Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
A mísera arrancou das entranhas um gemido pungentíssimo; desenhava-se a seus olhos a figura dolorosa do pobre velho, morrendo, a chorar ajoelhado sobre sua cova.
– Meu Deus! meu Deus! exclamou, de joelhos e com as mãos levantadas. Meu Deus! não me perdoeis embora os horríveis pecados, que tenho em minha nefanda vida cometido; mas perdoai-me, senhor da minha alma, perdoai-me as lágrimas que meu pai tem chorado e vai ainda chorar por mim; perdoai-me, meu Deus, os desgostos de que tenho enchido aquele amoroso coração! meu Deus! meu Senhor! valei a meu pai na dor imensa que ele vai sofrer!
Depois ela ergueu-se, e como se devesse estar vagando de tormento em tormento, como se tivesse antes de chegar o termo fatal, a morte, de passar por mil torturas, Mariana apertou as mãos contra o seio, e murmurou chorando:
– E meu filho?...
E prosseguiu por entre soluços:
– Meu filho, que hoje deveria ser um belo mancebo, que me levaria pelo braço à igreja e aos passeios, que me consolaria em minhas aflições, que me defenderia... que daria a vida por sua mãe!... oh! para que fui eu fazer-me a mais infeliz de todas as criaturas?!
“Meu filho! meu querido inocente!... meu belo anjinho! ah! se ele vivesse, ver-me-ia eu hoje reduzida a tanta miséria?... louca... criminosa que fui; troquei a vida de meu filho por um pouco de arsênico! crime duas vezes... demônio sempre!
E apertando a cabeça com as mãos, a mísera, tendo os cabelos já caídos desordenadamente, começou a vagar a largos passos pela sala, exclamando de um modo horroroso:
– Eu o matei! eu o matei!
Finalmente pareceu serenar. Veio sentar-se de novo no sofá; mas quem lhe visse o riso estúpido, que lhe enfeava os lábios, quem lhe notasse os movimentos sucessivos, rápidos e inconseqüentes, compreenderia que um excesso de dor punha em desarranjo as idéias daquela infeliz mulher.
Ela sentou-se, pois, e daí a pouco com uma espécie de alegria que era capaz de fazer chorar, disse baixinho:
– Ninguém o sabe... ninguém o sabe; só ele.. o mau; porém ele me verá morrer e guardará segredo; ainda bem... ainda bem... ninguém o sabe.
– Eu o sei, senhora! disse uma voz rouca.
Mariana ergueu-se convulsa, lançou-se sobre a porta da sala e perguntou desesperada:
– Quem está aí?
A porta da sala abriu-se.
Apareceu o velho Rodrigues.
CAPÍTULO XLIII
MARIANA E RODRIGUES
MARIANA, com os cabelos eriçados e os braços estendedidos para diante, recuou espavorida, como se lhe tivesse aparecido um espectro.
O velho Rodrigues entrou vagaroso e sossegado.
– Quem é?... perguntou a viúva aterrada. Quem é o senhor?
– Sou o guarda-portão do “Céu cor-de-rosa”, senhora.
– E ouviu tudo?... balbuciou a mísera.
– Não, respondeu o velho. Eu não precisava ouvir nada. Desde vinte e um anos que eu sei tudo.
Mariana deixou-se cair quase desfalecida sobre o sofá.
Rodrigues vivamente comovido aproximou-se da infeliz mulher, e repetiu:
– Eu sei tudo,
A viúva sacudiu dolorosamente a cabeça, e murmurou – Não... não... é impossível!
O velho, em pé diante de Mariana, descansou a mão sobre o encosto da cadeira e disse:
– Mulher! tens sofrido muito.
– Oh! sim!...
– Vaidosa, tu és ferida na tua vaidade.
– Oh!... sim!...
– Rainha, tu te tornaste escrava.
– Oh!... sim!..
– Caráter forte, intrépido, e até insolente, tu te rebaixas hoje, tu te revolves no pó, tu tremes de palavras que se dizem em segredo.
– É verdade!
– Mulher destemida, tu és hoje a mais covarde entre todas.
– É certo.
– Tão covarde que te queres despojar da vida!...
– Oh!...
– Cristã, tu olvidas as leis de Cristo!
– Oh!...
– Aí, no teu seio, tu escondes um instrumento de morte.
– Senhor!...
– Eu tinha os olhos sobre ti, mulher; eu vi tudo. E sabes o que te acovarda?...
sabes o que te leva ao desespero? sabes o que te empurra para o túmulo? oh! tu o sabes, tu o sentes... é a consciência do crime.
– Meu Deus!..
– Não há véu bastante denso para esconder de todo os delitos. Tarde ou cedo... tudo se descobre; e muitas vezes um homem que cometeu um crime abominável, e que se julga impune, porque acredita que todos ignoram a ação nefanda que praticou, vai passando pela multidão com a cabeça levantada, sem saber que outro está apontando para ele e dizendo: “Ali vai um malvado!” – Oh! é verdade!
– Mulher, desde muito que eu sei a tua história. Eu a sei mesmo muito melhor do que tu; vou repetir-ta... escuta.
– Não... não...
– É preciso que me ouças; quem sabe se dentro em pouco não estarás de joelhos a meus pés? escuta.
Mariana escutou com o rosto abrigado entre suas duas mãos.
O velho Rodrigues começou:
– No fim do ano de 1822, a cidade do Rio de Janeiro vivia a vida do entusiasmo e das festas; a independência estava proclamada, os ferros coloniais tinham sido quebrados com desprezo; o congresso nacional, a assembléia constituinte ia em breve reunir-se, e trabalhar na execução da grande obra; levantar o majestoso monumento. O povo entusiasta da liberdade festejava a liberdade; os saraus seguiram-se uns aos outros; o prazer estava em toda a parte.
Mariana exalou, involuntariamente talvez, um suspiro de saudade.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.