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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Aquele moço e aquela senhora abraçados, e de joelhos juntos daquele velho alto e respeitável, pareciam talvez dois amantes trocando votos do mais terno e puro amor à sombra de uma árvore secular e majestosa.

De repente, e com um movimento rápido e forte, Mariana desenlaçou-se dos braços de seu filho e recuou dois passos.

– Minha mãe!... exclamou o mancebo com os braços estendidos para ela.

Mariana lançou a mão ao seio, e tirou de dentro o embrulho de arsênico.

– Era a morte!... disse ela, lançando o papel no chão e pisando-o com força. Entre meu filho e meu peito estava ainda um crime de permeio! agora sim... estou livre... estou bela... estou pura!... o amor de meu filho lava todas as minhas culpas.

E atirou-se de novo nos braços de Cândido.

Aquele prazer, a felicidade era tão grande em ambos, que Mariana esquecia Henrique, e Cândido não se lembrava de Celina.

Mas ouviu-se o rodar de uma carruagem que parou junto ao alpendre do “Céu cor-de-rosa”.

– É ele! disse o velho Rodrigues.

– É ele! disse erguendo-se Cândido, que já sabia tudo.

– Agora pode chegar, disse por sua vez Mariana erguendo-se também.

Com efeito pouco depois entrou na sala Salustiano, que pareceu admirar-se de achar Mariana acompanhada de duas pessoas.

O irmão de Cândido estava mais pálido que nunca.

– Pensava encontrá-la só, senhora, disse ele.

– Enganou-se; eu quis que duas pessoas testemunhassem o que se vai passar entre nós dois, respondeu a viúva levantando nobremente a cabeça.

Salustiano chegou-se para uma janela.

– Se é uma traição o que se me prepara, tornou ele, lembre-se, minha senhora, que ainda não é noite fechada, que muita gente está passando por baixo desta janela, e que ao primeiro sinal de emprego de força, eu farei presente de uma folha de papel ao primeiro que passar.

Mariana sorriu e disse:

– Descanse, meu caro senhor, tudo se concluirá em perfeita paz; vejo porém que me lembrou a tempo do que me devia ter já lembrado: a noite começa, e estamos quase às escuras.

Deu dois passos para a porta do corredor e disse:

– Luzes! tragam luzes!

Cândido de um lado e Rodrigues do outro, observavam a cena de braços cruzados.

A sala achou-se bem depressa iluminada.

– Nada de cerimônias; sentemo-nos. Vejamos, meu nobre senhor, apresente-nos o seu ultimato.

– Senhora!...

– Nada de interjeições; sobretudo, eu tenho pressa.

– Pois bem, senhora; eis aqui um contrato de casamento, ao qual só falta a assinatura de sua sobrinha.

Mariana recebeu o contrato, e depois de seriamente examiná-lo, disse:

– Pouco entendo de direito; todavia, creio que o tabelião e as testemunhas deveriam ter-se achado aqui.

– É possível que o desejasse?

– Certamente; e como faltou essa formalidade, que me dizem ser de modo mui positivo recomendada pela lei, peço-lhe licença para, em nome de minha sobrinha, rejeitar este papel.

Salustiano mordeu os beiços e disse:

– E terei eu também licença para mostrar aqui, e em toda a parte, um outro papel que trago no meu bolso?

– Aqui é desnecessário, respondeu Mariana sem hesitar; porque sabemos ambos que o sr. Rodrigues tem inteiro conhecimento desse papel, e o sr. Cândido já não ignora sobre que ele trata.

– E lá fora? perguntou Salustiano elevando a voz.

– Lá fora, senhor, poderá mostrá-lo a quem bem lhe parecer. Mas já que se quer dar ao incômodo de tornar público um erro de meus primeiros anos de moça, ofereço-me para facilitar-lhe a prova viva e documental desse erro.

– Eu a tenho no meu bolso, senhora. – Quero dar-lhe outra muito melhor.

– Melhor ainda? e qual?

– É meu filho, disse a viúva apontando para Cândido.

Salustiano ficou estupefato.

Cândido aproximou-se dele, e oferecendo-lhe a mão, disse com acento comovido:

– Meu irmão...

A voz de Cândido despertou Salustiano, que, soltando uma risada de escárnio, exclamou:

– Impostor!

Cândido corou até a raiz dos cabelos, e recolhendo a mão que havia estendido, cruzou de novo os braços.

Mariana apertou entre as suas uma das mãos do mancebo, dizendo-lhe:

– Não cores assim, meu filho; que importa que teu irmão te desconheça, se tua mãe te abre os braços?... vem... eu quero apertar-te contra meu seio diante dele; vem!

E depois de abraçar apertadamente seu filho, continuou dirigindo-se a Salustiano:

– Vê bem que já não receio o veneno da sua língua. Acabou-se o senhor, desapareceu a escrava. Agora eu o desafio orgulhosa!

– Ainda quando o que se representa aqui não fosse uma miserável comédia, respondeu Salustiano, ainda quando o que está dizendo tivesse todos os visos de verdade, acredita, minha senhora, que toda a esperança de vingar-me estava perdida para mim?

– Oh!... ainda?...

– Pois bem... o sr. Cândido é seu filho? qual é o nome do pai de seu filho?

Mariana fez um movimento.

– Senhor...

– Não responde?... tanto melhor. Irei perguntar ao sr. Henrique...

A viúva empalideceu; lembrou-se do amor daquele que o inesperado aparecimento de seu filho fizera esquecer tanto tempo. Duas lágrimas eloqüentes penderam das pálpebras de Mariana.

Cândido com um olhar cheio de amor e de profundo sentimento, mostrou compreender a significação destas lágrimas.

– A resposta de Henrique, senhora, será pronta e nobre; não preciso dizer qual seja...

– Embora... balbuciou, como gemendo, a mãe de Cândido, olhando ternamente para seu filho.

(continua...)

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