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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

O crioulo, por nome Gabriel, foi marginando o rio até ao ponto em que este fazia sua internação no continente. Nesse ponto o terreno acidentava-se um pouco, e elevava-se até as lajes negras pelo meio das quais o gado tinha aberto sua passagem, melhor e mais naturalmente do que o faria o homem.

No momento em que o negro ia entrar na capoeira que cobria o sítio, alguns ramos se afastaram violentamente de um dos lados, e dois sujeitos literalmente armados surgiram diante de seu olhos.

Vendo-se assim assaltado por Joaquim e pelo filho deste o crioulo pôde unicamente dizer estas palavras:

— Acabo de Ihes fazer um bem, e é deste modo que vosmecês me dão o pago ?

— Desce do cavalo, negro. Este cavalo foi teu até este momento; de agora em diante ele nos pertence, e é preciso que no-lo entregues quanto antes.

— Meu cavalo ! — exclamou o crioulo com entranhada dor. — Meu cavalo é meu único haver, meus senhores. Se vosmecês mo tomarem, com que darei eu de comer a minha mulher e a meus filhos, que não têm outro arrimo senão eu ?

— Que morram de fome como estão morrendo da seca os outros por aí além. Demais, não te custará ganhar com que comprares outro cavalo para continuares em teu ofício. Deste é que deves perder o feitio. Precisamos dele já para fugirmos com tempo à tropa que aí vem.

— Perdão, meus brancos — disse Gabriel com a voz mais doce e terna que pôde. — Eu peço a vosmecês que me deixem ir embora. Em que os ofendi ? Não os tenho respeitado sempre ? Vosmecês não me conhecem ? Sou um pobre preto que nunca fez mal a ninguém, e que segue seu caminho caladinho sem se importar com a vida dos outros filhos de Deus.

Os dois matadores não estavam, ao menos naquele momento, para estas banalidades, e, cônscios de que urgia remover o óbice, saltaram sobre o crioulo e, apeando-o com violência, tomaram-lhe o animal, o qual se deixou passivamente conduzir pelo cabresto a um fechado da capoeira onde Joaquim julgou prudente recolhê-lo sem demora.

Gabriel, que de pé e imóvel viu, com lágrimas nos olhos, desaparecer o seu único bem, reflexionou com pesar:

— Então, vosmecês vão montados para sua casa, e eu é que hei de ir para a minha de pé, sem o meu cavalo, hein ?

— Ainda estás aí falando, negro ? Quererás tomar-nos satisfações ? — replicou o Cabeleira voltando-se de chofre e fixando sobre o Gabriel a vista que chamejava como a de um chacal.

— Sim, eu sou negro, é verdade; mas os brancos tomam-me o que é meu, e deixam-me sem caminho nem carreira, com uma mão adiante e outra atrás.

A estas vozes o Cabeleira não pôde mais conter-se, e de um só pulo fez-se sobre o seu interlocutor. Este, porém, já não se achava no mesmo lugar, mas sobre uma das lajes que davam para o rio, tendo em uma das mãos uma faca nua, que refulgia aos raios do sol.

— Se quer brincar na ponta da faca, meu branco, a coisa é outra, e vosmecê encontra homem —disse de cima.

Ainda bem não tinha preferido estas expressões, quando a seus olhos brilhava também a faca de seu feroz contendor.

Travou-se então entre eles um combate de gigantes que durou alguns minutos. A esse combate surdo, medonho, dava lúgubre realce o deserto com sua profunda solidão.

Os dois contendores eram habilíssimos em jogar a faca. Nunca se encontraram competidores mais dignos um do outro.

As lâminas inimigas cruzavam-se a modo de impelidas por eletricidades iguais. O jogo da faca era já nesse tempo uma especialidade característica dos matutos do Norte, máxime dos matutos de Pernambuco.

Na violenta porfia tinham os jogadores percorrido toda a face da laje que, começando no estreito angulo, ia morrer no Capibaribe por um declive quase abrupto. Haviam-se avizinhado tanto do rio, que o ruído das águas já não deixava ouvir o incessante bater dos ferros assassinos. Estes ferros eram como duas serpentes que mutuamente se mordem sem se poderem devorar.

De repente surgiu Joaquim em cima da pedra a um lado de Gabriel, o qual ficou assim entre dois inimigos capitais.

— Ainda está vivo este negro, Zé Gomes ? — perguntou o mameluco ao filho.

— É agora a sua derradeira — respondeu este.

— Com dois é impossível a um só se divertir — tornou o negro, em cuja testa .à alvura do suor contrastava com o negror da pele luzidia.

José Gomes estava excitado ao último ponto e rolavam-lhe também pelo rosto bagas de suor alvinitente. Querendo por isso e por outras razões abreviar o duelo, cuja duração realmente excedia a sua previsão, apertou com o crioulo com toda a violência de que era capaz e que, como sempre, levou de vencida todas as resistências adversas. Gabriel, ou porque conhecesse que na realidade estava exposto a eminente perigo, ou por que julgasse ser chegado o momento de pôr por obra a sua traça, deixou-se escorregar quando menos esperava o inimigo, pela face oposta da laje, e foi cair dentro das águas que passavam ali rápidas e espumosas.

(continua...)

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