Por José de Alencar (1875)
Foi só por tarde que o capitão-mór voltou de perseguir o inimigo e não coltou senão obrigado pela fadiga de sua gente que pelejava desde o romper do dia, e também pela estafados cavalos. Mas o orgulhoso fazendeiro deixou rastejadores para descobrirem a pista do Fragoso; e jurou que em poucos dias se poria a caminho para arrasar a fazenda das Araras nos Inhamuns, e agarrar o atrevido onde quer que êle se escondesse.
A poucos passos da fazenda, Arnaldo viu Jó ao longe, sentado em um tôco de pau negro do fogo e com os olhos submergidos no azul do céu.
— Por que tardaste, Jó?
— Aquele homem não te pertencia enquanto a sorte pudesse mudar seu destino. Esperei para ver se Deus mandava uma bala que o levasse.
— Sua vida não corre perigo.
— Sua vida, não; foi sua felicidade que mataste.
— Êle não ama D. Flor.
— Ama sua liberdade, filho.
Arnaldo ficou pensativo; êle sabia que amor é êsse da independência, a melhor aura do coração brioso.
— Não te desconsoles, filho; é preciso que os homens se devorem entre si, para que a terra caiba à raça de Caim.
O velho absorveu-se de novo em sua cogitação; e Arnaldo dirigiu-se à Oiticica, onde o capitão-mór já tinha chegado, e achava-se no meio de sua família, depois de haver trocado as efusões do mútuo contentamento.
A recordação da morte de Leandro Barbalho anuviara a alegria que em todos excitava o triunfo inesperado em tão árduas circunstâncias como aquelas em que se achara a fazenda. Mas essa mágoa esqueceu naquele instante de ventura para voltar depois.
O capitão-mór já sabia pelo Agrela de tudo quanto Arnaldo fizera para prevenir o assalto e rechaçá-lo com vantagem. Assim, vendo aproximar-se o sertanejo, êle foi ao seu encontro, e travando-lhe da mão, veio apresentá-lo à mulher e à filha.
— D. Genoveva, aquía está quem salvou-nos. A êle devemos todos a vida, Flor.
— Mais que isso, meu pai; a felicidade de estarmos agora aquí reunidos, e a satisfação de ver castigados aqueles que nos insultaram.
— É assim. Arnaldo, nós queremos dar-lhe uma prova de nossa gratidão pelo serviço que nos prestou. Peça o que quiser.
— O sr. capitão-mór promete dar-me o que desejo? perguntou o sertanejo singelamente.
— Não prometemos, e nem juramos. Está feito! O capitão-mór Gonçalo Pires Campelo não é quem manda aquí neste momento; fale, Arnaldo, para ser obedecido.
O sertanejo estremeceu. Uma vertigem passou-lhe pelos olhos, que êle cravou no chão. Afinal recalmando a emoção que lhe tinham causado as palavras do capitão-mór, respondeu já calmo e com voz segura:
— Peço a mão de Alina.
— Essa lhe pertence, Arnaldo, criei-a para ser sua mulher, disse o capitão-mór.
Um leve desmaio perspassara o formoso semblante de D. Flor. Quanto a Alina, sentira-se como envôlta por uma chama; a onda, que refluira do coração, abrasando-lhe as faces, turbou-lhes os sentidos.
— Não peço a mão de Alina para mim, replicara entretanto Arnaldo; mas para um coração nobre que a merce; para o ajudante Agrela.
— Oh!… fez o fazendeiro surpreso. Que diz a isso nosso ajudante?
— Que seria a minha ventura, sr. capitão-mór, se ela consentisse.
— E para si, Arnaldo, que deseja? insistiu Campelo.
— Que o sr. capitão-mór me deixe beijar sua mão; basta-me isso.
— Tu és um homem, e de hoje em diante quero que te chames Arnaldo Louredo Campelo.
Proferindo estas palavras em uma expansão de entusiasmo, o capitão-mór abraçou o sertanejo. Depois tomando a mão de Alina, deu-a ao Agrela.
— As bodas se farão, logo que se acabe o luto por nosso infeliz sobrinho Leandro Barbalho.
Foi cruel o desencanto de Alina quando ao tornar a si da comoção produzida pelo pedido de Arnaldo, sentiu sua mão na mão do Agrela. A linda moça fitou no sertanejo um olhar de mártir e suas pálpebras cerrando-se com uma expressão de dorida, pareciam desdobrar um sudário para velar a formosa estátua.
Agrela pressentira o que se passava n’alma de Alina, e soltando-lhe a mão, murmurou:
— Não se assuste, Alina. Juro que não aceitarei sua mão, enquanto não m’a der de sua livre vontade.
O capitão-mór e D. Genoveva recolheram-se à casa, onde os seguiu Alina; Agrela apertou a mão de Arnaldo e retirou-se também. Era então ao pôr do sol.
Flor, que pouco antes apartara-se do grupo da família, fôra sentar-se no banco da oiticica, e engolfou-se nas cismas, que despertava a lembrança ainda tão recente dos acontecimentos que haviam agitado sua existência feliz e serena.
Arnaldo aproximou-se, e viu o mavioso semblante da donzela tocado de uma doce melancolia, como se o crepúsculo do céu que ela fitava se refletisse em suas feições gentís. Os grandes olhos límpidos e brilhantes empanaram-se; e duas lágrimas rolaram pelas faces rubescentes. — Está triste, Flor? disse Arnaldo.
A donzela sobressaltou-se:
— Estou com pena de Leandro.
— Queria-lhe muito? perguntou Arnaldo trêmulo.
— Era meu primo; e morreu por minha causa.
— Só?…
O sertanejo interrogou o semblante de Flor, que pousando nele seus olhos aveludados, respondeu:
— Deus não quer que eu me case, Arnaldo!
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.