Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)
Adriano – Senhora Beatriz, pois que enfim a senhora acaba de fazer ponto, concluindo a oração com um sentido perfeito; aproveito o ensejo para pedir-lhe que vá lá para baixo procurar por mim, e ver se me descobre escondido em algum canto.
Beatriz – Pois não, meu senhor, eu deixo Vossa Senhora em liberdade; (À parte) vou em um pulo dar a notícia ao senhor Pantaleão.
Celestina (À parte, pondo uma caixa de relógio na gaveta) – Ele não me está olhando... aproveitemos o momento.
Beatriz – Se Vossa Senhoria tiver necessidade de mim, basta um simples aceno; estou e estarei sempre pronta a servi-lo com gosto; (A CELESTINA) sua serva... (A ADRIANO) senhor... (A CELESTINA) senhora... (A ADRIANO) senhor... (Vai-se fazendo mil cumprimentos, e sem jamais dar as costas)
CENA V
Adriano e Celestina
Celestina – Eu não posso compreender isto...
Adriano – Consola-te comigo, minha amiga; é um prodígio, é um fenômeno estupendo para quem está no último apuro do infortúnio, como eu: sim... porque tudo o estás vendo, é impossível que eu desça mais abaixo, por quanto estou morando quase em cima do telhado.
Celestina – Fizeste algum presente à senhora Beatriz?
Adriano – Qual! Apesar do meu gênio um pouco extravagante, numa me veio ao pensamento semelhante asneira; mas, enfim, deixemos a minha grotesca criada; dize: como achas o meu novo domicílio?...
Celestina – Excelente.
Adriano – Muito pequeno, não é isso?...
Celestina – Não vejo razão para que te estejas lastimando (Canta)
No rico palácio
De outro fulgente
Nem sempre o vivente
Encontra o prazer.
As vezes num rancho
De palha formado
Se vê, como o fado
Dá grato viver.
Ah, sim, que se goza
O néctar mais puro,
Se no rancho escuro
Dois podem caber.
Adriano – É assim, certamente que é assim; mas sempre com a condição de caberem dois no tal ranchinho; e este é o meu rancho... e se algumas economias me fossem possíveis, eu daria aqui mesmo um lugar a ti, como minha legítima mulher.
Celestina – Isso é verdade, Adriano?... bem verdade?... Ah! tu não compreendes como esse pensamento é doce para o meu coração!
Adriano – Não tenho te dito já, Celestina, que logo que as circunstâncias o permitam...
Felisberto (Dentro) – Mais acima?... obrigado.
Adriano – Ainda este maçante alfaiate!...
Celestina – Eu me retiro...
Adriano – Não, pelo contrário, demora-te: talvez que a tua vista lhe diminua a ferocidade; ah! que demônios seriam os que inventaram os credores!!! Celestina – Sem dúvida, Adriano, foram os devedores. CENA VIFelisberto, Adriano e CelestinaFelisberto – Dá licença?...
Adriano – Oh! Pois não! (À parte) Entra, diabo.
Felisberto – Eu estou desesperado por me ver obrigado a parecer importuno!
Adriano (À parte) – Mais desesperado do que eu não está, certamente ele.
Felisberto – Passando por acaso por diante desta casa...
Adriano (À parte) – Os credores passam sempre casualmente por defronte da porta dos devedores.
Felisberto – Meu caro amigo, ontem eu fui por demais apressado... não estava em mim... um negócio importante me preocupava tanto, que o deixei de repente e sem lhe tomar medida, ao acordar hoje, lembrei-me do meu bom amigo, como sempre me acontece, porque realmente e lhe tributo verdadeira estima; lembrei-me, pois, e disse comigo mesmo: o meu caro Adriano precisa de minha tesoura e... eis-me aqui... (Desdobrando a medida)
Adriano (À parte) – Ora esta agora ainda é melhor!... eu estou no mundo da lua!...
(A FELISBERTO) Então o senhor diz...
Felisberto – Vestido preto, completo, não é assim?...
Adriano – Senhor Felisberto... então eu... e o senhor... sim... o senhor e eu... como ontem... era ontem... e hoje... (À parte) Eu não sei mesmo o que lhe hei de dizer...
isto é uma charada indecifrável.
Felisberto – Mas o que pretende fazer-me entender?...
Adriano – Eu?... pois se exatamente sou eu, que não entendo nada, homem! Felisberto (À parte) Ainda não sabe... tanto melhor; isto me fará honra... (A
ADRIANO) Nada há mais inteligível; quero tomar-lhe medida.
Adriano – Contudo, ontem o senho negou-se a isso, e creio mesmo, que chegou a ameaçar-me.
Felisberto – Eu?... eu?... como?... o senhor me confunde com outro: eu ameaçar ao meu maior amigo?... a aquele, em cuja defesa eu me deixaria fazer em postas, morreria até, exclamando no momento de morrer – oh! Glória! Morro por um amigo! – amicus est alter ego!!!
Adriano (À parte) – Começo a me persuadir que estou com o juízo virado! Quem sabe se ainda me dura a mona de ontem?... porque é impossível, eu juro, que tudo isto que acontece esteja realmente acontecendo.
Celestina (À parte) – Aqui há mistério, seja ele qual for.
Felisberto – Nós dizíamos, pois – vestido preto...
Adriano – Nada: a roupa preta é muito cara, e estraga-se muito depressa; antes quero azul.
Felisberto – Por
conseqüência, preta e azul; a azul em verdade tem seu lugar; atualmente, porém,
o senhor Adriano há de precisar de preta.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O Primo da Califórnia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16670 . Acesso em: 6 jan. 2026.