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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Sim... sim... porém, eu disse isso somente para acender algum ciumezinho no coração do meu Venâncio... bem sabe que o ciúme é o adubo do amor... eu por mim sou ciumenta como o mouro de Veneza.

— Bravo, minha mãe!... bravo!... exclamou o interessante Manduca.

— Cala-te, Manuelzinho, diz Tomásia, não é bonito interromperes tua mãe.

— Apesar de toda a sua modéstia, tornou Brás-mimoso, eu juro pelos olhos da Sr.ª D.

Rosa que não é de um ciúme; porém, de uma conquista de que se tratava no teatro.

— Muito bem! disse Rosa, então jura pelos meus olhos?...

— Pois não, minha senhora, sempre se jura por algum objeto sagrado.

— Ora...

— Deixemos isso, acudiu Tomásia, mas já que o Sr. Brás levantou a ponta do véu, é melhor que o rasguemos todo.

— Minha mãe, disse Rosa em segredo, olhe meu primo...

— Que tem?... ouça, meu sobrinho, Rosa tem medo que se fale em sua presença... dir-seia que tu e ele são dois apaixonados.

— Aparências, minha tia, aparências...

— Também o que se vai dizer não é mais que um desses casos de todos os dias... — Um desses casos que sucedem a minha prima todos os dias?... perguntou o tal primo

Félix.

— Há de ser pouco mais ou menos isso, respondeu a moça ressentida.

— Estavam ontem à noite num camarote, disse Tomásia dirigindo-se a Brás-mimoso, duas senhoras; uma casada, e outra solteira; um moço, que se achava na superior, gastou a noite inteira em prestar-lhe a mais obsequiosa atenção; esse moço trajava-se elegantemente; trazia um rico relógio, um excelente alfinete de brilhantes, gravata azul-celeste, luvas de pelica cor-decarne, enfim, vestia com o último apuro do bom gosto. Daqui tiram-se três conclusões: primeira — o moço gostou de uma das senhoras; segunda — o moço parece não ser pobre; terceira — o moço é adepto ao culto do bom gosto.

— Eu tenho reparado, disse o primo Félix, que minha tia é lógica até à ponta dos cabelos; a prima Rosinha deverá aproveitar muito, pois mostra grande capacidade.

— Ora, prosseguiu Tomásia, o casamento é o negócio da mulher; casar é ganhar sempre; mas casar bem é ganhar trezentos por cento; pois se a senhora casada, que estava nesse camarote, podia logo esquecer o moço ao voltar-lhe as costas, não sucede o mesmo à moça solteira; provavelmente ela desejará saber qual é o estado desse homem: se é casado, passe muito bem; mas, se está livre, não se perde nada em trazê-lo para perto... estudá-lo... observá-lo, e, se for conveniente, deitar o anzol no mar, a ver se cai o peixinho.

— Agora, minha tia, esperamos pelas conseqüências.

— A conseqüência é esta: o Sr. Brás, que é amigo da família, e que se não o fora, não me ouviria falar com tanta liberdade, conhece esse moço; dir-nos-á se é solteiro ou casado, e há de fazer-nos o obséquio de oferecer-lhe um convite para assistir ao sarau que tencionamos dar no dia do batizado de minha filha.

— Pois, minha senhora, disse Brás-mimoso, pode contar com o moço da gravata azulceleste, que é sem mais nem menos o meu amigo Otávio.

— Otávio!... exclamou Félix.

— Também o conheces?...

— Perfeitamente.

— Então, podes dizer-nos...

— Sem dúvida, tudo quanto minha tia quiser; bem entendido, se o Sr. Brás der licença, e minha prima Rosa se ameigar um pouco.

— Pois anda, sobrinho, dize-nos o que sabes.

— Sei que o Sr. Otávio vai completar trinta anos.

— Pois quê! é quase da minha idade?... perguntou Tomásia, não deixando passar aquele ensejo de caçoar com o tempo.

— Pouco mais ou menos, prosseguiu Félix rindo-se; vai, como disse, fazer trinta anos, posto que mais novo pareça; é rapaz de ótimas qualidades, de muito bom gosto, e, ainda mais, negociante rico.

— Mas como é possível que nós não o conhecêssemos?... eu então, eu que conheço todos os homens solteiros e ricos, desde que a minha Rosinha completou quatorze anos, como? como me escapou este?...

— Facilmente, minha tia; Otávio era, ainda há cinco anos, guarda-livros de seu pai; não tinha licença para freqüentar nem saraus, nem assembléias; não contava amigos, eu era o único que o podia visitar e ser por ele visitado; há cinco anos morreu-lhe o pai, e depois...

— E depois?...

— Teve de embarcar para arranjar certos negócios... enfim, para facilitar o comércio de certas fazendas, que não pagam direito na alfândega, porque desembarcam em praias desertas, e...

— Entendo... entendo...

— Tem sido por isso obrigado a repetir a miúdo as suas viagens, e apenas chegou ontem; eis o que lhe posso dizer, minha tia; o resto pertence à prima Rosinha.

— Vamos lá...

— Prima, Otávio é solteiro... bonito... bem-feito... rico... sensível... e provavelmente não poderá resistir aos seus olhos pretos.

— Otimamente! disse Tomásia, será um convite de conseqüências!

— Mas espere, minha tia! continuou Félix, posto que devamos contar muito com o poder dos olhos da prima Rosa, contudo...

— Contudo o quê?...

— Quem é a madrinha da menina?...

— Pois não disse já que era D. Lucrécia?!...

Félix soltou uma risada.

— De que te ris, Félix?

— De uma coincidência, minha tia.

— E qual?...

— Paciência, prima Rosa; mas a madrinha de sua mana é há dois dias a dama dos pensamentos de Otávio. — É possível?...

— Tão possível como a minha prima tirar-lhe o lance.

(continua...)

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