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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

E o seu destino tocava um terrível extremo. A hora fatal batia.

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A desgraçada filha de Anacleto havia ficado em seu quarto pasma e aterrada logo depois que seu pai a deixou só.

Agora é o começo da tarde.

Mariana havia descido, e achava-se sentada no sofá, na sala de visitas do “Céu cor-de-rosa”.

Tinha vindo esperar Salustiano. No entretanto meditava.

O aspecto da triste viúva trazia em si um não sei quê de sinistro. Seus supercílios, bastos e negros, estavam dolorosamente enrugados de modo que quase se confundiam um com o outro. No entretanto, e apesar disso, seus olhos brilhavam, mas não com o fogo da vida... todas as suas feições se achavam contraídas, e quando ela falava, notava-se em sua voz alguma coisa que se não podia explicar, mas que produzia uma impressão sobremodo desagradável.

Estava toda vestida de branco, mas trazia cingindo-lhe a cintura uma fita negra, cujas pontas caíam até o chão. Essa fita era lúgubre.

Conservou-se muito tempo na mesma posição, imóvel e indiferente a tudo. Parecia haver medido perfeitamente o fundo do abismo aberto debaixo de seus pés, e como que penetrada da certeza de não poder salvar-se dele. Não estava sossegada, estava inerte.

Mariana tinha tomado todas as medidas para não ser incomodada por testemunhas importunas naquelas horas. Seu pai deveria voltar bem tarde; e a rogos dela, Celina prometera não descer ao primeiro andar senão quando fosse chamada.

E, portanto, ela esperava somente uma pessoa; esperava Salustiano... a morte.

Depois de algum tempo de sinistra imobilidade e mudez, a viúva levantou a cabeça que tinha um pouco inclinada, e, como se falasse a alguém, murmurou com voz pausada:

– Eu lhe disse um dia, que ele se não lembrava de que se os homens sabem matar, as mulheres sabem morrer.

Sorriu terrivelmente, e disse:

– Provar-lhe-ei.

Sorriu de novo, e ainda mais terrivelmente; depois tirou do seio um pequeno embrulho de papel; abriu-o com mão firme e olhou; o que havia dentro era um pó branco.

– Arsênico!... balbuciou a mísera com ironia amarga e despedaçadora: arsênico!... o único amigo que nesta crise me acompanha e me salva é um pouco de arsênico!...

Guardou de novo o embrulho no seio, e depois prosseguiu:

– Vejamos se ainda me lembro do que li.

Ela pareceu recordar-se de alguma coisa, e foi repetindo compassadamente.

– Sabor acerbo e metálico... constrição de garganta... soluços... síncopes...

resfriamento do corpo... sede... vômitos... prostração... delírio... convulsões...

morte!...

Passado um instante perguntou a si mesma:

– E depois?!

E respondeu a si mesma com um tom horrivelmente lúgubre:

– Depois, a eternidade.

E estremeceu da cabeça até os pés.

Ficou por algum tempo muda, e como que aterrada; mas enfim começou a dar um livre curso a seus pensamentos.

– O suicídio!... o suicídio!... que quer dizer o suicídio? Quer dizer que um homem ou uma mulher tem horror de si mesmo, julga-se demais na terra, acusa-se perante si próprio, sentencia-se, condena-se e executa-se!... Oh! tenho eu o direito de matar-me?... Dizem que não; mas o mundo não tem também o direito de cuspirme no rosto.

– Mas a religião proscreve o suicídio... e o que faço eu?... troco um martírio horrível por outro mais horrível ainda... troco os martírios da carne pelos tormentos da alma... troco o mundo pelo inferno!

A mísera soltou uma risada nervosa.

– Ainda bem! prosseguiu; ainda bem que o sei... o inferno me pertence.

O rosto de Mariana tomou uma expressão medonha... ela murmurou no meio de uma dilatação de lábios, que não era riso, que era quase uma convulsão horrorosa:

– Eu sou um demônio... eu matei meu filho!...

Respirou dolorosamente e continuou:

– O suicídio! oh! sim! este é o meu segundo suicídio; pois então? não matei eu a carne de minha carne?... não derramei o sangue do meu sangue?... sim; esta é a segunda vez que eu mato; ainda bem que é a derradeira. E eu devo realmente desaparecer do mundo; onde me havia esconder amanhã? entre os homens?... quem?... eu?... a infanticida?... oh! os homens lançariam sobre mim os cães... eu não sou da sua espécie... eu não tenho alma, ou então tenho alma negra!... deveria ir ocultar-me nas brenhas?... oh! também não... lá os tigres amam seus filhos; eu sou mais feroz que os tigres.

“O que me resta é bem claro; neste mundo resta-me um sepulcro... no outro espera-me o inferno.

“Este mundo dar-me-á mais do que devia; porque o cadáver da mãe que mata seu filho há de tornar estéril a terra onde se enterrar. O outro mundo dar-me-á o mais que pode... o que eu mereço.

“Ah! eu me amaldiçôo a mim mesma!

“É preciso que eu morra; sim... esta mão, que deveria estar mirrada, ia tocar a destra de Henrique... a mão pura de um mancebo honesto e honrado; oh! o crime é contagioso... eu ia infectá-lo... o meu amor é hediondo; eu sou para as feras mais sanguinárias o que as feras mais sanguinárias são para os homens.

“É preciso que eu morra.

“E meu pai?!”

(continua...)

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