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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

Eugênio ficou aterrado. Tanto a sua língua como a sua inteligência ficaram como que paralisadas ao choque daquela furibunda apóstrofe. Sua surpresa e estupefação eram completas. Nunca lhe passara pela cabeça, que querer bem a uma criança como ele, e fazer-lhe versos fosse uma abominação, um horroroso pecado, e se procurava ocultar esses produtos do seu estro infantil era mais por acanhamento e por uma espécie de pudor instintivo, e não porque tivesse consciência de cometer um ato repreensível.

O menino estava em torturas, mas enfim era preciso responder alguma cousa.

— Senhor padre!... me perdoe... — pôde ele enfim responder balbuciando e tremendo. — Eu não sabia... que isso era proibido...

— Isso o quê?

— Fazer versos...

— Mas que qualidade de versos, senhor estudante?... fazer versos a Deus, aos santos, aos anjos, isso também os santos padres da igreja já os faziam, Vm. também lá os tinha no seu calhamaço de envolta com estas abominações... mas este sacrilégio!... E não me fará o favor de dizer quem é esta Margarida?

— É uma pobre criança, senhor padre, uma menina minha vizinha, e que foi criada junto comigo.

— Ah!... mais essa!... tão criança, e já tinha lá em sua terra dessas relações pecaminosas!... e o senhor seu pai porventura não sabia disso, quando o mandou para cá a fim de o educarmos para padre? é essa a bela vocação, que ele tanto exaltava? que guapo padre, que em vez de estudar e rezar ocupa-se em fazer cartas e versinhos de amores?...

— Mas, senhor padre... eu não mandei a carta nem os versos para a Margarida...

— Porque não pôde... e que importa isso?... bastava pensar em tais coisas para cometer um grande pecado, e Vm. não só pensou, como escreveu. Essas paixões pecaminosas e torpes não se devem aninhar no coração de ninguém, e muito menos no de um menino, que se destina ao estado eclesiástico. Meu amiguinho, se pretende continuar com essas abominações, arranque já do corpo essa batina, deite fora esse barrete que está profanando e vá-se com Deus para casa de seus pais. Não consentiremos que esteja aqui pervertendo os outros com seu pernicioso exemplo. Pode estar certo, que puniremos mais severamente a hipocrisia do que o escândalo. Este não é tão perigoso.

— Oh! senhor padre!... senhor padre! perdoe-me pelo amor de Deus! — exclamou Eugênio caindo de joelhos aos pés do padre, e não podendo continuar, levou ao rosto as mãos, e desatou numa torrente de lágrimas e soluços.

Um pouco comovido com aquela cena o padre pegou-lhe no braço, fê-lo levantar-se e disse-lhe em tom mais brando:

— Está bem!... está bem!... não esteja aí a chorar. Quero acreditar que tudo isto não foi senão efeito da ignorância e simplicidade; mas fique advertido de uma vez para sempre... Levante-se, filho de Deus, enxugue essas lágrimas e faça firme protesto de não cair mais nessas libertinagens. Aqui estão os seus papéis; quero que os queime com as suas próprias mãos, e não pense mais nessa Margarida, que o ia lançando no caminho da perdição.

O padre fez acender uma veia, e o estudante com a mão trêmula nela queimou, como se fossem sacrílegos, aqueles inocentes produtos da sua musa infantil.

— Muito bem! — disse o padre vendo caírem no chão uma após outra as folhas denegridas dos papéis queimados. — Muito bem! agora é preciso também queimar nesse coraçãozinho inexperiente o lixo das paixões mundanas e pecaminosas no fogo do amor divino, redobrando de devoção, rezando com muito fervor, impondo-se jejuns e penitências, e suplicando do fundo da alma ao divino Espírito Santo, que lhe ilumine o entendimento e lhe vigore o coração, dando-lhe forças para poder combater vitoriosamente contra a tentação do pecado. Para esse fim há de Vm. jejuar uma semana inteira e preparar-se para no fim dela fazer confissão geral e receber a comunhão. Tenha paciência, e só por este meio que poderá combater a tentação, que assim o anda desviando da senda de seus deveres, e o pretende arredar de sua santa e verdadeira vocação. Vá; vá para o salão estudar. Por esta vez está relevada a sua falta e se arrepender deveras, e emendar-se, continuará a merecer a nossa estima e nossos desvelos. Do contrário o reenviaremos a seus pais; mas espero que o menino não quererá dar-lhes tão grande desgosto.

CAPÍTULO VII

Eugênio entrou para o salão mergulhado num pego de dor, de vergonha, de terror, e sofrendo o embate de mil diversas e violentas impressões. Seus companheiros de salão olhavam para ele cheios de pasmo.

Em que grave falta teria incorrido aquele bom menino tão dócil, tão sossegado e estudioso?

— Se aquele, que é um santinho, e nunca falta às suas obrigações, está sujeito a estas, que será de mim, que nem por isso dou muito boas contas de mim, e não sou lá das melhores fazendas! — Assim cada um deles transido de medo pensava em sua consciência.

Eugênio vendo a atenção de que era objeto da parte deles, quereria afundarse cem braças pela terra abaixo.

(continua...)

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