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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Era de Manuel a pergunta; começada longe, acabou em face do mascate, onde veio cair de um salto o irado gaúcho, que se arremessara de cima do animal, apertando na cinta o cabo da faca. 

O chileno empalideceu de leve: 

— Não se afronte, que não há razão. O que eu disse, repito. A égua abrandou de repente, ou por estar cansada, ou por outro qualquer motivo: o caso é que não está como dantes. 

Vexou-se o Canho de seu arrebatamento, reconhecendo que não havia realmente motivo para tanto. Mas sentia ao mesmo tempo que a presença do chileno produzia nele uma desagradável impressão. 

As súbitas antipatias são incompreensíveis; é este um mistério d’alma, que a ciência ainda não conseguiu perscrutar. Parece que há no magnetismo animal, como na eletricidade da atmosfera, um fluido de repulsão e um fluido de atração; um pólo para o amor e outro para o ódio.  

Foi sem dúvida sob a influência deste último que uma aversão irresistível se estabeleceu logo do brasileiro para o chileno. Recente era o encontro; Manuel o tinha visto pela primeira vez há cerca de uma hora; poucas palavras trocara com ele, e não obstante parecia-lhe que desde muito tempo o detestava. 

Entretanto a figura de D. Romero era mais própria para despertar sentimentos benévolos. Mancebo de vinte e cinco anos, tinha um semblante prazenteiro; o negro bigode e a pêra destacavam-se bem sobre uma tez alva e rosada. Era mediana a estatura, mas de um porte airoso, embora com excessivo donaire que afeta geralmente a raça espanhola. 

Trajava o mancebo com a garridice de cores muito apreciada pela gente da campanha. Lindo pala chileno, com listras de amarelo e escarlate, caía-lhe dos ombros até pouco abaixo da cintura. Pela abertura da gola de veludo com abotoadura de ouro, via-se o peito da camisa de fina Irlanda. As botas eram de couro de vicunha, tão bem curtido que imitava a camurça. Trazia um chapéu de palha alvo com o linho de que parecia tecido; esse primor lhe havia custado oito onças em Santiago. 

 

VII 

O AMANSADOR 

 

À admiração que provocara a façanha do gaúcho sucedera certo menoscabo. As multidões são assim; ondas batidas por dois ventos, o entusiasmo e a inveja. 

— A égua já foi amansada, não tem que ver! dizia um da roda. 

— Aposto que fugiu há tempos de algum pasto, acudiu outro. 

— Também vou para aí. A fúria não foi grande. 

— Decerto! Queria-se ver a força da gineta! 

— Assim qualquer faria. 

Voltou-se Manuel já de ânimo sereno, designando o animal com um aceno da mão estendida: 

— Pois a égua aí está, senhores. Quem quiser que a monte. Se é tão fácil! 

Alguns dos peões se adiantaram para outra vez tentarem cavalgar o animal: não deram, porém, dez passos. Mal lhes pressentiu o intento, a égua, volvendo sobre as mãos de um tranco, e upando as ancas, arremessou tal cascata de coices, que afugentou os fanfarrões, obrigados a buscarem refúgio no alpendre. 

Então a formosa besta correu para junto do gaúcho que estava arredio, e começou a roçar por ele o pescoço como se o afagasse. Sossegou-a ele amimando-lhe o pêlo dourado; e voltandose para os companheiros, interpelou-os com ar de mofa: 

— Então, não há quem queira? 

Nenhum respondeu: falavam entre si. 

— O homem tem partes com o diabo! Cruzes! 

— O caso é que ninguém sabe donde saiu. 

Entretanto Manuel tinha de novo montado, e desta vez, com toda pachorra, sem que a égua fizesse o menor movimento de impaciência. Antes mostrava ela grande contentamento de obedecer ao gesto do gaúcho. 

— Guarde a égua, sem medo, Manuel Canho, que bem a ganhou, disse o dono da pousada. 

O brasileiro fez um gesto de assentimento; e aproximou-se do alpendre. 

— Esta é a gineta que eu uso e aprendi de meu pai. Ela faz do cavalo um amigo e não um cangueiro. Mas também, senhores, se o bicho é mau, da casta que for, de dois ou de quatro pés, fiquem certos que no continente também os sabemos ensinar. Caso haja por aí algum deste lote, minha gente, botem-no para cá e verão. 

Cortejou com o chapéu. Os da roda não sabiam que fazer; se deviam zangar-se ou chasquear.  

— Amigo Perez, disse no entretanto o gaúcho; por favor tenha mão aí nos arreios enquanto volto. 

— Então vai longe? 

— Conforme! Vou levar esta moça que está com saudades! Coitada... respondeu o gaúcho amimando o colo do animal. 

Passou a égua a tronqueira do pasto; foi transpô-la e desfechar em uma corrida veloz, à desfilada. Com pouco sumiu-se nos longes do horizonte. Por algum tempo ainda ouviu-se o vibrante e generoso henito que estridava nos ares, com o clangor argentino de um clarim.] 

Simples era o segredo da proeza do gaúcho. Como todos os outros picadores ali presentes na estância, conhecera do primeiro lance de vista, que a égua estava parida de próximo. Esta observação, a que não deram os mais nenhum valor, produziu nele profunda impressão. 

(continua...)

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