Por José de Alencar (1860)
Antônio – Não é, não. Mas faltavam-lhe os cobres, senão... Oh! Tanto hei de beber que por fim hei de achar.
Meneses – Achar o quê?
Antônio – Não sabe? Upa!... Pois não sabe?... Eu não bebo porque goste de vinho... Já me enjoa.
Meneses – Por que bebe então?
Antônio – Porque procurôôô... eh! Iô... procuro no fundo da garrafa uma coisa que os velhos chamam virtude, e que não se acha mais nesse mundo.
Pinheiro – Eis um Diógenes!...
Helena – Como te chamas?
Antônio – Que te importa o meu nome? Não tenho dinheiro!
Araújo – (a Luís, baixo) – Luís! Luís! Olha!
Luís – O quê?
Araújo – Este homem.
Luís – Antônio!...
Araújo – Cala-te!
Meneses – Mas então ainda não achou o que procuravas?
Antônio – Hein?...
Meneses – A virtude...
Antônio – Não existe. No fundo da garrafa só acho o sono. Mas é bom o sono. A gente não se lembra...
Vieirinha – Das maroteiras que fez.
Antônio – A gente vive no outro mundo que não é ruim como este. Oh! é bom o vinho!
Vieirinha – Pois tome lá este copo de champagne.
Antônio – Venha! (Provando) Puah!... não presta! É doce como as falas de certa gente; embrulha-me o estômago! Antes a aguardente que queima!
Meneses – Chegue aqui; diga-me o que você procura esquecer. Sofreu alguma desgraça?
Vieirinha – Queres outra história?
Antônio – Qual história? Não sofri nada! Diverti os outros.
Meneses – Mas conte isso mesmo.
Antônio – Não tem que contar... O trabalhador não deve criar sua filha para os moços da moda?
Meneses – Então sua filha...
Antônio – Roubaram e nem ao menos me deram o que ela valia! Velhacos... Os sujeitinhos hoje estão espertos!
Meneses – Pobre homem!
Antônio – Pobre, não! (Bate no bolso) Veja como tine. (Rindo) A mulher está doente, não trabalha; eu durmo todo o dia, não vou mais à loja; porém Margarida tinha uma cruz de ouro com que rezava. Fui eu, e furtei de noite a cruz, como o outro furtou minha filha, e passei-a nos cobres. Cá está o dinheiro; chega para beber dois dias. Estou rico! Viva a alegria! Olá! senhor moço! Ande com isso!... Meia garrafa!...
Helena – (à Carolina) – Vamos para outra sala; não podes ficar aqui. (Erguem-se)
Ribeiro (a José) – Faz já sair este bêbado!
Araújo (a Luís) – Tenho medo do que vai se passar.
Antônio (para Carolina) – Olé! Que peixão! Dê cá este abraço... menina!
Carolina – Meu pai!...(Esconde o rosto)
Antônio – Pai!... Há muito tempo que não ouço esta palavra. Mas quem és tu? Deixa-me ver o teu rosto. Tu pareces bonita. Serás como Carolina? Mas... se não me engano... Sim... Sim... Tu és!
Carolina – Não!
Antônio – Tu és minha filha!
Carolina – É falso!
Antônio – Não foste tu que me falaste há pouco?... aqui... Não me chamaste teu pai?... Carolina!
Carolina – Deixe-me!
Antônio – Vem! Tua mãe me pediu que te levasse.
Carolina – Minha mãe!...
Antônio – Sim, tua mãe... Margarida. Se soubesses... como ela tem chorado...
Minha pobre Margarida!
Carolina – Não sei quem é.
Antônio – Não sabes?
Carolina – Não!
Antônio – Tu não sabes?
Carolina – Meu Deus!
Antônio – Esqueceste até o nome de tua mãe?
Carolina – Esqueci tudo.
Antônio – Oh! tens razão! Tu não és minha filha. Nunca foste... (Precipita-se sobre ela e a obriga a ajoelhar-se. Ribeiro e Pinheiro protegem Carolina, enquanto Luís segura Antônio pelo braço)
Luís – Antônio!
Antônio – Solta-me, Luís!
Meneses – Não a ofenda! É sua filha!
Antônio – Não: já não é.
Meneses – Mas é ainda uma mulher. Deseja puni-la? Respeite essa vida que a levará de lição em lição até o último e terrível desengano. É preciso que um dia a sua própria consciência a acuse perante Deus, sem que possa achar defesa, nem mesmo na cólera severa, mas justa de um pai.
Araújo – Vamos; vamos, Luís.
Antônio – E ela... fica.
Araújo – Nem lhe responde!
Antônio – Pois sim, fica; se algum dia me encontrares no teu caminho, se o teu carro atirar-me lama à cara, se os teus cavalos me pisarem, não me olhes, não me reconheças. Vê o que tu és, que um miserável bêbado, que anda caindo pelas ruas, tem vergonha de passar por teu pai!
Luís – Espera, Antônio! Talvez ainda não esteja tudo perdido. Um último esforço! Abre os braços à tua filha!... Olha! Olha!... Não vês que ela chora?
Carolina – Foram as últimas lágrimas... já secaram!... se tivessem caído neste copo, eu beberia com elas à memória do meu passado.
ATO SEGUNDO (Sala em casa de Helena)
CENA PRIMEIRA (Luís, Araújo e Meneses)
Meneses – Podemos entrar. Nada de cerimônias.
Araújo – Talvez sejamos importunos.
Meneses – Não tenhas receio. Sente-se, Sr. Viana.
Araújo – E o tal Vieirinha?
Meneses– Que tem? (Na porta Helena!
Helena (dentro) – Já Vou, Sr. Meneses.
Meneses – Está no toilette naturalmente. Esperemos um instante.
Araújo – Não
cuidei que se tratasse com tanto luxo! É uma bela casa.
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.