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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

— A Maroca hoje há de ser minha, projetou consigo o diabólico rapaz. A princípio dissera isto somente para lançar uma luva de desafio a Reinaldo, com quem ardia por travar-se séria e publicamente; mas agora era esse o mais ardente desejo de seu coração, para cuja satisfação estava disposto a sacrificar tudo. Que viessem estorvá-lo Reinaldo ou quem quer que fosse, ou toda aquela turba reunida, que ele os dispersaria como quem sacode a poeira de suas botas.

A Maroca, ou porque era ainda muito criança, ou por ser de seu natural leviana e bandoleira e não amar a ninguém, foi-se deixando facilmente seduzir pela galhardia, bravura e talvez mais pela riqueza e liberalidade de Gonçalo, que durante a dança lhe introduzira no dedo um rico anel de brilhantes prometendo-lhe ainda em segredo maiores e mais magníficos presentes.

O coração da Maroca era vário e leve, e portanto facilmente esvoaçou de Reinaldo para Gonçalo. Este, seguro das boas disposições da menina, forjou logo o mais atroz e sinistro projeto.

A noite já ia muito avançada; os galos, amiudando cada vez mais seu canto, anunciavam que estava próximo o romper do dia.

Gonçalo, consultando o relógio, que trazia preso a uma grossa cadeia de ouro, diz em voz alta:

— Três horas em ponto, meus caros; para quem mora a mais de légua de distância, já é tempo de pôr-se a caminho.

E imediatamente sem mais cumprimentos, enquanto os outros se entretinham em dançar, jogar ou conversar, abriu de manso a porta da rua, e desapareceu.

Reinaldo, que não dançava, nem bebia, nem jogava, mas acabrunhado por uma multidão de pungentes e sombrios pensamentos se assentara a um canto, viu com prazer a saída de Gonçalo. Seu peito respirou mais desafogado com o desaparecimento daquele homem fatal, que se tornava para ele um pesadelo, um espectro odioso. Levanta-se e procura com os olhos pela sala a Maroca, a fim de também convidá-la a retirar-se; por duas ou três vezes corre com a vista toda a extensão da sala, e não a vê nem na roda dos que dançavam, nem assentada em parte alguma: estremeceu, e bateu-lhe o coração de modo estranho.

Depois pensou: — Decerto está lá pelo interior da casa, e não tardará a aparecer. — Esperou alguns minutos aplicando o ouvido e embebendo os olhos pelos corredores, pelas alcovas, por todos os cantos, procurando vê-la ou ao menos ouvir-lhe a voz; mas debalde.

Esperou ainda na maior ansiedade; já não só ele, mas muitas outras pessoas reparavam e estranhavam a demora da ausência de Maroca.

— Maroca! Maroca! onde estás? gritavam todos uns para aqui, outros para acolá; mas ninguém acudia de parte alguma.

— Querem ver que aquela sonsa foi sozinha para casa sem dar parte a ninguém; dizia um.

— Quem sabe se a coitada teve algum ataque, e está caída aí por algum canto? opinava outro.

— Ou está nalgum canto a dormir; pensava um terceiro.

— Ou eclipsou-se com alguém, acrescentava maliciosamente um quarto.

Enfim todos se puseram em movimento dispostos a revistar e esquadrinhar todos os recantos e dependências da casa, gritando sempre pelo nome de Maroca.

— Maroca está aqui comigo! bradou uma voz retumbante, que partiu do lado da rua. Jurei que havia de levá-la comigo e assim o cumpro. Quem quiser, que venha tomá-la.

E ouviu-se o tropel de um animal, que partia a galope.

Todos ficaram como que petrificados.

Reinaldo, como se um raio o ferisse, caiu pálido e frio sobre um banco, e ficou por alguns instantes como que aniquilado. Depois levantando-se bruscamente e arrancando os cabelos com ambas as mãos, bate furioso com o pé no chão.

— Oh! traição! traição infame! exclama; meu cavalo! quero já e já meu cavalo!

E com brusco movimento abalroando a todos investe para a porta. Em vão os companheiros quiseram detê-lo e apaziguá-lo.

— Deixem-me, bradou com voz de trovão, e partiu a correr como uma flecha para a casa.

CAPÍTULO IV

A LOUCA

No outro dia já o sol andava alto, quando mestre Mateus e seus tresnoitados companheiros da orgia da véspera abriram os olhos à luz do dia. A primeira idéia que se lhes apresentou ao espírito ainda anuviado pelo sono e pelos vapores das libações da noite, foi a função da véspera, a briga terrível entre Gonçalo e Reinaldo, a tremenda e desaforada traição de que este fora vítima. A princípio pensaram que despertavam de um pesadelo, mas bem depressa caíram em si, lembrando-se que desgraçadamente era tudo pura realidade. Mestre Mateus saltou da cama resmungando:

— Um!... estes rapazes! que doidos! meu Deus! o que terão feito!

(continua...)

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