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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Treze de abril foi, pois, ainda um dia perdido: gastaram-se as horas da manhã em preliminares de viagem, inteiramente supérfluos, e cujo único objetivo parecia procurar entreter os soldados. Estes, aliás, a tudo se prestavam com a melhor disposição. Fizera-se ouvir o hino nacional e uma explosão de entusiasmo o acolhera. Vários ajudantes-de-ordens se despacharam então, cada qual do seu lado, a ler uma ordem do dia. apelando para o patriotismo da coluna e a lhe relembrar a confiança nos chefes. Enérgicas aclamações estrugiram ainda, após esta proclamação, repetindo-se várias vezes: chegara ao auge a animação. No entanto caíra a noite, que se passou sem que nos houvéssemos movido. Viram todos comandante, meditativo como sempre, passear na sombra, em frente à sua barraca, por mais tempo e mais tarde do que geralmente fazia.

No dia seguinte, desfilou o corpo diante dele; com isto pouco a pouco se animou. Já a vanguarda, contudo devia dar-lhe motivos de reflexão, composta como e de homens de nossa cavalaria desmontada. E com efeito já relatamos que não tínhamos mais cavalos, todos vitimados na região de Miranda por uma epizootia do gênero da paralisia reflexa que a nós mesmos, tão cruelmente, viera provar. Quando muito pudera o serviço de faxina conservar alguns muares. Faltava-nos o elemento primordial da guerra nestes terrenos, a cavalaria; e não havia quem com isto se não impressionasse.

Malgrado a diferença de feição, a que se tinha: de resignar, nada perderam os nossos caçadores do aspecto marcial. Após eles marchava o 21.° batalhão de linha, precedendo uma bateria de duas peças raiada depois o 20.° batalhão, outra bateria igual à primeira acompanhada pelo 17.° de Voluntários da Pátria; e afinal as bagagens, o comércio, com a sua gente e material, as mulheres dos soldados, bastante numerosas.

Ocupava o gado o flanco esquerdo, com as carretas de munições de guerra e de boca, massa confusa protegida por forte retaguarda.

Tínhamos o Miranda à frente; os soldados o atravessaram; uns levantando acima d'água armas, cinturão patronas; outros sobre uma ponte volante que os engenheiros acabaram de construir, auxiliando-os neste trabalho urgente um 2.° tenente de artilharia, Nobre Gusmão, jovem oficial, cheio de inteligência, que nessa ocasião demonstrou o zelo que mais tarde sempre pôs em destaque (1).

Mais de duas horas tomou esta travessia; neste ínterim havia o coronel Camisão e seu estado-maior lido noticias que o correio de Mato Grosso acabara de traz Nenhum comunicado, oficial ou privado, relativo à in, são do Paraguai pelo sul viera ao nosso comandante nem coisa alguma que a tal fato se ligasse. Seriam, entanto, informes do mais alto interesse, até mesmo indispensáveis no momento em que nos aventurávamos à perigosa operação, sem que coligássemos prefixado fim. Ás duas horas da tarde recomeçou a marcha, e, lentidão era extrema: regulávamos o passo pelo dos bois que puxavam a artilharia e ainda, de tempos a tempos todos estacavam, porque o próprio Coronel, indo e vindo com o seu estado-maior, da frente à retaguarda, punha-se com o óculo de alcance, a examinar as cercantas, ora distraída ora muito atentamente. Surpreendia-nos isto porque se jamais houve campos sem mistérios eram os que atravessávamos. Estavam, então, inteiramente despidos; recentemente incendiados neles perecera até a erva rasteira, de modo que os atiradores distribuídos, no momento da partida, ao longo da nossa coluna, para guardá-la, a ela se haviam incorporado, dispensados dum serviço sem razão de ser.

Ao cair da noite atingimos elevado cômoro. A 16 horas recomeçou a marcha na mesma ordem, somente deviam os diferentes corpos alternar, de um dia para outro, atesta, ao centro e à retaguarda.

Seguíamos uma estrada formada de dois trilhos paralelos, espaçados por três ou quatro palmos de capim e est estendendo-se a perder de vista pelas planícies desnudadas. Uma outra moita, ou arbusto, quando muito, surgiam de vez em quando. Só no horizonte se divisavam uns capões. Estavam os dois trilhos bem batidos, tornando-se visível que havia pouco por eles tinham passado e tornado a passar cavaleiros e em contingentes avultados.

Desta estrada partiam, de distancia em distancia, outros rastos de cavalos encaminhados para os acidentes do solo, que permitiam a visão ao longe. Não se podia mais duvidar que o inimigo nos observava a marcha.

Fomos acampar perto do morro do Retiro, onde ocupamos a vertente em cuja base nasce o volumoso ribeiro do mesmo nome. É nesse lugar admirável a natureza; corre a água emoldurada de palmares, entre margens ligeiramente sinuosas, revestidas de relva curta e fina, da mais bela cor esmeraldina.

(continua...)

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