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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Deu soga ao cavalo e desceu rápido a encosta rodeando para sair em uma várzea que demorava cerca de meia légua de casa, ao longo de uma das vertentes da serra e cabeceiras do Sitiá. 

De um relance d’olhos investigou o descampado. Apeando-se, endireitou a um ponto onde notara vestígios de palhas recentemente queimadas. Era precisamente o que ele buscava; alí tinha começado o fogo que se comunicara ao arvoredo próximo, e depois se propagara pelas matas da fazenda. 

Junto às cinzas, havia no chão uns sinais que não eram de pègadas humanas, nem rasto de qualquer animal conhecido. Esteve observando-os o sertanejo por algum tempo, e seguiu-lhes o traço, que alí perto ia perder-se no mato. 

Acompanhou Arnaldo por algum tempo aquela pista por entre o arvoredo, a-pesar-do escuro que já aí reinava. Afinal parou descobrindo entre o lastro das folhas secas uma pègada, que não fora de todo apagada. 

Reclinou-se então quase de-bruços e esteve a estudar os traços indistintos e quase imperceptíveis daquele vestígio deixado por um pé humano, que aí passara de fresco. 

A profunda investigação do antiquário que se obstina em decifrar nas linhas confusas do hieróglifo o sentido ignoto, não exige de-certo mais forte contensão do espírito, nem tão poderosa reminiscência. 

Entretanto pouco demorou-se no exame o sertanejo, que ergueu-se com a feição de quem acabava de confirmar-se em uma suspeita: 

— Não me enganei! 

Deliberou então voltar; mas depois de haver gravado na memória a lembrança do sítio, com essa energia de percepção que o hábito da observação dá ao olhar do homem educado nas brenhas para a luta incessante do deserto. 

Tornando ao mesmo lugar, o sertanejo contornou a mancha negra que deixara a labareda no chão e que fôra como a cabeceira da ígnea torrente, cujo sulco rompia a selva. 

Do lado oposto, oculto por uma grande touça de carnaúbas, o massapé fazia um ressalto, formando uma coroa no alagadiço da várzea. Alí crescia entrelaçado com os estipes das palmeiras, um arvoredo viçoso a-pesar-da estação, e que abrigava sob a rama verdejante uma choça de pegureiro. 

O colmo da cabana era de palha da carnaúba, como do tronco eram os esteios e cumieira, e dos talos a porta, aberta nesse momento. O interior constava de um só repartimento com uma emposta de esteira da mesma palha, levantada a meio da choupana. 

A um lado via-se um balaio com o eitio de mala e tampa também de palha de carnaúba trançada; fronteiro um catre cujo leito era formado das aspas da palmeira que fornecera todo o material da habitação. 

Quando o sertanejo chegou à porta da cabana, estava deitado no catre um homem que pela sua imobilidade parecia dormir. O parecer era de um velho no período da decrepitude. 

Os cabelos compridos até se mesclarem com a barba, formavam como um capelo d’alva que lhe cobria todo o busto. Sob êste rebuço das cãs, apenas se lhe distinguiam das feições as pálpebras, cerradas naquele momento. 

O trajo do ancião compunha-se unicamente de uma túnica estreita de algodão, tinta de preto e cuja teia mal urdida era de grosseiro fio. Os pés tinha-os descalços e cobertos de poeira e cinza. 

Arnaldo aproximou-se do catre e apertou a mão do velho: 

— Benvindo, Arnaldo. Já sabia que estavas de volta, disse o velho sem mover-se.

— Como o soubeste, Jó, se acaba de chegar? 

— Não careço de abrir os olhos para ver-te, filho. Desde esta manhã que eu te sinto chegar; ouço os teus passos. 

— E quando eu chego, não te ergues daí para dar-me um abraço depois de tão longa ausência! disse Arnaldo com doce exprobração. 

— Também já te abracei, filho, quando entraste, e ainda te tenho dentro d’alma. 

O mancebo, habituado a essa linguagem mística, não mostrava a menor estranheza; ao contrário, reclinou para o catre e estreitou o ancião ao peito. 

O velho ergueu-se para corresponder à carícia de seu jovem amigo. 

— Antes de tudo, Jó, diz-me, se alguma coisa te faltou? perguntou Arnaldo com solicitude.

— Que pode faltar à fera no meio das brenhas? 

— O sossêgo, Jó; e não ando errado, pois vim encontrar uma cilada, que nos armaram. Mas felizmente cheguei a tempo. 

— Deixa que se cumpra a vontade de Deus, filho. Êle proíbe que arrisques a tua mocidade por causa de uma poeira que se está esboroando a cada momento. 

— É preciso que abandones por algum tempo a cabana, Jó! tornou o sertanejo com o tom 

resoluto. 

— Porventura deixo eu nesta cabana a minha sina, para que, abandonando-a, me esconda à cólera celeste, que pesa sôbre mim? 

— Não é a cólera celeste que te ameaça, é a vingança de um inimigo traiçoeiro que deitou fogo à mata da fazenda, e o fez de maneira que as suspeitas recaem sôbre ti. O velho sacudiu os ombros. 

— Eu conhecí os sinais de um rasto apagado no lugar onde começou o incêncio; e já sei de quem é êsse rasto. Mas na fazenda o ignoram; e não faltará quem lance a culpa ao velho Jó. 

— Outras maiores pesam sôbre êste mísero pecador, filho; e ainda não acabaram de afundar pela terra a dentro. 

— O capitão-mór é severo, e duro de abrandar. 

(continua...)

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