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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Não a porta, mas a janela da casa achou Francisco fora do seu lugar; só os portais tinham ficado na mesma posição que dantes. As dobradiças tinham sido mudadas para o batente inferior, a fim de que a porta, em vez de ser aberta pelo lado, o fosse pela parte superior, e de modo que, cravado da banda de dentro no chão um pau que chegasse ao nível do primeiro batente, formasse ela, descansando sobre a cabeça do dito pau, um como balcão que pudesse ser visto por quem passasse pela estrada. O fim de Marcelina, realizando esta mudança, era ter onde expor aos viandantes frutas, tapiocas e outros produtos do comercio domestico.

Esta pequena industria é muito praticada nos caminhos do norte. Quantas vezes, em minhas digressões pelas províncias de Pernambuco e Alagoas, não tive ocasião de chegar-me, montado em meu cavalo, ao pé da janela ou do balcão móvel da casinha pobre, onde se mostravam frutos frescos e sazonados, e de os comprar para neles me desalterar do calor do sol e do cansaço da jornada!

Não levou a mal Francisco a alteração que a mulher fizera na obra das mãos dele, antes aprovou, com elogios, a lembrança que lhe dava novo testemunho das faculdades industriais daquela que, como boa e fiel companheira, o ajudava a tornar fácil e digna a aquisição do pão custoso da pobreza.

- Se me tivesse dito que a taboa que me pedia era para este fim, já eu a teria trazido da vila.

Gosto de fazer as minhas invenções sem dizer nada a ninguém, nem a você mesmo – respondeu Marcelina.

Vivia assim feliz, sem Ter coisa alguma que lhe causasse inquietação nem tristeza, aquele casal pobre, mas honrado e discreto, só pedindo a Deus que lhes desse chuva e sol nos tempos oportunos, para que o milho, o feijão, a mandioca, a macaxeira, as batatas, os abacaxis não morressem alagados ou queimados, e que não lhes mandasse doenças graves que os privassem do trabalho, sua distração e prazer de todo dia.

Marcelina não ficava ai, levava ainda além o seu espírito empreendedor, a sua notabilíssima vocação para o pequeno comercio.

Criava porcos, galinhas, patos e perus. Nos tempos de festa os porcos ou eram vendidos por bom dinheiro na vila, ou ela os retalhava, e em sua casa expunha á venda a carne e o toucinho, sempre com tão boa cabeça que só lhe ficava a porção que reservava para seu próprio uso. As vezes, desta mesma parte fazia o picado e o sarapatel para vender aos matutos que eram perdidos por estas espécies de comidas.

Quando as criações estavam muito aumentadas, Francisco metia-as nas capoeiras, e ia vende-las em Goiana, importante centro comercial de toda aquela redondeza, como o Recife já o era de todo o norte por aqueles tempos. Voltava de Goiana trazendo parte dos gêneros apurada em boa moeda, e a outra parte empregada em fazendas para uso da casa.

Enfim, a vida do almocreve, a vida do pequeno negociante das estradas e feiras, ninguém nem antes nem depois daquelas duas criaturas tão irmãs e amigas uma da outra, compreendeu melhor do que elas, nem talvez tão bem como elas, em suas especiais aplicações.

Causava a todos inveja e admiração a harmonia, a felicidade desses dois entes rudes, que dispensavam lições da gente civilizada para viverem com honra e conveniência e que da beira de um caminho deserto, do pé de uma mata, sem saberem ler nem escrever, davam edificativos exemplos de moral domestica, amor ao trabalho, e fé no Criador.

Não se pretende fazer nestas palavras a apologia da ignorância, nem a da pobreza, que são os dois maiores males da terra; o que deste rápido esboço de dois caracteres puros e respeitáveis se aspira a inferir é que o bom natural traz em se mesmo, como por instinto, a ciência da vida, e que o trabalho, ainda o mais humilde, é o primeiro meio de suprir as faltas da fortuna e vencer os defeitos da condição.

V

Foi para esse ninho de modesta felicidade e de paz nunca perturbada, que Francisco levou consigo o trêfego Lourenço, infeliz fruto de união reprovada, precozmente apodrecido nas dissoluções da povoação, pobre de instrução, rica porém de misérias e maus exemplos.

Relatar aqui miudamente as maldades, os atentados cometidos pelo menino, entregue, até bem pouco tempo atrás, á torpe licença; rememorar os esforços usados para o reprimir e corrigir, por Francisco e Marcelina, que desde o dia de sua chegada não lhe faltaram com bons conselhos e as mais saudáveis lições de moral, fora longo e fastidioso encargo.

(continua...)

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