Por José de Alencar (1857)
— Não te canses, prima; isto só serve para provar-me ainda mais o que já te confessei: nesta casa só tu me amas, os mais me desprezam.
— Pois bem, replicou Cecília, eu te amarei por todos; não te pedi já que me tratasses como irmã?
— Sim! e isto me causou um prazer, que tu não imaginas. Se eu fosse tua irmã!...
— E por que não hás de sê-lo? Quero que o sejas!
— Para ti, que para ele...
Este ele foi murmurado dentro dalma.
— Mas olha que exijo uma coisa.
— O que é? perguntou Isabel.
— É que eu serei a irmã mais velha.
— Apesar de seres mais moça?...
— Não importa! Como irmão mais velha, tu me deves obedecer?
— Decerto, respondeu a prima sem poder deixar de sorrir.
— Pois bem! exclamou Cecília beijando-a na face, não te quero ver triste, ouviste? Senão fico zangada.
— E tu não estavas triste há pouco?
— Oh! já passou! disse a moça saltando ligeiramente da rede.
Com efeito, aquela doce languidez com que se embalançava há pouco, cismando em mil coisas, tinha desaparecido completamente: seu gênio de menina alegre e feiticeira havia cedido um momento ao enlevo, mas voltava de novo.
Era agora como sempre uma moça risonha e faceira, respirando toda a graciosa gentileza, misturada de inocência e estouvamento, que dão o ar livre e a vida passada no campo. Erguendo-se, apinhou em botão de rosa os lábios vermelhos e imitou com uma graça encantadora os arrulhos doces da juriti; imediatamente a rola saltou dos galhos da acácia, e veio aninhar-se no seu seio, estremencendo de prazer ao contato da mãozinha que alisava a sua penugem macia.
— Vamos dormir, disse ela à rola com a garridice com que as mães falam aos filhinhos recém-nascidos: a rolinha está com sono, não é?
E deixando sua prima um momento só no jardim, foi agasalhar os seus dois companheiros de solidão, com tanto carinho e solicitude que bem revelava a riqueza de sentimento que havia no fundo desse coração, envolta pela graça infantil de seu espírito.
Nesta ocasião ouviu-se um tropel de animais perto da casa; Isabel lançou os olhos sobre as margens do rio, e viu uma banda de cavaleiros que entravam a cerca.
Soltou um grito de surpresa, de alegria e susto ao mesmo tempo.
— Que é? perguntou Cecília correndo para sua prima.
— São eles que chegam.
— Eles quem?
— O Sr. Álvaro e os outros.
— Ah!... exclamou a moça corando.
— Não achas que voltaram muito depressa? perguntou Isabel sem reparar na perturbação de sua prima.
— Muito; quem sabe se houve alguma coisa!
— Dezenove dias apenas... disse Isabel maquinalmente.
— Contaste os dias?
— É fácil! respondeu a moça corando por sua vez; depois de amanhã faz três semanas.
— Vamos a ver que lindas coisas eles nos trazem!
— Nos trazem? repetiu Isabel carregando sobre a palavra com um tom de melancolia.
— Nos trazem, sim; porque eu encomendei um fio de pérolas para ti. Devem ir-te bem as pérolas, com tuas faces cor de jambo! Sabes que eu tenho inveja do teu moreninho, prima?
— E eu daria a minha vida para ter a tua alvura, Cecília
— Ai! o sol está quase a se pôr! Vamos.
E as duas moças tomaram pelo interior da casa, dirigindo-se ao lado da entrada.
VI
A VOLTA
Ao mesmo tempo que esta cena se passava no jardim, dois homens passeavam do outro lado da esplanada, na sombra que projetava o edifício.
Um deles, de alto porte, conhecia-se imediatamente que era um fidalgo pela altivez do gesto e pelo trajo de cavalheiro.
Vestia um gibão de velado preto com alamares de seda cor de café no peito e nas aberturas das mangas; os calções do mesmo estofo, e também pretos, caíam sobre as botas longas de couro branco com esporas de Ouro
Uma simples preguilha de linho alvíssimo cercava o talho do seu gibão, e deixava a descoberto o pescoço, que sustentava com graça uma bela e nobre cabeça de velho.
De seu chapéu de feltro pardo sem pluma escapavam-se os anéis de cabelos brancos, que calam sobre os ombros; através da longa barba alva como a espuma da cascata, brilhavam suas faces rosadas, sua boca ainda expressiva, e seus olhos pequenos mas vivos.
Este fidalgo era D. Antônio de Mariz que, apesar de seus sessenta anos, mostrava um vigor devido talvez à vida ativa; trazia ainda o porte direito, e tinha o passo firme e seguro como se estivesse na força da idade.
O outro velho, que caminhava a seu lado com o chapéu na mão, era Aires Gomes, seu escudeiro e antigo companheiro de sua vida aventureira; o fidalgo depositava a maior confiança na sua discrição e zelo.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.