Por Bernardo Guimarães (1872)
O Major não era dotado de grande perspicácia, nem tinha muito conhecimento do coração humano, coisa que nem em si mesmo tivera ocasião de estudar, pois nunca vivera a vida do coração. Todavia chegou a desconfiar, e em breve se convenceu da existência de uma mútua afeição entre Lúcia e o seu jovem protegido, e já bem tarde arrependeu-se de ter dado a este tão franco agasalho em sua casa. Casar sua filha com um pobretão, que além da roupa do corpo só possuía um cavalo, um cão e uma espingarda, um estranho, sem nome, sem fortuna, sem posição era coisa cuja possibilidade nem por sombra passava-lhe pelo espírito. Seu primeiro cuidado foi, portanto, atalhar logo o mal, antes que tomasse maior vulto. desde logo tratou de suprimir as lições de música. Não o fez, porém, abertamente; mas todas as vezes que era ocasião de tomar lição, achava pretexto para atrapalhá-los, inventando algum serviço urgente, ora para o mestre, ora para as discípulas. Além disso, ocupava mais que de costume a Elias em comissões e viagens, de modo que este pouco tempo parava em casa. Assim julgava ele impedir o progresso do mal, enquanto procurava ajeitar um meio suave e natural de se ver livre de tal hóspede.
Lúcia e Elias, portanto, já raras vezes se viam. Estava mais que claro que tudo aquilo era manobra do Major, que por certo já suspeitava a existência de sua recíproca afeição. Elias compreendeu que era tempo. . . de quê? de pedir Lúcia em casamento. . . não por certo. Na posição precária e quase desvalida em que se achava, não se abalançaria a dar semelhante passo; só podia esperar um não redondo, categórico e humilhante. Era tempo de dizer adeus a Lúcia, ao amor, à felicidade, e também à última esperança que lhe restava n’alma.
A persuasão de Elias ainda mais se confirmou, quando um dia o Major, com o tom mais benévolo e paternal do mundo lhe disse:
-meu amigo, creia que lhe quero bem, e sinceramente desejo o seu adiantamento. Um moço como o senhor, que teve estudos, e tem tantas habilitações, não deve estar-se perdendo em uma roça, onde as suas prendas e habilidades de nada lhe podem servir. Em qualquer povoação que se estabeleça, pode com facilidade ganhar dinheiro e posição, ao passo que aqui, na roça, falo com franqueza de amigo, está perdendo completamente o seu tempo. De minha parte, qualquer que seja o lugar para onde deseje ir, pode contar sempre com o meu pequeno empréstimo naquilo em que lhe puder ser útil. . . e. . .
-tem razão, Sr. Major- interrompeu vivamente Elias; V. Sª. preveniu-me em um propósito que eu já há muito tinha formado. - Vejo que aqui em sua casa sou um ente inútil e que não é à sombra de seu telhado que poderia encontrar fortuna, nem felicidade.
- Agastou-se comigo? . . . não o estou mandando embora. . . é apenas um conselho e amigo.
- Não me agastei, Sr. Major; já lhe disse que era o meu propósito, só receava que V. Sª. o não aprovasse; agora, que sei o contrário, dê-me as suas ordens, que pretendo partir o mais breve possível.
Elias bem sabia o motivo daquele procedimento do Major, e nada tinha que lhe replicar. Era um modo polido de despedi-lo. De feito não era possível de modo mais benévolo e lisonjeiro cravar-se o punhal no coração de uma vítima. As palavras do Major caíram-lhe como rochedos sobre o coração com peso esmagador. Forçoso lhe era deixar Lúcia, talvez para sempre!
- Ah! Pobreza! Pobreza! Maldita pobreza- exclamou Elias em transportes de frenesi, entrando para o seu aposento. - Pobreza! Tu és o pior dos males que afligem a humanidade, pior que a fome, pior que a lepra, pior que a morte mesmo. De toda parte és repelida, como se fosse um mal contagioso. Além de faltarem ao pobre todas as comodidades materiais da existência, são-lhe vedados todos os prazeres do coração. O pobre não pode, não deve amar. . . Ah! Se eu fosse rico! . . . Por que não quis a sorte, que eu possuísse um pouco de dinheiro? Mas quem me impede de o ter? Os outros, que o ganham, são porventura melhores do que eu? . . . Sou moço, e, graça ao céu, tenho saúde, robustez e a inteligência necessária para saber ganhar dinheiro. . . A Bagagem está ali perto. . . é um garimpo riquíssimo. . . pouco custa cavar a terra, e lavar o cascalho. Major! Major! . . . Tu me expeles de tua casa por ser pobre. . . mas, ah! Major! queira Deus que bem cedo não te arrependas do pouco caso que hoje fazes de mim, e não venhas humilhado implorar o perdão a meus pés. Major! Por ti só, tu nada vales; e esse teu vil procedimento eu o lançaria ao desprezo, sem que me custasse um só momento de sono. Mas tua filha vale um tesouro e é por ela e para ela que eu juro e protesto. . . serei rico, ou do contrário nem tu, nem ela, nem mais ninguém neste mundo me verá a face.
As relações entre Lúcia e Elias estavam, pois, completamente interceptadas. Há muito tempo não se viam senão à hora do jantar com a família. Este era para eles o pior dos martírios. Iam-se separar sem poderem dizer-se um adeus. . . Um medianeiro seria para eles naquela ocasião um presente do céu, para se comunicarem suas angústias, receios, e esperanças, se esperanças podiam ter. Só Lúcia poderia achar um meio de comunicação entre eles. Lúcia lembrou-se de Joana; era a única pessoa a quem podia incumbir de tão melindrosa tarefa. Ela sabia muito bem que a velha e matreira crioula já estava ao fato de seus amores com Elias, e portanto nada arriscava encarregando- a de um recado ou de um bilhete.
- Joana, tu hás de me fazer uma coisa! . . .
- Por que não, sinhazinha? . . . qual é essa coisa?
- Entregar-me este bilhete a. . meu mestre.
- Para que isso, minha sinhá? . . . esqueça-se desse moço! amanhã ele vai-se embora. . .
- É por isso mesmo; quero dizer-lhe adeus. Entregas?
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.