Por Martins Pena (1845)
Henriqueta — Hem? O que é isso?
Clarice — É cá um projeto do nosso pai.
Henriqueta — Um projeto?
Virgínia — Meu pai quer nos casar de novo.
Henriqueta — Sim? E vocês consentem em tal, e estão completamente resolvidas a abandonarem os pobres inglesinhos?
Virgínia — Não sei o que te diga...
Clarice — Sabes, Henriqueta, que eles estão cá no Rio?
Henriqueta — Sei. Ontem encontrei o teu, o Bolin, Bolin... Que maldito nome, que nunca pude pronunciar!
Clarice — Bolingbrok.
Henriqueta — Bolinloque a passear no Largo do Paço, vermelho como um camarão. Assim que avistou-me, veio direitinho para mim; mas eu que não estava para aturálo, fiz-me de esquerda e fui andando.
Virgínia — Há quinze dias que chegaram da Bahia, e atormentam-nos com cartas e recados.
Henriqueta — E já encontraste com ele?
Virgínia — Já, em um baile.
Henriqueta — E dançaste com ele?
Virgínia — Não.
Clarice — Por cinco ou seis vezes vieram convidar-nos para contradança, polca e valsa, mas nós, nada de aceitar.
Henriqueta — Coitados!
Clarice — E se tu visses a aflição em que eles estavam! Como viam que nós não os queríamos aceitar para pares, zangados e raivosos agarravam-se ao primeiro par que encontravam, e agora verás! Saltavam como uns demônios... Cada pernada!...
Virgínia — E na polca ia tudo raso, com pontapés e encontrões. Todos fugiam deles. Ah, ah!
Henriqueta — Assim é que os ingleses dançam; é moda entre eles.
Clarice — E depois iam para a sala dos refresco, e - grogue e mais grogue...
Henriqueta — Era para afogar as paixões. Ah, ah, ah!
Virgínia (rindo-se) — Ah, ah, ah! Com que caras estavam!
Clarice (rindo-se) — E eu a regalar-me de não fazer caso deles.
Virgínia — E sabes tu que hoje eles jantam conosco?
Henriqueta — Aqui?
Virgínia — Sim, mandamo-los convidar.
Henriqueta — Para mangarem com eles?
Clarice — Sim, e nos pagarem os dissabores por que passamos na Bahia. Vês aquelas dua vasilhas? É uma das manias de meu pai. Deu-lhe hoje para tingir o algodão de Minas que dá para roupa dos negros. Ali dentro ainda há um resto de tinta, e eu tenho cá um plano...
Henriqueta — E depois?
Clarice — Depois? Veremos...
Virgínia — Henriqueta, o que é feito de teu marido?
Henriqueta — Anda no seu lidar. Depois que perdeu tudo, fez-se procurador de causas... Pobre Jeremias! Mas eu sou bem feliz, porque ele agora ama-me. (Dentro dão palmas.)
Clarice — Dão palmas; são eles! Henriqueta, recebe-os, enquanto nos vamos preparar.
Bolingbrok (dentro) — Dá licença?
Virgínia — Vamos. (Sai com Clarice.)
Henriqueta — Pode entrar. Isto há de ser bom!
CENA III
Henriqueta, Bolingbrok e John. Bolingbrok e John virão de calça e colete branco e casaca.
John (da porta) — Dá licença?
Henriqueta — Os senhores podem entrar.
John (entrando) — Minha senhora...
Bolingbrok (para John) — Este é mulher de Jeremias!
Henriqueta — Queiram ter a bondade de assentarem-se.
Bolingbrok — No precisa; obrigada. Dona Clarice?
John — Posso falar com a senhora Dona Virgínia?
Henriqueta — Neste momento estão lá dentro, ocupadas. Terão a bondade de esperarem um pouco...
Bolingbrok — Mim não pode espera; quer fala a ela já.
Henriqueta — Ui!
John — Bolingbrok!
Bolingbrok — Eu grita, chama ela. Clarice? (Gritando:) Clarice?
Henriqueta — Não grite, que já a vou chamar. Safa! (Sai.)
John — Estais louco?
Bolingbrok (passeando pela casa com passos largos) — John, oh, oh, mim está zanga...
John — E eu também não estou muito contente; mas enfim, é preciso termos paciência; estamos em casa de nossas mulheres.
Bolingbrok — Yes, eu estar satisfeita de estar junto de Clarice.
John — E eu, de Virgínia. (Assenta-se.) Há três meses que as vimos pela primeira vez e lhe fizemos a corte; e eis-nos de novo obrigados a principiarmos...
Bolingbrok (sempre passeando de um para outro lado) — Yes, começa declaration outra vez...
John — Que de acontecimentos, que de tribulações!... Mas tu é que és a causa de tudo isto.
Bolingbrok (parando) — Mim, John?
John — Sim.
Bolingbrok — Oh, este é forte! Culpada é tu, que dá conselho a mim. Maus conselhos.
John — Sim? E tu, com estes maus modos?
Bolingbrok — Oh, eu é que diz: minha ladrãozinho é mau, minha amorzinho é mau?... Oh, eu queixa de ti, e se ti não estar minha sócio... Eu dá soco.
John (levantando-se) — Tu é que precisas uma roda deles.
Bolingbrok (chegando-se para John) – Eu é que precisa, John? Eu é que precisa,
John?
John (gritando) — É sim, maluco!
Bolingbrok (gritando muito junto de John) — Eu é que precisa, John?
John (empurrando-o) — Irra, não me ensurdeças!
Bolingbrok — Oh! (Arregaçando as mangas:) John, vamos joga soco? Vamos,
John? Eu quer quebra o nariz...
John — Chega-te para lá!
Bolingbrok — Oh!
CENA IV
Virgínia, Clarice e os ditos.
Clarice (entrando) — O que é isto, senhores?
Bolingbrok (estático) — Oh!
John — Minhas senhoras, não é nada.
Bolingbrok (cumprimentando) — Minhas comprimentas.
John — A bondade que tivestes de nos convidar...
Virgínia —
Queiram assentar. (Puxam cadeiras e assentam-se na seguinte ordem:
(continua...)
PENA, Martins. As Casadas Solteiras. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17001 . Acesso em: 28 jan. 2026.