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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

Eu vi clara e distinta a palavra especulação na boca de Emília; e estava de pé, alheio de mim, antes que ela a pronunciasse. Que ia eu fazer? Que podia eu, contra o insulto de uma mulher, e ali no meio de uma sala? Nada. Erguera-me por esse movimento involuntário e misterioso que nos momentos solenes erige a estatura do homem, como a expansão natural de sua força e dignidade. Sentados parece que nos curvamos à injúria, e a deixamos pesar sobre nossa cabeça; erguidos, como que lhe ficamos sobranceiros, e a olhamos do alto, e a calcamos aos pés! Emília vendo-me levantar arrebatado, mediu-me com um olhar provocador, soltando com estudada lentidão a palavra suspensa : 

—Uma especulação! Já eu tivera tempo, não de reprimir, mas disfarçar a emoção. 

Disse-lhe folheando ao acaso um álbum de músicas: 

—Tem razão, D. Emília ; atualmente com tudo se especula, de tudo se zomba. Ganhar muito dinheiro para ter o direito de rir dos outros, eis a grande questão!... 

Havia decerto em meu rosto alguma cousa, sintomas do refrangimento de uma alma angustiada, que assustou Emília. Ela desviou de mim os olhos e esquivou-se tímida e sobressaltada. Parti imediatamente da casa de D. Matilde; tinha gelo no coração e fogo nas faces. 

A minha resposta ao insulto de Emília me parecia ridícula e parva; outras réplicas mais frisantes me acudiam, que eu desejava ter podido lançar ao rosto daquela moça. Envergonhei-me do ridículo papel que fizera. 

—Se ela amasse alguém!... pensava então. Eu a insultaria na pessoa dele. 

Decorreram dias; em todos eles meu primeiro pensamento, abrindo os olhos, era dessa mulher. Foram maus dias esses, que tiveram suas manhãs de ódio. Enfim, voltou a calma; o rancor se ocultara no coração, como a fera no covil, para espreitar sua vingança. 

Pouco tempo depois, Geraldo, jantando em minha casa, disse-me de repente no meio de uma conversa: 

—Agora me lembro!... Hás de fazer-me um favor, Amaral? —Farei podendo. 

—Mas olha que é segredo. Se disseres uma palavra, está tudo perdido! Mila é capaz de ficar mal comigo; e eu antes quero estar mal com meu pai, do que com ela. 

—Pelo que vejo tua irmã tem parte nisto? —O negócio é dela. Eu te conto. A senhora minha irmã tem a mania de dar esmolas. 

—Ah! Não sabia! —Pois fica sabendo; mas cuidado!... Não dês o menor sinal de que eu te disse semelhante cousa! —Que interesse tenho eu em te comprometer? Podes estar descansado. Mas então, D. Emília é tão caritativa assim? Em uma moça, admira! —Oh! nem tu fazes idéia! Ela tem uma porção de velhas, suas protegidas, que não se saem da porta. E não contentes já de pedirem para si, pedem também para os outros. Desde criança que Mila se acostumou, quando meu pai volta da cidade, a tirar-lhe todo o dinheiro que ele traz solto na algibeira; e meu pai deixa de propósito uma porção de moedinhas de prata, além do que lhe dá sempre que ela pede. Pois quase todo esse dinheiro é filado pelas tais velhas. 

Geraldo suspirou: 

—Que dinheiro tão mal gasto. Podia-me servir ao menos para charutos! —Mas que relação tem isso com o teu pedido? —É verdade! Uma das tais velhas descobriu, ou inventou, o que é mais certo, a história de uma menina que perdeu pai e mãe, e está na miséria, sem parentes que olhem para ela. E de que havia de lembrar-se? De metê-la no recolhimento das órfãs! —Foi uma boa lembrança. —Achas que sim? Melhor, porque és tu quem hás de arranjar isto. 

—Como? Tua irmã?... 

—Ela aprovou muito a idéia, e incumbiu-me de obter a admissão da menina, com um dote, que deve receber quando se casar. Vê que extravagância! Eu tenho lá tempo para cuidar dessas cousas? Mas não há remédio senão fazer-lhe a vontade. Há muitos dias que estou para te falar nisso, e felizmente agora lembrou-me... Tu andas lá, pela Misericórdia, conheces aquela gente... Tive uma inspiração. 

—Pois bem, Geraldo. Fica ao meu cuidado. 

—Prometes então arranjar o negócio? —Dou-te a minha palavra; e quase te posso assegurar que é cousa feita. 

—Muito bem; mas que seja logo! Mila não me deixa, e eu não sei já que desculpas invente! —Amanhã mesmo tratarei disso. Como se chama a menina? —Homem! Se queres que te diga, não sei. Mila deu-me um papel, que eu nem abri. Deve estar no bolso do meu redingote. 

—Pois isso é indispensável, assim como a idade, filiação... 

—Eu vou para casa, e te mando o papel hoje mesmo. 

Esperei até a noite com febril impaciência. Geraldo não cumpriu a promessa; mas no dia seguinte por volta de uma hora ele apareceu. 

—Aqui tens! disse-me tirando da carteira a nota. E adeus. 

—Onde vais já,? Não queres jantar? —Hoje não. Vou jantar ao Jardim; temos lá esta noite um pagodezinho sofrível. 

Ao descer a escada voltou-se: 

—Sim! Eu prometi a Mila que o negócio não passaria desta semana. Vê se me deixas ficar mal! —Vai descansado, respondi-lhe sorrindo. 

(continua...)

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