Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
A viúva soltou um brado arrancado do âmago do coração, e caiu aos pés do velho Rodrigues.
– O licor do sinistro frasquinho havia sido trocado.
– Meu filho!... meu filho!... bradava a pobre senhora.
– Mas desde que Leandro soube que a alma de Mariana concebera o horrível pensamento de um infanticídio, e tratara de realizá-lo, aborreceu-a tanto quanto a havia amado.
– E meu filho?... onde está meu filho?... perguntava Mariana desesperadamente.
– Essa criança foi criada com desvelo e ternura; nada lhe faltou nunca... ao sair da infância partiu para a Europa...
– Educava-se lá quando seu pai morreu...
– E meu filho?
– Na véspera do dia de sua morte, Leandro fez sair todos de seu quarto, e ficou só com seus dois amigos. “João, Rodrigues, eu vou deixar-vos o meu filho. Eu podia fazer testamento, e reconhecer por meu filho esse pobre inocente, que ambos conheceis. Mas ele pode morrer antes de chegar à idade em que deverá receber a herança que lhe compete, e eu teria infrutiferamente publicado um erro de minha mocidade, e dado assim a conhecer a uma mãe desnaturada o filho, que ela pensa ter assassinado. Pensei melhor, quanto a mim.” Leandro mandou-nos abrir na gaveta e tirar dela um papel que designou, uma carta que estava fechada. “Eis aqui, continuou ele, uma carta que fareis chegar cautelosamente às mãos da filha de Anacleto. Vai aí dentro toda a nossa correspondência do tempo de amor e de esperança. Agora este papel, meus amigos, é a última prova que vos dou da minha amizade. Este papel é o escrito de reconhecimento de meu filho, que vós ides assinar como testemunhas, guardar para depositar em suas mãos, quando ele fizer vinte e um anos.” João e eu assinamos e guardamos então o escrito de reconhecimento de teu filho, mulher.
– Oh! exclamou Mariana; mas que me importa isso?... que tenho eu com essa história? ouviu, senhor, eu quero meu filho!
– Leandro morreu, senhora, continuou Rodrigues sem atender a Mariana; e ficaram seus dois amigos velando sempre sobre o pobre moço. Ele voltou da Europa, e eu tive o pensamento de trazê-lo ao teto em que morava a sua mãe.
– Oh! sim!... sim!... disse a viúva com as mãos postas.
– Para consegui-lo vim aqui pedir, como um pobre velho sem meios, o lugar de guarda-portão do “Céu cor-de-rosa. Dali, daquele alpendre, velei por teu filho, mulher! dali, daquele alpendre, concebi o projeto de trazê-lo para junto de sua mãe, fazendo-o esposo da mais bela das virgens, esposo de Celina...
– Oh!... bradou Mariana, em cujo espírito tinha brilhado um raio de luz.
– E agora, mulher, teu filho? teu filho já tem vinte e um anos... ama a Celina; e tu, mulher, queres matar a mãe do mísero mancebo, porque não pudeste conseguir roubar-lhe o coração da amada! sim, queres suicidar-te!
– Meu filho!... meu filho!... meu filho!... bradava Mariana andando como louca pela sala.
– Tu o enxotaste já uma vez para longe desta casa!
– Meu filho!...
O movimento que havia, e o ruído que se fazia na sala, impediu que Rodrigues e Mariana ouvissem os soluços de alguém que se achava escutando junto da porta.
– Mas enfim, mulher, continuou o velho, tu tens sido já bem castigada!...
agora...
– Eu quero meu filho!
Mariana falava por entre lágrimas; seus cabelos estavam soltos, seu olhar brilhante, seu rosto enrubescido, e sua voz alterada.
– Escuta, disse o velho,
– Ouvi demais, exclamou ela com força. Não escuto nada... não quero... não posso. Eu quero ver meu filho... quero abraçá-lo... quero beijá-lo... quero... oh! meu filho é o anjo que me salva! meu filho é o perdão de meus pecados, que eu não merecia, e que Deus me concede!... ah!... não preciso que me guiem... eu conheço, eu sei quem é. Eu sei onde está meu filho! vou vê-lo, vou buscá-lo! meu filho!...
E, quase delirante, atirou-se para a porta.
Batiam nesse momento desesperadamente.
Rodrigues, com os olhos lavados em lágrimas, e soluçando fortemente, deu volta à chave.
A porta abriu-se, e ele entrou...
Mãe e filho caíram ambos de joelhos, e abraçaram-se um com outro chorando, e exclamando ao mesmo tempo:
– Minha mãe!...
– Meu filho!...
O filho de Mariana era Cândido.
CAPÍTULO XLIV
FILHO E IRMÃO
ELES CONTINUAVAM abraçados misturando suas lágrimas e seus carinhos. Era um tesouro insondável, uma riqueza enormíssima, que ambos acabavam de obter do céu.
Cândido achava finalmente o objeto daquele amor santo de seu coração; abraçava sua mãe.
Mariana encontrava inesperadamente no mundo uma criatura que supunha ter
ela mesma feito desaparecer do mundo: abraçava seu filho.
Não havia mais vácuo no coração do mancebo, nem fantasma na imaginação da mulher.
Choravam ambos; suas lágrimas porém eram bem doces; eram lágrimas de uma felicidade que se não mede: felicidade tão grande que não lhe bastam os lábios por onde sai em sorrisos, que lhe são precisos também os olhos por onde em lágrimas se derrama.
Completava o quadro a figura nobre do velho Rodrigues.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.