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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

—Qual!... Depois que o Senhor tiver comido, há de ir vê-la. Está, pobrezinha, tão desfeita que parece doente de uns três meses atrás.

—Felizmente, observou Cirino com alguma enfatuação, aqui estou eu para pô-la de pé em pouco tempo.

—Deus o ouça, disse Pereira com verdadeira unção.

—Patrícios! O gente! gritou ele em seguida para os dois camaradas chegados de pouco: vão mecês sentar naquele rancho, ali. Perto há boa água, e lenha é o que não falta: basta estender o braço. Olhem, dêem ração de fartar aos animais. Aproveitem o milho, enquanto há: é a sustância desses bichos. Aqui, vendo-o baratinho. Um atilho por um cobre e não são espigas chuchas, nem grão soboró. Eh! lá! Maria Conga, vamos com isso!... janta na mesa!...

Foram o chamado e as indicações de Pereira compridas sem demora.

Apareceu a velha escrava, que estendeu em larga e mal aplainada mesa uma toalha de algodão, grosseira, mas muito alva, sobre a qual derramou duas boas caias de farinha de milho: depois, emborcou um prato fundo de louça azul, e ao lado colocou uma colher e um garfo de metal.

—Sente-se, doutor, disse Pereira para Cirino, agora não mariduco com mecê, porque já petisquei lá dentro. Desculpe se não achar a comida do seu agrado.

Vinha nesse momento entrando Maria Conga com dois pratos bem cheios e fumegantes, um de feijão-cavalo, outro de arroz.

—E as ervas? perguntou Pereira. Não ha?

—Nhor-sim. Eu trago já, respondeu a preta, que com efeito voltou dai a pouco.

Tornou o mineiro a desculpar-se da insuficiência e mau preparo da comida.

—Não lhe dou hoje lombo de porco: mas o prometido não cai em esquecimento, isto lhe posso assegurar.

—Estou muito contente com o que há, protestou com sinceridade Cirino.

E, de fato, pelo modo por que começou a comer, repetindo animadas vezes dos pratos, deu evidentes mostras de que falava inteira verdade.

—Maria, disse Pereira para a escrava, que se fora colocar a alguma distancia da mesa com os braços cruzados, traz agora mel e café com doce.

—Ah! exclamou Cirino com patente satisfação estirando os braços, fiquei que nem um ovo. O feijão estava de patente. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, que me deu este bom agasalho.

—Amém! respondeu Pereira.

—Agora, amigo meu, disse o moço depois de pequena pausa, estou às suas ordens; podemos ver a sua doentinha e aproveitar a parada da febre para mim atalhá-la de pronto. Em tais casos, não gosto de adiantamentos.,

Cobriu-se o rosto do mineiro de ligeira sombra: franziram-se os sobrolhos, e vaga inquietação lhe pairou na fronte.

—Mais tarde, disse ele com precipitação.

—Nada, meu senhor, retrucou Cirino, quanto mais cedo, melhor. É o que lhe digo.

—Mas, que pressa tem mecê? perguntou Pereira com certa desconfiança.

—Eu? respondeu o outro sem perceber a intenção, nenhuma. mesmo para bem da moça.

Acenderam-se os olhos de Pereira de repentino brilho.

—E como sabe que minha filha é moça? exclamou com vivacidade,

—Pois não foi o Senhor mesmo quem mo disse na prosa do caminho?

—Ah!... é verdade. Ela ainda não é moça... Quatorze, quinze anos, quando muito... Quinze anos e meio... Uma criança, coitadinha! . . .

—Enfim, replicou o outro, seja como for. Quando o Senhor quiser, venha procurar. Enquanto espero, remexerei nas minhas malas e tirarei alguns remédios para tê-los mais a mão.

—Muito que bem, aprovou Pereira, bote os seus trens naquele canto e fique descansado: ninguém bulira neles... Quanto à minha filha... eu já venho... dou um pulo lá dentro, e... depois conversaremos.

CAPÍTULO V

AVISO PRÉVIO

Onde há mulheres, aí se congregam todos os males a um tempo.

(Menandro)

Nunca é bom que um Homem sensato eduque seus filhos de modo a

desenvolver-lhes demais o espírito

(Eurípedes, Medéia)

Filhos, sois para os homens o encanto da alma.

( Menandro ) .

Estava Cirino fazendo o inventário da sua roupa e já começava a anoitecer, quando Pereira novamente a ele se chegou.

—Doutor, disse o mineiro, pode agora Meca entrar para ver a pequena. Está com o pulso que nem um fio, mas não tem febre de qualidade nenhuma. —Assim e bem melhor, respondeu Cirino.

E, arranjando precipitadamente o que havia tirado da canastra, fechou-a e pôs-se de pó.

Antes de sair da sala, deteve Pereira o hóspede com ar de quem precisava tocar em assunto de gravidade e ao mesmo tempo de difícil explicação.

Afinal começou meio hesitante:

—Senhor Cirino, eu cá sou homem muito bom de gênio, multo amigo de todos, muito acomodado e que tenho o coração perto da boca como vosmecê deve ter visto...

—Por certo, concordou o outro.

—Pois bem, mas... tenho um grande defeito; sou muito desconfiado. Vai o doutor entrar no interior da minha casa e... deve portar-se como...

—Oh! Sr Pereira! atalhou Cirino com animação, mas sem grande estranheza, pois conhecia o zelo com que os homens do sertão guardam da vista dos profanos os seus aposentos domésticos, posso gabar-me de ter sido recebido no seio de muita família honesta e sei proceder como devo.

Expandiu-se um tanto o rosto do mineiro.

(continua...)

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