Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Da face principal via-se o mar, isso já ficou dito; da face do norte via-se o chafariz ainda no meio da praça, e já então, ou mais tarde, a casa dos Teles defronte. Os Teles foram homens notáveis no Rio de Janeiro pela sua riqueza e pela sua posição. A sua fama ficou perpetuada por um arco, que tomou o nome deles, e que não é mais do que um passadiço. A face do fundo namorava o convento dos carmelitas, que um dia havia de acabar por conquistar. A face do sul, enfim, tinha em sua frente a casa da câmara e cadeia, que é hoje o paço da câmara dos deputados, e além dessa, a casa da ópera, que se tornou uma dependência do palácio.
Ainda aqui não fecho o parêntesis.
Preciso dizer quem morava na casa dos governadores e dos vice-reis; pois que, além deles, mais alguém se achava estabelecido debaixo do mesmo teto.
Moravam com eles a justiça e a fazenda.
Os vice-reis ocupavam mais de meio da galeria superior, além do segundo andar, para o lado da praça.
Para o mesmo lado, todo o resto da casa até ao canto fronteiro ao convento do Carmo servia de assento ao tribunal da relação.
No pavimento inferior e sob esses domínios da relação ficava a fábrica moedal, como a chama Pizarro, e o quarto do canto que olha por um lado para a casa da câmara, e por outra para o convento dos carmelitas, era habitado pelo provedor da moeda.
Estava, por assim dizer, todo o governo da terra reunido no mesmo ponto, e a um grito do vice-rei levantar-se-iam a relação com a espada de Astréia, a câmara municipal, que representa o povo, o provedor da moeda, que forjava o encanto do mundo, e até podia acudir o carcereiro da cadeia com a competente guarda.
E para tudo isso, bastava um grito. Hoje grita-se horas inteiras, de noite, nas ruas da cidade, e é um milagre, quando aparece a patrulha!
Era agora ocasião de fechar o parêntesis que abri ainda há pouco. Acho-me, porém tão fatigado que suponho conveniente deixá-lo ainda aberto, enquanto descanso.
II
Fiz muito bem não fechando o parêntesis que abri ao terminar o meu artigo precedente.
Antes de prosseguir na descrição cronológica do palácio imperial, preciso dar ainda algumas explicações que se referem aos costumes do tempo dos vice-reis.
É verdade que a Justiça e a Fazenda moravam com o vice-rei debaixo do mesmo teto; convém, porém, saber que o vice-rei e o tribunal da relação tratavam-se tão cerimoniosamente que nem ao menos se falavam, passando de umas a outras salas pelo interior da casa.
Nos dias da reunião do tribunal, que era presidido pelo vice-rei, o carro deste vinha recebê-lo à entrada principal do paço e o levava a apear-se à porta que se abria para o terreiro do Paço, e que era a que pertencia aos domínios da relação.
Mandava a regra que o vice-rei não fosse exercer tão importantes funções, fazendo a pé um passeio, embora tão curto, e que se comunicasse com o tribunal da relação aos olhos de todos, e não pelas portas travessas. Já naquela época tinha-se medo da influência dos corredores e das ante-salas.
Com a fábrica da moeda, ou não havia tantas cerimônias, ou, além dos seus domínios no pavimento inferior, tinha ela no primeiro andar ainda uma sala para o lado da travessa do Paço; porque aí se via uma grande balança, pendendo de uma mão de ferro, e destinada ao serviço daquela fábrica.
A balança desapareceu, quando se mudou a fábrica para o edifício em que hoje se acha. Ficou, porém, a mão de ferro, que somente no reinado do Sr. D. Pedro I foi arrancada como se se quisesse dizer que, depois de fundado o governo constitucional, não devesse mostrar-se mão de ferro no palácio do chefe do Estado.
Agora fechei definitivamente o parêntesis, e para que não haja a menor dúvida a esse respeito, fechei-o com uma potente mão de ferro.
Vou continuar a descrição interrompida.
Era vice-rei do Brasil o conde dos Arcos, quando, a 14 de janeiro de 1808, entrou no porto do Rio de Janeiro o brigue de guerra Voador, trazendo a notícia da próxima chegada da família real portuguesa. O brigue fizera honra ao nome que lhe tinham dado: voara para dar aquela nova ao vice-rei, ainda a tempo de serem por ele tomadas algumas providências.
O conde dos Arcos não descansou mais um momento, e enquanto mandava ordens para descerem de S. Paulo e Minas todos os víveres que se pudessem logo conduzir, despejava ele próprio o palácio e preparava não só as suas salas e as que tinham servido à relação, mas ainda as que eram ocupadas pelo expediente da casa da moeda, para receber tão comodamente quanto fosse possível os augustos hóspedes.
Em breve, porém, viu-se que eram indispensáveis proporções mais vastas ao palácio real. Começou-se, pois, por unir a ele o convento do Carmo e a antiga casa da câmara e cadeia. Ao convento foi ligado o palácio pelo passadiço que ainda existe e que tem três janelas de sacada para o largo do paço, três outras para a Rua da Misericórdia e se apóia sobre dois arcos que facilitam a comunicação entre o largo e a rua que ficam designados. À casa da câmara uniu-se o palácio por um outro passadiço de que apenas resta a memória.
Ainda novas obras foram executadas no tempo do reino do Brasil pertencendo a essa época o pequeno corpo de janelas de peitoril que se observam na face do sul.
Em que pese aos meus companheiros de passeio, abro aqui
outro parêntesis, e de novo interrompo a minha descrição.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.