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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– E no meio de mil formosas donzelas, que davam vida a essas festas, havia uma jovem senhora, uma moça que acabava de sair da infância, e que fazia o orgulho das sociedades e o martírio das outras moças.

Mariana sentiu apertar-se-lhe o coração.

– Era uma jovem extrema e perigosamente encantadora; era morena, tinha os cabelos e os olhos negros e brilhantes, e o rosto cheio de viveza e malícia, o pescoço garboso como o de um cisne. E toda ela era bem feita; formosa e bem feita, que arrebatava. E tinha um olhar magnífico, fixo e ardente como o do tigre, um sorrir meigo e carinhoso que enfeitiçava; uma voz harmoniosa e tocante, e, finalmente, um andar que provocava. Era uma mulher perigosa e terrível... era capaz de ser o anjo da salvação, ou o demônio da perdição de um homem. Essa mulher imensamente encantadora chamava-se Mariana.

E Mariana suspirou de novo.

– Objeto de todas as atenções, os mancebos a rodeavam e festejavam de mil modos; os pais davam parabéns ao pai da feliz moça; e as moças a invejavam; e as casadas tinham os olhos fitos em seus maridos por causa dela; e as mães a malqueriam por causa de suas filhas; porém Mariana, orgulhosa de seus encantos, passeava por entre aquelas senhoras, e por entre todos aqueles homens, como o sol que faz o seu giro no espaço, escurecendo as estrelas e espalhando sua luz por toda a parte.

E a viúva suspirou ainda uma vez.

– Ídolo de tantos, ídolo de todos os homens pelo menos, a indiferença de um era insulto para essa moça tão bela como vaidosa; era um insulto de que ela sabia vingar-se, trabalhando por prender maniatado ao seu carro o insolente que se esquecera de vir queimar incenso aos pés da princesa das festas. Essa moça queria escravos adoradores, e presunçosa aceitava todos esses cultos, concedendo às vezes um olhar a este, um sorriso àquele, uma palavra meiga àquele outro, mas não dando o seu amor a nenhum.

– Foi assim, murmurou a infeliz.

– Todavia apareceu nas sociedades um homem que não se lembrou e correr aos pés de Mariana, não era uma criança, nem um velho; ninguém lhe daria menos de vinte e seis anos nem mais de trinta; estava livre, tinha coração; e portanto devia pretender agradar à bela moça; esse homem não curou disso. Melancólico e abatido, sempre vestido de luto, parecia tão ocupado com suas mágoas passadas, que não tinha tempo de admirar a beleza do dia. Esse foi a princípio julgado uma fera bravia por Mariana, e portanto indigno de suas costumadas vinganças; depois, ela mudou de opinião; entendeu que era um montanhês mal-educado; depois acreditou-o insolente e orgulhoso; e depois...

– Provoquei-o!... balbuciou Mariana.

– Provocou-o, repetiu o velho. Leandro (era o nome desse homem) despertou às provocações da bela moça; viu... viu então, e observou pela vez primeira esse dilúvio de encantos e de graças, que a natureza tinha acumulado nessa mulher, e não pôde resistir à necessidade de admirá-la. O amor tinha algum tempo antes aberto no coração de Leandro profundas feridas, que ainda não haviam cicatrizado; e pois, ele fugiu de Mariana como de um perigo, de uma tentação, de um encanto insidioso.

– Ofendeu a minha vaidade!

– Sim, ofendeu a vaidade da mulher altiva; e ela jurou ser, a todo o custo, dona daquele coração. Desde o momento em que concebeu um tal propósito, Mariana esqueceu todos os seus antigos adoradores, e, sem o pensar, queimou incenso por sua vez aos pés de um homem...

– Amei-o!

– Sim; a vaidade de Mariana fé-la amar a Leandro. Todos os meios de sedução de que ela podia dispor foram postos em campo... o homem não resistiu; Mariana e Leandro amaram-se.

– Oh! foi assim mesmo!

– À primeira hora de declaração do amor, seguiram-se dias de embriaguez e de felicidade inconcebível, e seguiu-se uma noite de paixão delirante... de prazer feroz...

– Oh! basta.

– Teve lugar em um dos arrabaldes da corte uma brilhante festa campestre; havia um sarau no meio das flores... um jardim iluminado... um lago cercado de luzes... um bosque de arbustos floridos adiante... encanto em toda a parte. Leandro e Mariana acharam-se presentes à festa: dançaram juntos, e foram juntos passear pelo jardim. Esqueceram o mundo e os homens... lembravam-se unicamente de seu amor... e primeiro vagaram por entre as flores... depois conversaram espelhando-se nas águas sossegadas do lago... e depois entraram no bosque...

– Oh!

– O interior do bosque era sombrio; fora soava a música terna e maviosa; dentro exalavam-se embriagadores perfumes; mas... outra vez o bosque era sombrio... senhora! Leandro e Mariana perderam-se no bosque.

– Perderam-se!... balbuciou dolorosamente a viúva.

– Quando voltaram, para de novo tomar parte na festa, Mariana estava pálida, e Leandro mais que nunca apaixonado.

– Ele sabe tudo! disse a pobre mulher.

– No dia seguinte, prosseguiu o velho, Leandro foi visitar o pai de Mariana, e pediu-lhe a mão da bela moça; o casamento foi ajustado; deveria celebrar-se daí a um mês. No entretanto Leandro e Anacleto ligaram-se, como bons amigos.

– Ah!... por bem pouco tempo!

(continua...)

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