Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Suzana Sairei em breve a informar-me sobre o doutor André. Se ele for honrado e virtuoso, como o acreditas, a velha Suzana tem uma missão a cumprir, protegerá o amor da órfã, o amor de sua filha em nome de Deus.
Corina E meu tutor? E sua esposa?... E Peregrino e Carlos?...
Suzana Falei-te em Deus: como podes temer os homens?... Se o teu amor é puro, os anjos o abençoam; se és vítima de opressão e se a violência te ameaça, levanta os olhos para o céu: tem fé!...
Corina
Esperança e fé, meu Deus!... (de joelhos)
Suzana Reza! A oração é já em si uma graça, porque na oração falamos ao Senhor. Corina, reza à virgem mãe de Jesus que é a protetora e a mãe sagrada das órfãs...
Corina (começando a rezar) Ave Maria!...
Suzana Espera: tenho-te ouvido em suave canto a saudação sublime: reza cantando, mas cantando com fé! Se assim rezares com fé, as harmonias do teu canto serão asas de anjo a levar tua oração ao céu!...
Corina Oh, sim! fé! E com a minha fé, a esperança do meu amor! (senta-se à harmônica e canta — Ave Maria. Suzana, em pé, ergue os braços. (Cai o pano)
—Fim do 2º ato —
Ato 3º
— Espaçosa [sic] sala interior: porta ao fundo, pela qual se apercebe mal outra sala onde se ouve música e se dança: ao lado direito, porta abrindo para um gabinete: portas laterais, brilhantismo de luz: sinais de festim.
Cena 1ª
Peregrino sentado; Carlos que entra
Peregrino Também te aborreceu o jogo de prendas?
Carlos Se Júlia é intolerável!... Há meia hora que sem piedade me martiriza! Não pude mais sofrê-la!
Peregr.
Júlia é apenas uma menina leviana que brinca: hoje há aqui alguém que muito mais nos incomoda: eu sou franco; é o filho do barão... e Teófilo...
Carlos Que queres dizer? Peregr. Veio, entrou-nos em casa com aparência de pretendente de Júlia, e evidentemente é de Corina que ele se ocupa... e ela o atende... e parece encantada...
Carlos Seu proveito... talvez não me tenha sido agradável essa observação que também já fiz... talvez mesmo tenha isso concorrido para impacientar-me; porque eu amo Corina, ouviste?... mas se ela ama Teófilo... que seja feliz.
Peregr.
Eis aí: eu não amo Corina, e todavia não sou tão tolerante. Teófilo me aflige muito.
Carlos Mas... se dizes que não amas... Pereg. Não é dizer que eu não queira casar com ela: o seu dote arranjaria muito a minha vida; confesso.
Carlos Peregrino!
Pereg.
Não ralhes como ralhaste no caso do negócio de escravos: cada qual tem seus princípios. Eu quero Corina para esposa, mesmo sem amor e até muito contra sua vontade: apontar-me-ão nas ruas com reprovação... dirão que sacrifiquei o coração ao ouro; mas sendo rico, serei poderoso, e a sociedade virá em breve lisonjear-me respeitosa.
Carlos Essa teoria é infame!
Pereg.
Dá-lhe o nome que quiseres: faço-te justiça: tu, meu poeta, não quererias ser esposo não sendo amado; hesitarás, mesmo na hipótese de merecer amor, ante a suspeita de vil interesseiro, que em todo o caso despertarias no ânimo dos maliciosos.
Carlos E levantaria ufano esta cabeça de homem honesto...
Pereg.
Cabeça de poeta... pois bem, cada qual com os seus princípios... e daí quem sabe, se não és ainda mais ladino do que eu?... Desejo, aconselho-te que o sejas: se Corina não for minha esposa, estimarei que seja tua.
Carlos Não quero que me imagines com os teus sentimentos: vai comprar e vender homens...
Peregr.
Olha... acabou o jogo de prendas... estão tomando sorvetes... vamos arrefecer o sangue... (vai-se. Carlos passeia agitado)
Cena 2ª
Carlos e Teodora Teod. Por que fugiste da sala? Não devias dar importância aos gracejos de tua irmã.
Carlos Minha mãe, cumpre-me preveni-la de que vou sufocar o amor que sentia ou sinto por Corina.
Teod.
Temos ciúmes? Não sejas criança.
Carlos Juro-lhe que só desposarei Corina, se partir dela manifesta e publicamente a proposição mais livre e positiva.
Teod.
Mas isso é contra todas as regras, seria até indecoroso.
Carlos Ou eu farei a proposição franca e altamente com a condição de passar todo o seu dote para algum estabelecimento de caridade. (em fogo mal contido)
Teod.
Estás delirando... agora não podemos conversar. Vai distrair-te e sossega. (vai-se Carlos)
Cena 3ª
Teodora que se retira, Estefânia e Corina, tomando sorvete
Estef. Roubei por momentos Corina a seus admiradores.
Teod.
Fazes-me ter ciúmes desta menina que parece amar-te mais do que a mim: não me roube de todo o seu coração.(vaise)
Estef. Vê como é hipócrita?... Toma-se, [sic] acautele-se dela! Não atraiçoe o segredo que lhe confiei... diga pelo contrário, queixando-se de mim, que empenhei-me em induzi-la a desposar Carlos... mas, eu lho peço, ouça ao menos por breves momentos a meu sobrinho... prometa-me uma contradança para Fortunato.
Corina
Mas eu já prometi a outro a seguinte... e além
disso...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.