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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

- Tem razão de zombar, Luís! Devo parecer-lhe uma criança; e eu mesma não cesso de acusar-me por esta tolice; mas nem por isso consigo livrar-me dos receios que me assaltam. 

- Disposição em que você está, Ermelinda. Que perigo pode haver em um passeio que estou a fazer constantemente, e até mais longe e com maior demora?  

- Tudo isto me tenho eu dito cem vezes desde ontem, e não sossego. Nunca fui sujeita a cismas e caprichos, você bem o sabe; entretanto sinto hoje um desassossego, um aperto de coração. 

- É nervoso. 

- Se não houvesse uma causa real para isso, podia ser; mas há. Essas esperas, que andam deitando por aí, das quais ainda ontem falou o administrador... 

- E por que hão de ser elas para mim? Não tenho inimigos, e a ninguém faço mal para que se dêem ao trabalho de livrarem-se de mim. 

- Papai é tão estimado! disse Linda; e a voz doce como um favo de mel arpejou a nota moviosa da ternura filial.  

- Quem se atreveria?... 

  O altivo desafio, esboçado nestas palavras, partiu dos lábios de Afonso que alçou a fronte já naturalmente erguida, com um assomo bizarro. 

- São os bons, meus filhos, que estão mais sujeitos ao ódio dos maus, os quais se conhecem e ajudam entre si. 

- Lembre-se, Ermelinda, que depois das esperas tenho andado por esses caminhos. No dia em que o administrador veio contar-lhe a tal novidade e assustá-la à toa, eu fui a  Piracicaba, e duas vezes passei na Ave-Maria. Disse o Pereira depois, que vira dois vultos no mato; entretanto nada me aconteceu. Se havia espera, não era decerto para mim. 

  Pareceu D. Ermelinda ceder à força desse argumento e ao tom persuasivo do marido; mas o pressentimento a pungia, e o coração perscrutava objeções para resistir à razão. 

- E esse homem, que foi ontem visto pelos pretos, atravessando a fazenda? 

Dizem que a desgraça o acompanha, pois ele deixa, por onde passa, um rasto de sangue. 

Por isso deram-lhe o nome de fera! 

- Outra prova de que são imaginários os seus receios, Ermelinda. Jão Bugre ou Jão, como eu o chamava em menino, a exemplo de outros, foi criado em nossa casa; era afilhado de meu pai e até chegou a servir-me de camarada. Depois tornou-se um perverso; porém lembra-se dos benefícios que recebeu de nossa família, e, embora se mostrasse altaneiro comigo, acredito que me respeita. 

- Essa gente não é capaz de gratidão, Luís; ao contrário, o benefício os humilha, e eles revoltam-se contra o que chama uma injustiça do mundo. 

  O Bugre é uma fera, na verdade; contam-se dele as maiores atrocidades; porém esse homem de más entranhas tem um resto do consciência e probiedade. Não há exemplo de haver atirado a alguém por trás do pau, ou de emboscada: ataca sempre de frente, expondo-se ao perigo. O bacamarte só lhe serve para defender-se, quando o perseguem. Também nunca ouvi falar de roubo ou furto que ele cometesse, e isso apesar de viver ele pelos matos, constantemente acossado.  

- E ainda não foi preso um criminoso de tantas mortes? 

- Não é por falta de diligência. Andam-lhe à pista desde muito tempo; e até, se não me engano, ouvi que tinham prometido um prêmio a quem desse cabo dele; mas até agora não se animaram, tal é o temor que inspira. 

- Bem razão tenho eu, portanto, de assustar-me, quando um facinoroso desses aparece dentro da fazenda: talvez ande ele rondando a nossa casa. 

- Não se lembra disso; mas, se tivesse a audácia, ele ou outro, acharia a casa bem guardada. Demais, aqui lhe deixo um homem para defendê-la. Não é verdade, Afonso? 

- Sem dúvida, meu pai. Na sua ausência nada acontecerá! 

- Não é por mim que receio, Luís; antes fosse; não estaria tão inquieta, disse a senhora com um leve reproche. 

- Nesse caso eu não partiria! respondeu o marido galanteando. 

- Então fique! 

- Sim, papai, fique! Dê esse gosto a mamãe, disse Linda. 

- Também a senhora não quer que eu vá? Olhe, não se arrependa! replicou o pai com um gesto de zombeteira ameaça. Levo uma certa encomenda de vestidos e enfeites, que só eu sei escolher. 

  A moça ficou enleada entre a esperança do presente e o desejo da mãe. 

- Papai compraria outra vez. 

- E a festa? Perguntou o pai sorrindo. 

  A pêndula soou oito horas. 

 

IX 

As amostras 

 

 Advertido pela pêndula, Luís Galvão consultou seu relógio de algibeira e ergueu-se: 

- São horas! 

  Até aquele momento nutrira D. Ermelinda uma vaga esperança, que ela mesma não podia explicar. Lembrava-se que um pequeno acidente qualquer podia estorvar ou pelo menos adiar a viagem. Vendo chegar a despedida, empalideceu:  

- Se você aflige-se dessa maneira, Ermelinda, não vou. Faz-me grande desarranjo, como sabe; mas não tenho ânimo de deixá-la tão sobressaltada. 

- Confesso que esta emoção faz-me mal; já não me sinto boa. 

- Então fico: está decidido. 

(continua...)

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