. Félix, sempre trêmulo e irresoluto, arrastou-se até chegar à escada, e aí, apoiando-se sobre o corrimão... demorou-se por minutos.
Nesse instante os sinos das igrejas deram o sinal das oito horas da noite.
Havia luzes na casa de Hugo de Mendonça, porém todas as vidraças estavam cerradas. E por detrás de uma das vidraças desenhou-se uma sombra de mulher, que se voltou para o lado da árvore, e que desapareceu imediatamente, percebendo ali um homem, que agitou no ar seu lenço branco.
Esse movimento teria sido feito por acaso, ou era um sinal de antes ajustado?...
Como o resto do dia tinha corrido para Honorina, é fácil de pensar; mas o que não é por demais explicável, depois daquele sim escrito à viúva, sim à primeira vista tão simples, como bem compreendido prenhe de terríveis conseqüências, era o sossego que a moça mostrava na sua dor.
Honorina suspirava, gemia sempre, porém em uma espécie de inércia; nem falava, nem mais lamentava o seu estado, como se de uma vez, certa de que não estava em sua mão remediar o mal que sofria, não quisesse também dar-se a inúteis reflexões, ela suspirava, gemia sempre, esperando a noite, que devia ser a de seu último julgamento; semelhante a um relógio, que vai em sua marcha, gastando o tempo que lhe foi marcado até à hora em que irrevogavelmente deve parar, se a mão de alguém não fizer andar de novo a mola de sua vida.
Hugo de Mendonça continuara frio e resoluto, como homem que havia tomado um partido, que julga o único possível... o único; se de seus olhos esperava alguma lágrima, pertencia ela toda inteira à filha de seu coração.
Ema não pronunciara mais uma só palavra em todo o resto do dia. Ela conhecia que sua influência já pouco podia no ânimo de seu filho, no estado em que se achavam os negócios da casa, e, sobretudo, lembrando-se da má vontade que sua neta mostrara a Otávio, temia cada vez dobradamente ver ultimado o projeto que a fazia corar, o casamento de Honorina com Lauro.
Ema, como Hugo de Mendonça, ignorava que Lauro tinha um rival poderoso nesse homem sem nome, que à sombra da noite ou do mistério velava por Honorina, e em troca disso fazia entranhar sua imagem pela alma dela.
E assim como Félix estremecera e se apoiara no corrimão da casa de Hugo, este, sua mãe, e sua filha estremeceram também, ouvindo que os sinos marcavam oito horas da noite.
Porque Hugo de Mendonça avisara a sua filha de que a essa hora lhe viria ela dar a resposta... a decisão... a sentença.
Honorina ergueu-se, deixando seu quarto, dirigiu-se e entrou para a sala, onde a esperavam seus maiores.
Honorina estava pálida e melancólica; mas em seu rosto lia-se a expressão da coragem: seu porte tinha tomado um não sei quê de majestoso e grande, que assombrou a Ema e a Hugo de Mendonça; ela trazia nos lábios triste e brando sorriso... dir-se-ia um sorrir de mártir, votado em despedida ao mundo.
Honorina, obedecendo a seu pai, sentou-se entre ele e sua avó.
— Minha filha, disse Hugo, pensaste bem?...
— Estou determinada, meu pai.
— E o que decides?... perguntou o pai com espantador sangue-frio.
— Decidi confessar-me a meu pai, respondeu a moça, dizer-lhe tudo o que comigo se tem passado e se está passando, e pedir-lhe que me aconselhe como amigo.
— A decisão deve partir de ti, minha filha.
— E o conselho de vós, meu pai.
— Fala pois...
No instante mesmo em que Honorina ia começar, ouviu-se bater na escada, e uma escrava anunciou o Sr. Félix.
— Que entre, disse Hugo.
— Uma nova desgraça!... exclamou Ema.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.