Por José de Alencar (1870)
Excogitou. Havia ali perto, na Rua Sete de Setembro, uma pequena loja de sapateiro, ou antes uma tenda, porque além do balcão via-se apenas uma tosca vidraça, contendo a obra de três oficiais que aí trabalhavam.
A loja pertencia a um mestre fluminense, que trabalhara por algum tempo na casa do Guilherme e do Campàs, e se iniciara portanto em todos os segredos da arte. Ninguém a exercia com mais habilidade, esmero e entusiasmo do que ele; sua obra, quando queria, não tinha que invejar ao produto das melhores fábricas de Paris, se não o excedia na elegância e delicadeza.
A razão cardeal de toda a superioridade humana é sem dúvida a vontade. O poder nasce do querer. Sempre que o homem aplique a veemência e perseverante energia de sua alma a um fim, ele vencerá os obstáculos, e se não atingir o alvo, fará pelo menos coisas admiráveis. Mas para que o homem se entregue assim a uma idéia e se cative a um pensamento, é necessário ser atraído irresistivelmente, ser impelido pelo entusiasmo.
É o entusiasmo que faz o poeta e o artista, o sábio e o guerreiro; é o entusiasmo que faz o homem — idéia diferente do homem-máquina. A fábula de Prometeu' não exprime senão a alegoria desse fogo celeste d'alma, que anima as estátuas de Galatéia, embora depois dilacere o coração como a águia do rochedo. Uma faísca dessa eletricidade moral opera maravilhas iguais à centelha do raio. O que é o telégrafo a par com a eloqüência?
O Matos tinha o entusiasmo de sua arte; descobrira nela segredos e encantos desconhecidos aos mercenários. Para ele o calçado era uma escultura; copiava em seda e couro, assim como o cinzel copia em gesso e mármore. Os outros artistas da forma reproduzem todo o vulto humano ou pelo menos o busto; ele só tinha um assunto, o pé. Mas que importância não tomava a seus olhos esta parte do corpo! Era preciso ouvi-lo, em algum momento de arroubo, para fazer idéia de sua admiração por esse membro da criatura racional.
Depois de trabalhar muitos anos em casas francesas, o mestre fluminense resolveu estabelecer-se por sua conta. Alugou uma pequena loja de duas portas, onde trabalhava com dois oficiais. A necessidade de ganhar o pão o obrigava a tornar-se mercenário, fazendo obra de carregação para vender barato. Mas no meio dessa tarefa ingrata tinha ele suas delícias de artista. Meia dúzia de fregueses, conhecedores da habilidade do sapateiro, preferiam seu calçado ao melhor de Paris, e o pagavam generosamente. Essas raras encomendas, o Matos as executava com enlevo; revia-se em sua obra, verdadeiro primor.
Leopoldo não era um freguês da última classe; ele não conhecia a voluptuosidade de um calçado macio, antes luva do que sapato; seu pé não era um enfant gaté, um benjamim acostumado a essas delícias; desde a infância o habituara a uma vida rude e austera entre a sola rija e o bezerro.
Além de que seus haveres não chegavam para tais prodigalidades.
O moço pertencia à classe dos fregueses da obra de carregação, e preferia a loja do Matos pela modicidade do preço, e boa qualidade do cabedal, como do trabalho.
Que misteriosa associação de idéias trouxera à lembrança de Leopoldo, naquele momento, a tenda do sapateiro? E por que motivo se dirigiu ele para ali onde estivera na véspera, e não para qualquer outro lugar, em que poderia melhor espancar seu dissabor?
O motivo, nem ele mesmo o sabia naquele instante.
— Bom dia! As botinas estão prontas? disse entrando.
O Matos, que atendia a alguns fregueses perto da vidraça, olhou-o surpreso:
— Não disse ontem a V. Sª. que só para o fim da semana?
— É verdade!
— Tinha entre mãos esta encomenda. Mas já acabei; agora posso ajudar os companheiros.
O Matos indicara alguns pares de calçado que estavam no mostrador sobre folhas de papel e prontos a serem embrulhados.
Leopoldo, chegando-se para o balcão, principiou a examinar a obra acabada, com a distraída curiosidade de quem deseja desperdiçar alguns momentos, para escapar a um aborrecimento ou para apressar um prazer. Era trabalho fino do mestre, e contudo não excitaria grande atenção da parte do moço, se não fosse um par de botinas de senhora já usadas e meio encobertas pelo papel com outra obra. A medida era enorme no comprimento e na altura; por isso, como pelo feitio, devia excitar-lhe reparo.
Na véspera quando viera à loja, casualmente observara a obra que o Matos estava acabando. Vendo há pouco na Rua do Ouvidor o pé monstruoso da moça, tivera uma confusa e tênue reminiscência das botinas da loja. Fora esse o fio misterioso que o conduzira insensivelmente àquela casa. Agora compreendia a encadeação: a botina monstro pertencia sem dúvida ao pé aleijão.
Leopoldo depois que entrevira sob a orla do vestido o pé da moça, ainda alimentava uma dúvida, que pretendia cevar com todas as sutilezas e argúcias de seu espírito. Talvez ele visse mal; talvez a sombra, o estribo do carro, qualquer outro objeto o tivesse iludido. O aleijão só existia em sua imaginação; fora um desvario dos sentidos. Com efeito, como supor que uma senhora pudesse andar graciosamente com semelhante pata de elefante?
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.