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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Uma vida como essa não podia ser por muito tempo carregada. Eu via Henrique ir definhando pouco a pouco, como um arbusto que vai morrendo com suas folhas já murchas, e suas flores caindo. Tive mil vezes vontade de lançar-me a seus pés, e lhe pedir que vivesse; veio-me mil vezes aos lábios a confissão do amor que lhe votava; mas, bendito seja o amor do homem virtuoso! aquele nobre silêncio do mancebo, aquele santo respeito com que ele me tratava, aquela fidelidade que ele tinha a meu marido, me sustiveram na posição de esposa honesta. Enfim, Henrique teve também medo de si, e fugiu-nos...

– Fugiu?...

– Sim, há três anos; seis meses antes da morte de meu marido, Henrique partiu para França. O que se passou no dia em que ele nos deixou, não posso bem descrever; sei que eu estava só quando Henrique veio despedir-se; sei que nenhum de nós pronunciou uma única palavra que não pudesse ser proferida em alta voz e diante de todos; mas sei também que apesar disso, ele levou a certeza de meu amor, deixou-me a certeza do seu; e lembro-me enfim, que nesse mesmo dia meu pai me pediu de joelhos, de joelhos, Celina, que eu tivesse piedade de meu marido, de seus cansados anos!...

– E agora?...

– Agora, Celina, tu mo perguntas?... exclamou Mariana com novo arrebatamento de prazer. Agora eu o amo como dantes, ou mais ainda; eu quero ser dele; eu o amo, ouviste, eu o amo!

– Compreendo; mas...

– Mas o quê?...

– É que o teu prazer, Mariana, se mostra hoje tão grande como a distância que te separa de Henrique.

– Oh! não! graças a Deus, Celina, ele chegou... desembarcou ontem, e hoje escreveu a meu pai, pedindo licença para visitar-nos. Vê... lê comigo a sua carta.

Mariana tirou do seio um bilhete todo perfumado, e três vezes o leu a Celina.

– Portanto, hoje mesmo devo torná-lo a ver! Ah! Celina, se eu pudesse fazer-

me mil vezes mais bela!... porque eu amo... muito... muito... tanto, que seria capaz de dar a vida por ele, e capaz de matar a mulher que se atrevesse a amá-lo!

A “Bela Órfã”, ingênua, inocente, sem ter jamais experimentado esses sentimentos desabridos e perigosos, que fazem falar com a veemência com que falava Mariana, olhava para esta, atônita e sem se atrever a pronunciar uma só palavra.

E também a viúva aprazia-se daquele silêncio. Quem ama e fala do seu amor, estima não ser interrompido, gosta de discorrer horas inteiras repetindo mesmo o que já disse mil vezes, e começando de novo a história que exatamente acaba de contar.

Finalmente Mariana sentiu que já tinha .o coração mais leve, ergueu-se, e abraçando ainda Celina exclamava:

– Eu sou feliz! imensamente feliz!...

Quando um escravo apareceu à porta da sala, e anunciou o sr. Henrique, Mariana deixou-se cair de novo no sofá; e foi só depois de alguns instantes que disse com voz muito trêmula e comovida:

– Que entre.

Levantou-se a custo para receber o antigo amante.

Era um homem alto e belo; seus olhos pretos lançavam olhares brandos que condiziam perfeitamente com o sorrir meigo e um pouco melancólico de seus lábios. Tudo nele era nobre e sério; tudo nele desafiava simpatia: bem feito, trajando com gosto, mas sem extremar-se em modas; era enfim um belo, homem; um cavalheiro completo.

Entrou perturbado e trêmulo, como estava Mariana.

Depois dos primeiros cumprimentos, disse com visível comoção:

– Cheguei ontem, senhora, e meu primeiro cuidado foi correr a depositar meus respeitos aos pés da viúva do meu melhor amigo.

– Obrigada, senhor, respondeu Mariana a tremer; é muito lisonjeiro para mim, que me coubesse aqui o seu primeiro cuidado. Vejo que se não esqueceu de nós...

– Oh!... nunca!... exclamou o mancebo animando-se.

– E também nós, senhor, nunca!...

Sem se poder explicar a razão, Celina sentou-se por seu turno perturbada, começou a corar muito e conheceu que não podia ficar ali mais tempo.

Aquela cena de amor como que ofendia sua inocência de virgem. Ela ergueuse e disse a Mariana:

– Devo mandar participar a meu avô a visita do senhor?...

– Sim, murmurou a viúva.

Celina deixou a sala.

Henrique e Mariana ficaram a sós por cinco minutos. Mariana não era mais uma senhora casada.

Quando, no fim dos cinco minutos, entrou na sala o avô da “Bela Órfã”, Mariana já sabia que três anos de ausência não tinham podido arrefecer a paixão ardente que lhe votava Henrique.

Era um amor que recomeçava.

CAPÍTULO IV

DIA DE FINADOS

HÁ NO ANO dois dias que são verdadeiramente pomposos na cidade do Rio de Janeiro: o de quinta-feira de Endoenças e o da comemoração dos defuntos.

No primeiro deles adora-se o lenho sagrado, imagem daquele em que no Gólgota foi crucificado o Filho da Rainha das Virgens.

O segundo pertence à religião dos túmulos.

Pois com serem tão grandiosos e sublimes, tão cheios de íntima dor, e de tremenda verdade os pensamentos que presidem esses dois dias, ainda assim há neles sacrilégio e vaidade.

Há o sacrilégio dos homens e a vaidade das mulheres e de quase todos.

Uma multidão de mancebos corre um por um todos os templos na quinta-feira santa, e sem que os intimide nem contriste o aspecto solene das igrejas, o efeito dessas mil luzes que se queimam nos altares, e o profundo silêncio que neles reina; no meio dos poucos a quem um verdadeiro sentimento religioso afasta da terra e aproxima do céu, eles profanam o santuário requestando as mulheres e zombando dos mistérios.

(continua...)

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