Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Filipa — Por que então não esperamos pelo resultado desse golpe?
Fabiana — Porque era possível que o irmão se lembrasse de pagar-lhe as dívidas.
Frederico — Como Vossa Excelência calcula e planeja bem!...
Fabiana — É um cálculo que dura há vinte e cinco anos! É uma dívida que tenho de remir e de pagar com usura; não me peça explicações que não as darei; aborreço Maurício e sua mulher e vingo-me em sua filha: se lhe vai aproveitar o meu ódio, tanto melhor.
Frederico — Mas o comendador Pereira...
Fabiana — Ontem em casa de Maurício, e aqui mesmo ainda há pouco, disse-lhe tudo quanto convinha dizer-lhe: mas o comendador é um estúpido e não me compreendeu; ou está pronto a sacrificar até mesmo alguns contos de réis por amor de Leonina. Embora! O nosso plano é infalível! Aproveitando a confusão do baile de máscaras, na chácara de Maurício, às duas horas depois da meia-noite levarei Dona Leonina para o caramanchão que fica junto da rua; o senhor aparecerá então; doulhe minha palavra de honra que a vítima do rapto não poderá soltar um grito, e a carruagem que deve estar perto o levará com ela para onde lhe parecer.
Filipa — E depois, minha mãe?
Fabiana — Até aí a desonra, e logo depois em seguida virá a miséria. É a vingança; é a parte que me toca. Depois um casamento inevitável dará ao senhor Frederico direitos à herança do tio e padrinho da noiva; e tu, Filipa, com uma rival de menos, contarás uma probabilidade de mais para conquistar o comendador.
Frederico — Tudo bem calculado, quem ganha mais no negócio, sou eu; uma bela moça...uma grande herança em perspectiva...(A Fabiana) Minha senhora, Vossa Excelência é um anjo!
Fabiana — Anjo ou demônio, pouco importa, contanto que eu consiga o meu fim. Dê-me o seu braço senhor Frederico; tu, Filipa, insinua-te no espírito do comendador, e trata de fazer acreditar que o coronel Reinaldo ama com ardor a Dona Leonina: precisamos de um homem, sobre quem recaiam as primeiras suspeitas imediatamente depois do desaparecimento de Leonina. Até logo. (Vão-se)
CENA VII
Filipa e logo Henrique, que tem estado oculto.
Filipa — Pois as cartas deste jogo serão por mim baralhadas. Ver Leonina mulher de Frederico que é moço, elegante e belo!... oh! não, não! Muitas e até eu ainda mesmo casada com o comendador lhe invejaríamos a sorte: esse casamento o salvá-la-ia da desonra; perca-se, portanto, ou pelo menos veja manchada a sua reputação, e fique solteira. Um rapto que se malogra no momento de executar-se, é de sobra para desacreditar a mulher que se encontra nos braços do raptor...Sim...é isso que deve acontecer; e para que aconteça só me falta um homem...um homem dedicado que eu hei de achar...um homem...que a minha boa fortuna há de mostrarme...
Henrique — Ei-lo aqui, senhora!
Filipa — Oh!...o senhor Henrique!
Henrique — Não percamos tempo nem palavras. Ouvi tudo...eu estava ali...ouvi tudo. Estou no domínio do segredo de sua mãe e do seu; poderia destruir os seus projetos; quero porém ser cúmplice neles: sabe que tenho sido profundamente ofendido e que devo estar sequioso de vingança. Eu sou o homem de que precisa. Aceita-me?...
Filipa — Farei chegar às suas mãos um convite para o baile de máscaras do senhor
Maurício. O senhor procederá de modo que não comprometa minha mãe, e ao arrancar leonina dos braços do seu raptor, provocará com seus gritos o concurso de testemunhas.
Henrique — Fá-lo-ei melhor do que calcula, minha senhora!
Filipa — A vingança aproximou-nos: unir-nos-á a cumplicidade. Adeus, senhor, até a noite do baile!...
Henrique — Até a noite do baile!...
Filipa (Indo-se) — Oh!...agora estou segura. (Vai-se)
Henrique — Baralhaste demais as cartas do vosso jogo, minha senhora! A partida não será vossa, e menos de vossa mãe: a partida será minha! (Vai-se)
CENA VIII
O Comendador Pereira.
Pereira — O senhor Maurício anda mal de fortuna; isso é tão positivo que ainda há quatro dias descontei com dez por cento esta letra de três contos réis, assinada por ele; não é boa firma, não; mas tem uma filha que vale cem contos com os olhos fechados. Nada tenho com as dívidas do pai; o que eu quero é a filha, e há de ser minha. Segundo ouvi há pouco, ela vem esperar aqui Dona Hortênsia, e eu não hei de perder este ensejo. Vou oferecer-lhe a decantada rosa (Tira-a do seio); mas há de ser uma fineza toda especial. Dona Fabiana assegura que a menina é muito interesseira; pois então, apresentar-lhe-ei a rosa em um cartuchinho feito com a letra de três contos de réis.(Prepara o cartucho). Aposto que o cartucho produzirá mais efeito do que a rosa? Dona Leonina não terá de envergonhar-se, porque o presente será recebido em particular, e, além disso, não posso admitir que o dinheiro envergonhe a pessoa alguma. Ei-la aí.
CENA IX
O Comendador Pereira e Leonina.
Leonina —
Esperava encontrar aqui minha mãe.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.