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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Alma do Lázaro

Por José de Alencar (1873)

Mas contra ela, que posso eu senão abater-me no pó, e sumir-se como uma causa hedionda em que não devem pousar jamais os seus meigos olhos?

Que tremendo suplício, mãe! Ter n'alma um afeto grande e imenso; porém nesse afeto uma abjeção maior que ele, uma vergonha que o remorde e o acabrunha!

Para que enviou-me o céu este afeto? Pensava eu, mãe, depois que te partiste, que de mim, deste ente votado ao sofrimento e à desgraça, já não podia sair uma doce efusão, mas somente a paixão cruel e implacável como a lepra que me corrói.


6 DE ABRIL

Sei-lhe o nome!

Foi esta noite. Lá estava ela, no terrado, olhando o mar, onde se escondera a zela branca do navio de seu pai.

Uma voz, era a de sua mãe, soltou o nome de Úrsula. Ergueu-se ela, e caminhou para a casa, dizendo com um modo brando e sossegado:

- Aí vou, mãe.

Úrsula!... Que suave encanto acho eu neste nome, que dantes nunca em. mim despertou a menor atenção. Ouvia-o como um som qualquer; não passava de uma palavra indiferente. Agora canta em minha alma como celeste harmonia, que me inunda todo o ser de júbilo.

Os sussurros da brisa, os murmúrios das ondas, as vozes do céu e da terra repetem para mim o mavioso nome, que me envolve em uma bem-aventurança.

Nos momentos em que a alma exubera e subleva-se com o esto do contentamento ou da mágoa, manam as abundâncias da paixão, em poemas e hinos.

Não careço eu de poesias, nem descantes, para transbordar as santas alegrias que me enchem o coração. Basta dizer baixinho, entre Deus e mim, o nome dela.


10 DE ABRIL

Ainda não tornei do abalo!

Não quisestes ouvir a minha prece! Como a Vossa cólera é implacável, Senhor, que um só instante não se retira deste punhado de limo!

Era-me consolo em meio das tribulações, aquela inocente devoção de adorar de longe entre as sombras da noite, o formoso vulto de Úrsula; e tanto Vos supliquei arredásseis de mim os olhos dela, para não perceber-me no suave enlevo de a contemplar.

E esse consolo me negastes!

Ela reparou na minha insistência, e desde aí não voltou ao terrado, nem lhe vi mais que a sombra, quando canta da janela a sua Ave-Maria.


12 DE ABRIL

Apareceu esta noite.

Como costumava, rezou a sua oração da tarde, e ficou no terrado com os olhos engolfados no horizonte.

Eu que me havia escondido atrás de um coqueiro, para não assustá-la outra vez, como a visse distraída, criei ânimo para chegar-me e vê-la de mais perto.

De repente voltou-se ela e pondo em mim seus olhos, que me deixaram transido e quedo, sem acordo para fugir, quando tudo eu dera para sepultar-me ali na terra, e subtrair-me à sua vista.

Ela, em vez de esquivar-se, como antes fizera, reclinou-se ao balaústre, e começou a desfolhar os botões da roseira, soltando à fresca brisa do mar as pétalas que vinham farfalhar-me no rosto.

Por instantes fiquei sem outro sentido, que não fosse uma delícia como nunca tive, nem cuidei que se pudesse gozar na terra, pois me parecia estar no céu, afagado pelas asas dos serafins do Senhor, a brincarem-me entre os cabelos e a borrifarem-me as faces de angélicos sorrisos.

Eis que no meio desse êxtase de ventura, caí em mim arrojado ao abismo da minha miséria, como Satanás submergido nas trevas pela mão do Sempiterno!

Lembrou-me quem eu era, e o horror de mim mesmo espancou-me daqueles lugares.

Ainda o trago comigo! Ah! mãe, porque não estás aqui a meu lado para reerguer-me desta abjeção em que me sinto. Tua palavra me daria força para exaltar esta alma abatida. Ao calor de teu seio, creio que se havia de regenerar esta natureza pusilânime.


15 DE ABRIL

Vejo-a todas as noites.

Sempre recostada ao balaustre, esfolhando ao vento as rosas fragrantes, entretêm-se nesse brinco inocente até a hora de recolher.

Sabe ela que eu a devoro com os olhos, cá do meu refúgio?

Às vezes receio que se tenha apercebido da minha presença constante naquele sítio; e é quando reclina-se mais no balaústre, e estende o colo, como se procurasse afirmar-se do que entrevira.

Nessas ocasiões coso-me ao tronco do coqueiro, e deixo-me ficar sem movimento pelo resto da noite, até que recolhida ela, me posso esgueirar para casa.


16 DE ABRIL

Meu Deus! Meu Deus! Dai-me força para resistir-me, pois ma destes para sofrer este suplício atroz.

Ela, Úrsula, me conhece!

Esta noite, quando me esquecia a contemplá-la, seguro de mim, vi-a acenar com a mão, como se me chamasse! Duvidei que me pudesse ter descoberto ou sequer pressentido. Mas ela insistiu, e como não lhe obedecesse, enfadou-se.

O que se passou em mim, e qual poder oculto dominou meu ser, que sem vontade, nem consciência, atirou-me de joelhos em face do terrado, com as mãos súplices e a fronte abatida, implorando com paixão para a minha infinda angústia?

Esteve Úrsula algum tempo a olhar-me, entre surpresa e aflita. Mas por fim ajoelhou também, erguendo as mãos ao céu, e eu ouvi o sussurro da sua prece.

Era por mim que rezava?

Não ouso crer. Depois que te partiste, mãe, lá na mansão em que habitas, acaso viste subir a Deus uma súplica, uma só, por este desgraçado?...


20 DE ABRIL

Infame sou eu, que de minha hediondez ousei erguer os olhos para a mais bela das criaturas de Deus.

(continua...)

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