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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Alma do Lázaro

Por José de Alencar (1873)

Esquecer-me-ia?...

Não! - lembro-me...

Ave, Maria! Ave, estrela, Formosa estrela do mar!

Dá-me novas de meu pai, Que se foi a navegar.

Por esses mares dalém Vai seu brigue a bolinar.

- Leme á orça! Molha a vela!

E deixa o vento soprar.

A borrasca o não assusta:

Não se teme de afrontar;

Mas eu que temo por ela Vivo somente a rezar.

Fio de ti, minha estrela,

Que o protejas sem cessar. Faz que bem cedo ele possa A minha mie abraçar.

Dá-lhe tempo de bonança,

Mares de leite a surcar;

Vento á feição, quanto baste Para depressa chegar.

Ave, Maria! Ave, estrela, Formosa estrela do mar! Cheia de graça tu brilhas A quem te sabe adorar.

Onde aprendeu aquela menina esta oração?... Quem lha ensinou? Por que a diz ela todas as noites?


23 DE MARÇO

Cuidava que não podia haver maior isolamento do que o meu. Iludi-me. Agora é que o isolamento começa.

Luíza parte; seu marido deixa Pernambuco: vai-se a Lisboa.

E a causa sou dessa mudança. O que ainda me restava de família abandona a pátria, para quebrar os laços de sangue que nos prendem. E justo: é generoso também. Deixem-me, a mim só, o desprezo que inspiro. Não o quero partilhar. Basta eu para sofre-lo.

Oh! ainda me resta o orgulho da miséria. E uma dignidade como tantas outras, e um egoísmo, como os há poucos.

Minha irmã negou tudo. Deu-se a tratos para convencer-me que os interesses de seu marido eram a causa única dessa partida.

Pobre Luíza! Mentia.

Que desgraçado ente que eu sou!... Não faço sofrer só aos que me amam; obrigo-os ainda a se rebaixarem.


29 DE MARÇO

Voltava de ver sumir-se no horizonte o navio que levou-me Luíza.

Cheguei a casa. Pela janela aberta olhei o vulto da cidade a colear pela margem do rio, e disse de mim para mim pensando na gente que a habita:

- Estou só!

E me enganava ainda. Mal tinha murmurado aquelas palavras, veio Maria. Falou, o que raro sucedia. Pela primeira vez, cuido eu, disse uma cousa que se entendesse. A repulsão que eu inspiro, foi-lhe raio de luz, na treva espessa de sua alma.

Pediu-me que a vendesse. Não mais quer servir-me... Tem medo do contágio... 

Senhor!... Senhor!... - A Vossa misericórdia é infinita, como a Vossa bondade inexaurível! E não chega para o aflito de mim, nem um óbolo sequer! Vergai-me sob o peso da Vossa cólera, mas dai-me fé e resignação: e eu Vos louvarei, meu Deus, na plenitude da minha dor.

Tenho eu culpa, se me criastes ente de razão? Por que me destes a inteligência? Não a tivera, que esta carne se iria consumindo no roer das úlceras, sem que soltasse uma queixa! Amparai-me, Senhor, amparai-me contra mim mesmo! Tenho medo de descrer!


29 DE MARÇO

Do profundo da minha angústia clamei ao Senhor, Ele me ouviu, e enviou à terra um anjo para ungir-me da sua fé.

Santa cousa é a inocência!... Será que a alma pura e ignorante deste mundo está mais impressa do seio do Criador, e mais próxima de seu berço? Quem pode saber, e quem dizer, se o que chamam razão, não é enfermidade do espirito preso à terra?

Naquela tarde aziaga, que me se parou de Luiza, tomou-me o desespero e levou-me sem tino por essas ruas além. Vaguei, como animal, perdido do dono, e que todos enxotam. A mim, enxotavam-me de mim mesmo ânsias de acabar com tanto penar. Tinha horror à vida.

Ouço alarido: e logo vejo, a correr espavorida pelo caminho, a gente que passava. Ser de mim que fugiam, foi o que primeiro cuidei; mas vinham de meu lado, e nem me viam.

Voltando-me conheci qual a causa era do alvoroço. Um cão espritado que ia duma para outra banda, mordendo quem encontrava.

Bem claro percebi, quanto já não era deste mundo, pois daquilo fugia ele, que eu andava a procurar. Fui-me direito ao animal. Mas até o sabujo me tem asco. Parou bem junto de mim; roçou por mim e foi perto morder um pobre velho, a quem tardo levavam as pernas trôpegas dos anos.

Cheguei-me a ele, de quem já todos com medo se arredavam; e carregando-o nos braços, levei-o para a tenda do ferreiro mais próximo, onde lhe queimei a ferida com ferro em brasa. Mal se aplacou a dor, e soube o velho quem eu era, repeliu-me de si como uma causa vil, e foi-se, sem voltar o rosto.

Quanto horror lhe causei!


1 DE ABRIL

Tornei às Cinco Pontas para ver a casa da menina da Ave-Maria, e ouvi-la cantar a sua oração de todas as noites.

Era lusco-fusco; e não me animei a aproximar da praia com receio de que vendo-me, reconhecesse o miserável que sou e de quem todos fogem.

(continua...)

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