Por José de Alencar (1857)
VASCONCELOS - Ora, meu genro, se o Sr. continua a falar desta maneira, obriga-me a trazer no bolso daqui em diante um dicionário de Fonseca.
AZEVEDO - Os estrangeiros têm razão! Estamos ainda muito atrasados no Brasil!
D. MARIA - Entremos, é quase noite!
ATO III
Em casa de EDUARDO. Sala interior.
CENA PRIMEIRA
EDUARDO, HENRIQUETA, CARLOTINHA, AZEVEDO, VASCONCELOS,
D. MARIA, PEDRO, JORGE
(Toma-se chá. Na mesa do centro, CARLOTINHA e AZEVEDO; à direita, VASCONCELOS e D. MARIA; à esquerda, HENRIQUETA; EDUARDO passeia, JORGE numa banquinha à esquerda. PEDRO serve.)
CARLOTINHA - Ora, Sr. Azevedo! Pois o senhor esteve em Paris e não aprendeu a fazer chá?...
AZEVEDO - Paris, minha senhora, não sabe tomar chá, é o privilégio de Londres.
D. MARIA (a PEDRO) - Serve ao Sr. Vasconcelos.
PEDRO (baixo, a JORGE) - Eh! Nhonhô! Hoje não fica pão no prato, velho jarreta limpa a bandeja.
VASCONCELOS - Excelentes fatias! É uma coisa que em sua casa sabem preparar!
CARLOTINHA - Mano Eduardo, venha tomar chá.
EDUARDO - Não; depois.
PEDRO (baixo, a CARLOTINHA) - Nhanhã está enfeitiçando o moço!
CARLOTINH& - Henriqueta, não dizes nada! Estás tão calada!
HENRIQUETA - Tu me deixaste sozinha.
CARLOTINHA - Tens razão!... Ora, mano, deixe-se de passear e venha conversar com a gente.
AZEVEDO - É verdade. Em que pensas, Eduardo? Na homeopatia ou nalguma beleza inconnue?
EDUARDO - Penso na teoria do casamento que me expuseste esta manhã; estou convertido às tuas idéias.
AZEVEDO - Ah!... D. Carlotinha, não quer que a sirva?
CARLOTINHA (ergue-se; a EDUARDO) - Vai-te sentar junto de Henriqueta.
EDUARDO (baixo) - Não; se me sento junto dela esqueço tudo. Tu me lembraste há pouco que sou o chefe de uma família.
CARLOTINHA - Não lhe entendo.
EDUARDO - Daqui a pouco entenderás.
D. MARIA - Tens alguma coisa, meu filho?
EDUARDO - Não, minha mãe; espero alguém que tarda.
CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Não te zangues!... (Beija-a na face.)
HENRIQUETA - Não; já estou habituada.
PEDRO (servindo HENRIQUETA) - Sr. moço Eduardo gosta muito de sinhá Henriqueta.
HENRIQUETA - Agora é que me dizes isto!
PEDRO - Ele há de casar com sinhá!
AZEVEDO - D. Maria, sabe? Sua filha está zombando desapiedadamente de mim.
CARLOTINHA - Não creia, mamãe.
D. MARIA - Decerto; não é possível, Sr. Azevedo.
VASCONCELOS (a PEDRO) - Deixa ver isto!
PEDRO (baixo) - Sr. Vasconcelos come como impingem!
VASCONCELOS - Hein!... (D. MARIA senta-se.)
PEDRO - Este pão está muito gostoso!
JORGE - Vem cá, Pedro!
PEDRO (baixo) - Guarda, nhonhô! Sinhá velha está só com olho revirado para ver se Pedro mete biscoito no bolso.
CARLOTINHA - Ora, Sr. Azevedo, não gosto de cumprimentos. Todo esse tempo, Henriqueta, o teu noivo não fez outra coisa senão dirigir-me finezas. Previno-te para que não acredites nelas!
HENRIQUETA - Estás tão alegre hoje, Carlotinha.
CARLOTINHA (baixo) - Isto quer dizer que estás triste! Tens razão! Fui egoísta. Mas ele te ama.
HENRIQUETA - Tu o dizes!
AZEVEDO (a EDUARDO) - Realmente não pensava encontrar no Rio de Janeiro uma moça tão distinta como tua irmã. É uma verdadeira parisiense.
CARLOTINHA - Vamos para a sala! Venha Sr. Azevedo. Mano...
CENA II
VASCONCELOS, PEDRO, D. MARIA, JORGE
VASCONCELOS - É preciso também pensar em casar a Carlotinha, D. Maria; já é tempo!
D. MARIA - Sim, está uma moça, mas, Sr. Vasconcelos, não me preocupo com isto. Há certas mães que desejam ver-se logo livres de suas filhas, e que só tratam de casá-las; eu sou o contrário.
VASCONCELOS - Tem razão; também eu se não estivesse viúvo!... Mas isso de um homem não ter a sua dona de casa, é terrível! Anda tudo às avessas.
D. MARIA - Por isso não; Henriqueta é uma boa menina! Bem educada!...
VASCONCELOS - Sim; é uma moça do tom; porém não serve para aquilo que se chama uma dona de casa! Estas meninas de hoje aprendem muita coisa: francês, italiano, desenho e música, mas não sabem fazer um bom doce de ovos, um biscoito gostoso! Isto era bom para o nosso tempo, D. Maria!
D. MARIA - Eram outros tempos, Sr. Vasconcelos; os usos deviam ser diferentes. Hoje as moças são educadas para a sala; antigamente eram para o interior da casa!
VASCONCELOS - Que é o verdadeiro elemento. Confesso que hoje, que vou ficar só, se ainda encontrasse uma daquelas senhoras do meu tempo, mesmo viúva!...
D. MARIA - Vamos ouvir as meninas tocarem piano!... Cá deve estar mais fresco!
(Durante as cenas seguintes ouve-se, por momentos, o piano.)
CENA III
PEDRO, JORGE
PEDRO - Hô!... Tábua mesmo na bochecha! Sinhá velha não brinca! Ora, senhor. Homem daquela idade, que não serve para mais nada, querendo casar. Para ter mulher que lhe tome pontos nas meias!
JORGE - Vou me divertir com ele.
PEDRO - Não; sinhá briga. Vá sentar-se lá junto de nhanhã Carlotinha, e ouça o que Sr.
Azevedo está dizendo a ela.
JORGE - Para quê?
PEDRO - Para contar a Pedro depois.
JORGE - Eu, não.
PEDRO - Pois Pedro não leva nhonhô para passear na Rua do Ouvidor.
JORGE - Ora, eu já vi!
PEDRO - Mas agora é que está bonita! Tem homem de pau vestido de casaca, com barba no queixo, em pé na porta da loja, e moça rodando como corrupio na vidraça de cabeleireiro.
(continua...)
ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.