Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– É verdade; a intolerância política veio logo separá-los. Com efeito, o ministério da independência, o gabinete Andrada acabava de cair; homens acusados de simpatia pelo antigo sistema subiram ao poder; a população dividiu-se em dois campos inimigos, e a exaltação dominou em ambos. Anacleto extremava-se defendendo as velhas idéias, Leandro representava as novas, que pouco antes haviam triunfado. Um dia o velho e o moço encontraram-se defronte um do outro em completo antagonismo; o exaltamento de ambos inspirou-lhes palavras desabridas, e o pai de Mariana, estendendo o braço, mostrou ao noivo de sua filha a porta por onde devia sair para não tornar nunca mais à sua casa; ficaram inimigos irreconciliáveis.
– Oh! foi assim!
– Anacleto ordenou a sua filha que esquecesse para sempre o feroz republicano; e a desgraçada, que já não tinha o direito de esquecê-lo, não teve ânimo de cair aos pés de seu pai e de confessar-lhe que havia cometido um erro, e que sentia fortemente as conseqüências desse erro. Mais ainda; Anacleto fez-se perseguidor de Leandro, que se viu obrigado a viver oculto durante alguns meses dessa época tão calamitosa. No entretanto, senhora, tinham chegado do campo dois amigos de Leandro, dois amigos que não hesitaram em dar a vida por ele; o infeliz abriu-lhes o seu coração... contou-lhes tudo; e João e Rodrigues, os dois amigos, tomaram sobre seus ombros o encargo de observar Mariana, de velar por ela...
Mariana levantou um pouco a cabeça.
– Como lamentavas tu, mulher vaidosa, a desgraça do homem que te amava?... como choravas tu, mulher imprevidente e louca, a tua própria desgraça?... alegre e festiva, tu te embriagavas de novo com os prazeres da corte... os saraus... os passeios... a vida de loucuras continuava sempre!... parecias até esquecida de ti mesma. Ah! sim! mulher, a tua cabeça não se lembrava de teu seio.
Mariana tornou a esconder o rosto entre as mãos,
– O teu viver exasperava o infeliz Leandro, que não podia estar a teu lado, e que, escondido, via-te apenas pelos olhos de seus dois amigos. Ele compreendeu que não serias nunca uma esposa extremosa e devotada em corpo e alma a seu marido; e todavia o pensamento único que o ocupava, a idéia que lhe roubava o sono, era a dívida imensa que te ficara devendo. Suspirava pela liberdade para salvar-te; sabendo que sorrias no mundo, que sorrias, mulher, tu que devias chorar, o infeliz chorava em dobro... chorava por ti... e por si.
Mariana não disse nada; conhecia-se porém que estava sofrendo muito.
– No entretanto, prosseguiu o velho Rodrigues, o tempo corria... as perseguições continuavam, a assembléia constituinte tinha sido dissolvida... os mais extremados patriotas deportados. Leandro não podia ainda aparecer. Foi então que soubemos que Mariana havia deixado a corte para passar algum tempo com uma velha parenta estabelecida na roça. Compreendemos o fim da viagem, e um dos amigos de Leandro, eu, senhora, fui encarregado de seguir Mariana. Compenetreime da delicadeza de minha missão, e, decidido a tudo arrostar, tive uma conferência particular com a velha parenta da amante de Leandro.
– Basta! balbuciou Mariana; vejo que nada ignora... nem do que falta... mas basta.
Sorriu tristemente o velho, e prosseguiu:
– Rodrigues e a velha parenta deram-se as mãos, e velaram de comum acordo; e queres saber, mulher, qual foi o primeiro resultado dessa vigilância?.. foi descobrir-se que havia em uma das gavetas do toucador de Mariana um frasquinho cheio de um líquido sinistro... a décima parte desse líquido contido no frasquinho sobejava para afogar uma criança... e a mãe dessa criança também.
– Oh!...
– Pois, passado um mês, Mariana fez a sua primeira experiência; bebeu a décima parte daquele líquido, e, contra sua expectativa, passou às mil maravilhas.
– Senhor...
– Passado outro mês... segunda tentativa; e o mesmo resultado ainda...
– Então...
– Ah! o outro mês era realmente para temer-se. A mulher louca e vaidosa empunhou o frasquinho, levou-o aos lábios, e esvaziou-o todo. Devia ser a morte o que ela tinha bebido.
– Meu Deus!...
– Ao anoitecer... dores... ânsias horríveis... no fim de algumas horas perda completa de sentidos... ficou como morta.
– Oh!... por que não morri, meu Deus?!
– Senhora, quando aquela mulher abriu outra vez os olhos, a natureza falou antes da vaidade. Ela abriu os olhos e exclamou com dor imensa: – meu filho!... – e a velha parenta, que a pouca distância a observava tristemente, respondeu: – nasceu morto.
– Ah!...
– Porém no dia seguinte, às onze horas da noite, senhora, a borrasca ribombava... a chuva caía... os elementos estavam desenfreados... e um homem envolvido em longa capa negra foi bater à porta de uma pobre casa na cidade do Rio de Janeiro. Dentro dessa casa estavam rezando aos pés de Nossa Senhora das Dores uma mulher velha e uma escrava. A porta foi aberta; o homem entrou, lançou a capa fora de seus ombros, e em nome da Santíssima Virgem Mãe de Deus, aquela mulher recebeu e adotou uma criança recém-nascida.
– E essa criança?... exclamou Mariana com um grito desesperado.
– Era teu filho, Mariana!
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.