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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Jorge tinha deixado sua filha senão menos desgraçada, todavia mais animada e capaz de resistir à crueza de seu destino; achar um companheiro para gemer conosco, para conosco falar do mal que sentimos, não é um remédio, mas é sempre uma consolação. Raquel tinha achado um companheiro em seu próprio pai.

Não que as últimas palavras que dele acabara de ouvir lhe desenhassem um fagueiro íris de esperança no horizonte de sua vida, não. Jorge havia dito que um amor desgraçado pode curarse com outro amor mais feliz; porém Raquel, que, devendo responder sempre com respeito a seu pai, sacudiu apenas negativamente a cabeça, repelia dentro de si semelhante idéia, como ofensiva à pureza de seu coração.

A bela jovem, que nunca amara antes de ver o moço loiro, até então tinha sua alma livre dessas impressões ardentes, como um vaso virgem e delicado, onde jamais se lançara nenhum líquido; o primeiro, que aí se depositasse, devia por força entranhar-se nos poros dele, e deixar para sempre arraigado seu perfume. O moço loiro apareceu... sua imagem preencheu um vácuo, que havia no coração de Raquel, sem que ela o pressentisse... tomou parte na sua vida... ficou senhor de seus pensamentos... ganhou, enfim, o amor de Raquel... o primeiro amor... o único verdadeiro e eterno.

Raquel ergueu-se, e pela primeira vez, depois de quinze dias, dirigiu-se para seu toucador; enfim, ela era mulher... queria ver como se achava o seu rosto... o seu tesouro... ela viu e recuou!...

O fogo de seus olhos estava quase extinto... fora substituído pelo langor da melancolia: as rosas de suas faces haviam murchado... desaparecido e cedido o seu lugar aos brancos jasmins do sofrimento; seus lábios não se amoldavam mais ao gracioso sorrir dos dias de ventura; o belo anjo do prazer se trocara pela sombra graciosa da saudade! Raquel recuou espantada de si própria, dizendo:

— Como estou mudada! meu Deus!... eu causo medo!...

E, todavia, jamais Raquel poderia ter-se mostrado tão bela aos olhos de um jovem poeta!... ela tinha no seu rosto toda a sublime e interessante beleza da dor misteriosa.

Fugindo de seu toucador, Raquel foi de novo cair no leito, e outra vez entregou-se a seus tristes pensamentos; duas longas horas se haviam já passado assim nesse viver de eloqüente silêncio, apenas interrompido por suspiros, quando ela sentiu os apressados passos de alguém que para sua câmara se dirigia.

Raquel levantou-se prontamente e viu entrar seu pai, pálido e agitado.

— Meu pai, exclamou Raquel correndo para ele, o que sucede?...

— Uma desgraça, minha filha, um acontecimento fatal!

— Então o que é?...

— Amigos nossos que se acham perdidos!...

— Quem, meu pai, quem?

— Hugo de Mendonça... sua família inteira.

A desgraça de Hugo já era conhecida na praça; não se sabia quem espalhara a terrível notícia... fora talvez Otávio... ou talvez uma previsão, porque, assim como parece que às vezes o povo adivinha funestos acontecimentos políticos... ou se espalha em uma cidade a perda de uma batalha que longe se dá... sem se saber donde veio tal nova, ou quem a trouxe, assim também no comércio adivinham-se os apuros de um negociante, prevê-se uma quebra, conta-se com um infortúnio.

— Mas, meu pai, então o que há?... perguntou Raquel assustada.

— Uma quebra: a casa de Hugo vai cair; e sua família tombará na miséria.

— Oh! minha boa Honorina!... exclamou a moça com violenta expressão de sentimento. Jorge encarou com prazer indizível aquela dor aguda que sentia a filha pela desgraça de sua rival.

— Meu pai, disse Raquel, então há enormes dívidas?...

— Que sobem talvez a mais de cem contos de réis!

— E o Sr. Hugo não achará nenhum meio de salvar-se?...

— Se no mês que corre, pudesse conseguir a terça parte dessa quantia, ainda poderia sustentar-se por algum tempo... para cair mais tarde...

— E então?...

— Não haverá, portanto, quem se atreva a expor a uma perda quase certa tão avultada soma, indo oferecê-la a Hugo; e Hugo mesmo rejeitaria, porque conhece que não poderá pagá-la.

— O que lhe resta pois?...

— Ir, como um homem honrado, entregar tudo o que possui aos credores.

— Oh, minha boa Honorina! exclamou outra vez Raquel.

E, correndo para seu toucador, abriu uma gaveta, tirou dela seu cofre de jóias, que despejou sobre o leito; devorou, então, com os olhos os antigos e os novos e numerosos presentes de seu pai; contou um por um seus braceletes, adereços, brincos, bandós e flores de brilhantes; contou um por um todos os seus anéis, todas as suas jóias, enfim, e, depois, apontando com o dedo para a riqueza de seu toucador:

— Meu pai, disse ela, o valor de tudo isto?...

— É grande, sem dúvida muito elevado.

— Poderia chegar para salvar o Sr. Hugo de Mendonça de suas primeiras dificuldades?...

— Seguramente!... respondeu o velho, admirado.

Raquel caiu de joelhos aos pés de Jorge, e com lágrimas nos olhos, com voz comovida exclamou:

— Meu pai!... meu pai!... se me tem amor, permita que eu faça alguma coisa pela minha amiga!...

(continua...)

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