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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

Tornava a casa muito contente de si, quando lograva entrever pela rótula uma sombra que podia ser do talhe de abelha da menina Marta, como do cocó da Sr.ª Miquelina, ou mesmo do gato da casa. O que quer que fosse lhe dava uns repiques no coração; e aos olhos subia uma névoa rubra, que lhe escurecia a vista; mas nesse crepúsculo aparecia-lhe o rostinho de prata que ele vira com sua redoma de cabelos castanhos. 

Ao cabo de alguns dias gastos nessa vadiagem, sentiu Ivo o impulso irresistível de comunicar o querido objeto de seus pensamentos e inundá-lo com as abundâncias de seu coração. 

Ivo era mecânico, para falar a linguagem coeva, pois que artista naquele tempo servia para indicar os gramáticos e retóricos, ou os matreiros férteis em manhas; e nada disso tinha o nosso estudante, cujo pecado não passava de uma ponta de sarcasmo, ao demais original, pois lho dera a natureza, e não o podia negar. 

Mecânico e artífice, não por mister e necessidade de ganhar a vida, senão por veia, tinha n’alma as primaveras floridas, que os poetas chamam lirismos. 

O céu de uns olhos límpidos havia luzido naquela existência; e os raios que lhe infiltrava no seio, estavam abrolhando em flores e boninas, que por força haviam de romper-lhe do coração.  

O que havia ele de dizer a Marta e o como havia de falar-lhe, não o sabia. Poetas são como as brisas, que pelo espaço vão caladas e tristes, mas encontrando as franças das roseiras, logo desatam em suaves arpejos. 

Começou o rapaz a cismar e andou um par de dias zonzo até que tomou-se de uma rebentinha, que parecia corrupio o estouvado, a girar de uma banda para outra. 

Arranjou como pôde um pedaço de pergaminho de Flandres, tamanho de palmo; e depois de bem respançado, meteu-o na grade. Então, munindo-se das cores precisas, trancou-se em casa e eilo a esboçar a miniatura, em que punha toda sua arte. 

Foi apalpando o branco com a laca e a sombra para fazer os encarnados, até que se destacou em colorido a figura esboçada de um cupido brincão e gentil, armado em guerra, de arco e aliava. O pintor o figurava em ação de brandir uma seta, cuja ponta embebia na luz de uma estrela radiante em céu azul, para cravar um coração caído por terra e já crivado por um molho delas. 

Terminado o colorido e bem apalpadas as sombras e realces, quando ia passar à iluminação, esqueceu-se que faltava-lhe pão d’ouro para o farpão das setas, e correu à tenda do Belmiro a pedirlhe um tantinho dele; de caminho foi arranjando o conto que lhe havia de fazer, para ocultar o verdadeiro fim. 

De volta, achou-se em branco o nosso Ivo. Tinha-lhe desaparecido o painel, sem deixar indícios de quem o levara. A câmara onde trabalhava tinha uma só porta que ele tivera o cuidado de fechar à chave, e uma janela que dava para a cerca. Era por aí sem dúvida que entrara o larápio. 

Correu ao peitoril, e só descobriu um gozo da cozinha, acocorado no quintal em frente dele, e a olhá-lo com focinho chocarreiro, como se estivesse aplaudindo o logro, que haviam pregado no nosso namorado, e mofando de sua figura estatelada. 

Dando com os olhos no cão teve o rapaz um pressentimento cruel. O pergaminho, apesar do respanço e da imprimadura, no fim de contas não passava de couro de carneiro, e todo o cachorro tem sua queda para esse despojo animal, até mesmo quando o encontra no cisco em forma de sapato velho. 

Convencido de ser o gozo quem surripiara o malfadado cupido, e talvez àquela hora o tinha no bucho, o Ivo, com o sangue a ferver-lhe, galgou de um pulo o batente da janela, e foi-se como um raio ao cão. Mas esse, que lhe pressentira o ímpeto escafedeu-se. Perseguiu-o o pintor, bem resolvido a agarrá-lo e abrir-lhe o ventre para extrair a miniatura, de que ainda esperava aproveitar o pergaminho. Batendo o mato e correndo o rossio da cidade no encalço do fugitivo, consolava-o a idéia, de que o verdete e o zarcão dariam cabo do bicho. 

Lá por volta de Ave-Maria, tornou ele a casa prostrado de fadiga, esgalgado de fome, mas sobretudo minado pelo desespero, que é a pior das rafas, pois esmicha a alma. 

Afagar por muitos dias um pensamento; sonhar a realidade dessa inspiração; brotá-la da imaginação, como a árvore brota a flor; vê-la espontar, a princípio tênue gomo, depois capulho, mais tarde já botão, e finalmente corola esplêndida, recendendo fragrância, e vertendo as mais lindas cores! 

Chegar até aí, e quando não faltava senão o último toque, suprema carícia que o poeta e o artista não se cansam de fazer ao seu lavor, antes de o despedir de si, ver perdida a obra querida, o filho de sua alma, e não só perdida para ele, como para o mundo; condenada antes de vir à luz! 

Essa dor, só a imaginam os que marcou Deus com o selo da fatalidade para fazerem de sua alma a hóstia do progresso, e darem sua vida à comungação dos povos: são os mártires da ciência e da arte. Ivo estava predestinado a ser um desses. 

Para o mancebo, o painel era a sua primeira prenda de amor; e todavia por maior que fosse o desgosto do namorado, sobrepujava a desconsolação do pintor. 

Ao entrar em sua casa da Rua do Cotovelo, esbarou-se o Ivo com a Sr.ª Rosalina que o 

(continua...)

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