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#Romances#Literatura Brasileira

Ubirajara

Por José de Alencar (1874)

Depois suspenderam a caça mais volumosa, veados e antas, assim como as igaçabas de cauim, nos ramos inclinados da árvore, em altura que o braço do guerreiro pudesse alcançar.

Frutas de várias espécies, pencas douradas de bananas, cachos roxos de açaí, os rubros croás e os fragrantes abacaxis, enchiam o jirau levantado no meio do terreiro.

Jacamim conduzira o hóspede à sombra da gameleira, onde o esperava o banquete da chegada.

Ao lado de Ubirajara sentou-se Itaquê e depois os moacaras que tinham vindo para a festa da hospitalidade.

Os guerreiros comeram em silêncio. As mulheres diligentes os serviam, enchendo de vinho de caju e ananás as largas cumbucas, tintas com a pasta do crajuru que dá o mais brilhante carmim.

Quando o hóspede, depois de satisfeito o apetite, lavou o rosto e as mãos, Jacamim ordenou às servas que recolhessem os restos das provisões, e retirou-se com elas.

Também afastaram-se os jovens guerreiros, que ainda não tinham voz no conselho. Só ficaram sentados com o hóspede, Itaquê, e os moacaras, senhores das cabanas.

O cachimbo do grande chefe passou de mão em mão e cada ancião bebeu a fumaça da erva de Tupã, que inspira a prudência no carbeto. Então disse o chefe.

— Itaquê deseja dar a seu hóspede um nome que lhe agrade; e precisa que o ajude a sabedoria dos anciões.

A lei da hospitalidade não consentia que se perguntasse o nome ao estrangeiro que chegava, nem que se indagasse de sua nação.

Talvez fosse um inimigo; e o hóspede não devia encontrar na cabana onde se acolhia, senão a paz e a amizade.

O chefe, que tinha a fortuna de receber o viajante, escolhia o nome de que ele devia usar enquanto permanecia na cabana hospedeira. Foi Ipê quem primeiro falou:

— Tu chamarás ao hóspede Jutaí, porque sua cabeça domina o cocar dos mais fortes guerreiros, como a copa do grande pinheiro aparece por cima da mata.

Disse Tapir:

— Chama ao hóspede Boitatá, porque ele tem os olhos da grande serpente de fogo, que voa como o raio de Tupã.

Os moacaras, cada um por sua vez, falaram; e como a voz começava do mais moço para acabar no mais velho, as últimas falas eram menos guerreiras e traziam a prudência da idade.

Assim Caraúba, que era o segundo antes do chefe, disse:

— Itaquê, o hóspede é o núncio da paz. Tu deves chamá-lo Jutorib, porque ele trouxe a alegria à tua cabana.

Guaribu, cujos anos enchiam a corda de sua existência de mais nós, do que tem o velho cipó da floresta, falou por último.

— O viajante é senhor na terra que ele pisa como hóspede e amigo; e o nome é a honra do varão ilustre, porque narra sua sabedoria. Pergunta ao estrangeiro como ele quer ser chamado na taba dos tocantins.

— Bem dito!

Itaquê, aprovando as palavras prudentes do ancião, perguntou a Ubirajara que nome escolhia; este lhe respondeu:

— Eu sou aquele que veio trazido pela luz do céu. Chama-me Jurandir.

Nesse momento, Araci, a estrela do dia, apareceu por entre as palmeiras e caminhou para a cabana.

Os mais valentes entre os jovens guerreiros tocantins acompanhavam a formosa caçadora. Eram os servos do amor, que disputavam a beleza da virgem. Os cantores saudaram de novo o hóspede pelo nome que ele escolhera.

— Tu és aquele que veio trazido pela luz do céu. Nós te chamaremos Jurandir; para que te alegres ouvindo o nome de tua escolha.

"Tu és aquele que veio trazido pela luz do céu. Nós te chamaremos Jurandir; e o nome de tua escolha alegrará o ouvido dos guerreiros. "

De longe Araci viu o estrangeiro, sentado entre os anciões, como o frondoso jacarandá no meio dos velhos troncos das aroeiras.

A virgem reconheceu logo o caçador araguaia e adivinhou que ele viera à cabana de Itaquê para disputar sua beleza aos guerreiros tocantins.

O coração de Araci encheu-se de alegria. Seus negros cabelos estremeceram de contentamento, como as penas da jaçan quando pressente o formoso inverno.

O estrangeiro não queria ser conhecido; pois deixara o cocar das plumas da arara, que eram o ornato guerreiro de sua nação. Mas a imagem do jovem caçador ficara na lembrança da virgem, como fica na terra a verde folhagem, depois da lua das águas.

A lei da hospitalidade proibia à virgem revelar o segredo do estrangeiro, só dela sabido. Nesse momento foi à sua alma que obedeceu e não ao costume da nação.

Quando Araci chegou ao terreiro, os anciões se preparavam para ouvir a maranduba do hóspede. Os guerreiros e as mulheres escutavam em silêncio. O estrangeiro começou:

— Jurandir é moço; ainda conta os anos pelos dedos e não viveu bastante para saber o que os anciões da grande nação tocantim aprenderam nas guerras e nas florestas.

"O moço é o tapir que rompe a mata, e voa como a seta. O velho é o jabuti prudente que não se apressa.

"O tapir erra o caminho e não vê por onde passa. O jabuti observa tudo, e sempre chega primeiro.

"Jurandir é moço; mas conhece as grandes florestas; e atravessou mais rios do que as veias por onde corre o sangue valente de seu pai.

"A primeira água em que Jaçanã, sua mãe, o lavou, quando ele rasgou-lhe o seio, foi a do grande lago onde Tupã guardou as águas do dilúvio, depois que as retirou da terra.

(continua...)

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