Por José de Alencar (1872)
A Guida deu um estalo com os dedos:
- Cá, Sofia.
- Deixe! disseram as outras rindo.
Pensavam que Ricardo tinha medo do cavalo, e queriam divertir-se com a queda. Não se lembravam, que naquele lugar, à borda de um despenhadeiro, podia ser fatal.
Sofia ouvira a voz da senhora; mas, com o seu privilégio de cão mimoso desobedeceu; e investiu contra o “Galgo” com maior sanha. Ela estava acostumada àquele brinquedo; já tinha mordido o jarrete de muitos cavalos, atirando ao chão os cavaleiros, para divertimento da senhora e suas amigas.
Ricardo vendo a inutilidade de sua recomendação, deu largas à cólera do “Galgo”. O brioso cavalo juntou, e atirandose para a frente de um salto, arremessou o coice. A cachorrinha foi cair no fundo do precipício, sem tempo sequer de soltar um gemido de dor.
- Sem dúvida morreu! disse uma das moças. Passando pelas senhoras, Ricardo cortejou:
- Queiram desculpar, minhas senhoras; este cavalo é um provinciano; ainda não tem maneiras cortesãs. À noite, antes de dormir, Fábio dava risadas gostosas ouvindo o episódio do passeio.
V
Decorreu mais de um mês.
Durante esse tempo Ricardo passou com seu amigo três domingos na Tijuca. De cada vez o acaso o fizera encontrar a Guida quando mal pensava.
A primeira vez foi na manhã do domingo que seguiu-se às cenas referidas.
Ricardo saíra no “Galgo” a passeio. Tomando para o lado da cascatinha, que as chuvas dos últimos dias tinham enriquecido, lembrou-se o moço de subir até a Floresta, um dos mais lindos sítios da Tijuca. O nome pomposo do lugar não é por ora mais do que uma promessa; quando porém crescerem as mudas de árvores de lei, que a paciência e
inteligente esforço do engenheiro Archer têm alinhado aos milhares pelas encostas, uma selva frondosa cobrirá o largo dorso da montanha, onde nascem os ricos mananciais.
Viva a imagem da loucura humana! Refazer à custa de anos, trabalho e dispêndio de grande cabedal, o que destruiu em alguns dias pela cobiça de um lucro insignificante! Aquelas encostas secas e nuas, que uma plantação laboriosa vai cobrindo de plantas emprestadas, se vestiam outrora de matas virgens, de árvores seculares, cujos esqueletos carcomidos às vezes se encontram ainda escondidos nalguma profunda grota. Veio o homem civilizado e abateu os troncos gigantes para fazer carvão; agora, que precisa da sombra para obter água, arroja-se a inventar uma selva, como se fosse um palácio. Ontem carvoeiro, hoje aguadeiro; mas sempre a mesma formiga, abandonando a casa velha para empregar sua atividade em construir a nova.
Ricardo pensava pouco mais ou menos nesse sentido, enquanto ganhava a ponte da Cascatinha, com intenção de subir até a Floresta. Mas essas preocupações se desvaneceram completamente diante do quadro arrebatador que se oferecera a seus olhos.
Brancos lençóis de espuma se desdobravam pelas escarpas do rochedo, como as pregas de alvo manto flutuando sobre as espáduas de Agar, a africana. A vegetação se debruçando de um e outro lado, derrama sobre a cachoeira uma sombra doce, que torna mais negra a pedra e mais cândida a espuma.
Há cascatas muito mais ricas e abundantes do que essa, não só na grande massa das águas, como na vastidão e aspereza dos penhascos. Têm, sem dúvida aspecto mais soberbo e majestoso; inspiram n’alma pensamentos mais graves e sublimes.
A Cascatinha da Tijuca, porém, prima pela graça; não é esplêndida, é mimosa; em vez da pompa selvagem respira uma certa gentileza de moça elegante; bem se vê que não é uma filha do deserto; está a duas horas da corte, recebe freqüentemente diplomatas, estrangeiros ilustres e a melhor sociedade do Rio de Janeiro.
Assim não se despenha ela com a fúria de uma serpente, mas com a indolência com que uma senhora da moda se derreia no recosto do divã.
Sua voz não é um trovão, mas um rumorejo que embala docemente o coração. Perto dela sente-se no ar o hálito fresco das águas que se esfrolam, e não a constante neblina produzida pelos borbotões que se desfazem em pó com a violência do choque.
O jovem advogado tinha contemplado muitas vezes a Cascatinha, e até já possuía em seu álbum uma aquarela da formosa paisagem; mas nunca a vira tão abundante d’água, tão enfeitada e casquilha. Projetou voltar a pé, depois do almoço, para tirar outra vista. Assim teria a Cascatinha em traje de festa e em desalinho.
Uma voz soou a pouca distância:
- Oh! beautiful! Very beautiful!
Ricardo estava no centro da ponte, com o cavalo atravessado, para ver de frente a Cascatinha. Conhecendo que outras pessoas se aproximavam fez voltar o animal para dar-lhes passagem. Este movimento colocou-o em face de Guida, que chegava.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.