Por Bernardo Guimarães (1872)
– Senhor meu primo, não sei quem lhe deu o direito de me repreender e regular as minhas ações!.. O senhor é muito tolo em pensar que eu lhe devo dar satisfação do que faço e do que digo. Felizmente ainda tenho pai, e é só dele e de mais ninguém que aceito repreensões, ouviu, meu primo?... Se vosmecê faz garbo de ser ingrato, eu não quero e nem posso fazer o mesmo; hei de ser sempre muito reconhecida e grata ao moço generoso e delicado que fez por mim, que lhe era inteiramente estranha e desconhecida, o que o senhor, sendo parente e amigo, não pôde ou não quis fazer.
Esta violenta apóstrofe fulminou o pobre do Roberto.
– Oh! prima da minha alma!... o que é isso?... por quem é... não se enfeze... espere... olhe, venha cá... não foi por lhe ofender que eu falei... oh! prima... pelo amor de Deus... não dê o cavaco...
Assim exclamava o desapontado primo com voz chorosa e balbuciante, enquanto a prima que voltara-lhe as costas com o mais soberano desdém, desaparecia no fundo do corredor sem lhe dar a mínima resposta.
Roberto, que com razão desconfiava de si mesmo, e tinha talvez alguma consciência do seu pouco merecimento individual, de sua imensa inferioridade em relação à sua inteligente e encantadora prima, não tinha motivo para contar muito com a afeição e o amor de Paulina. Por isso era ele ciumento como um tigre, e seu coração vivia sempre em contínuos sustos e sobressaltos.
Não podia aportar à fazenda de seu tio um mancebo, um homem qualquer de boa aparência e de algum tratamento, que não tremesse logo pelo seu tesouro, julgando que já lho queriam roubar, e que logo não voasse para lá sombrio e desconfiado a vigiá-lo com seus próprios olhos, como o jacaré de sentinela ao seu ninho.
Julgava, – e nisso tinha alguma razão, – que ninguém podia ver Paulina sem que logo morresse de amores por ela, e não desejasse a todo o custo possuí-la por esposa.
O casamento dele com a prima também não passava de uma coisa apenas conversada entre as duas famílias, uma hipótese plausível no futuro, e nada tinha de um compromisso sério, que rigorosamente os obrigasse. Roberto portanto, se bem que nenhum obstáculo até então se opunha à futura realização de seu mais ardente desejo, todavia nenhuma garantia segura tinha também que o pudesse tranqüilizar, e por isso razão de sobejo tinha ele para andar com alma entregue a contínuos cuidados e inquietações.
À vista disto faça-se idéia de como não ficaria o coração do pobre rapaz, quando viu instalar-se em casa de seu tio aquele belo e galhardo mancebo, debaixo de tão lisonjeiros auspícios, e rodeado do prestígio das extraordinárias e romanescas circunstâncias, que ali o trouxeram. O moço, além de seu nobre e belo porte, tinha maneiras as mais polidas e afáveis, e todas as qualidades próprias para inflamar o coração das moças, e atrair as simpatias dos homens, prescindindo mesmo desse ato de dedicação e coragem, que o tornara um ídolo aos olhos do dono da casa.
Considere-se tudo isso, e diga-se se o pobre Roberto tinha ou não carradas de razão para ficar rebentado de inveja, de despeito e de ciúme.
Naquelas ardentes regiões, tão cheias de largos e luminosos horizontes, de grandiosas perspectivas, naquelas veigas risonhas, onde tudo convida a amar, onde a viração quente e embalsamada só respira amor e voluptuosidade, naquele clima de luz e fogo, se o amor é uma chama voraz, o ciúme é uma peçonha que mata.
E tanto mais cruel e pungente devia ser o ciúme de Roberto quanto mais leal e extremosa era a sua afeição; pois o amor que o pobre moço consagrava a sua prima, era puro e santo, como primícias que eram de um coração virginal e novo, de uma alma infantil e cândida. Debaixo daquela crosta grosseira havia muita força de amor, muita paixão, muita energia de sentimento.
Roberto, pois, que tinha o coração quente, mas a cabeça fraca e a índole estouvada, não gostou nada de ver a terna e assídua solicitude com que Paulina e seu pai tratavam do caçador ferido, e dava aos diabos a maldita caçada, que deu ocasião a que viesse parar à casa da sua querida aquele importuno trambolho.
Para desvanecer a impressão que o jovem caçador tinha feito, ou porventura poderia fazer no espírito de Paulina, Roberto no seu bestunto de criança julgou que não havia melhor meio do que menoscabá-lo, deprimilo, procurando desmerecer aos olhos da prima o imenso serviço que acabava de fazer-lhe.
Tempo perdido!
Capítulo IV
Paulina
Eduardo livrando a filha do fazendeiro das garras de um animal feroz, sem querer a tinha entregado indefesa nas mãos de um algoz talvez ainda pior, – a uma forte e irresistível paixão. A onça a teria estrangulado em poucos instantes; mas a paixão enleando-se astuta e sutilmente como uma serpente em torno de seu coração, nele distilava gota a gota toda a sua mortífera peçonha.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.