Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

A filha de Anacleto, lindo anjinho na infância, encantadora moça depois, bela senhora ainda então, cheia de graças e de espírito, havia sido criada sempre no meio de uma atmosfera de fatais lisonjas. Respirou um ar de mentiras desde o princípio. Com esse ar habituaram-se os seus pulmões; a verdade que fosse um pouco menos lisonjeira seria capaz de sufocá-la. Objeto de um amor extremoso e cego da parte de seus parentes; objeto de culto e de adoração dos estranhos, Mariana julgou-se a princesa da formosura, empunhou orgulhosa o cetro da beleza; ergueu a cabeça acima de todas as suas contemporâneas, e, cheia de vaidade, queria fitos em si todos os olhos, absortos diante dela todos os homens, e curvos a seus pés todos os amores.

Perder essa posição seria morrer.

Mas ela amou. Amou, e foi fraca. Amou, e um dia viu que o seu trono ia ser despedaçado; que o cetro ia escapar de suas mãos; que os cultos e as adorações tinham de desaparecer para ela; que ao muito ela seria daí por diante objeto de comiseração e piedade; porque enfim, ela tinha amado e sido fraca; tinha murchado em seu rosto a mais bela das flores, a flor da inocência, e a natureza falava em voz alta dentro de seu seio...

A mísera lembrou-se então desse mundo encantador que a adorava como rainha, e que bem depressa se ergueria rebelado e furioso para arrancar-lhe o cetro de rosas...

Que partido havia a tomar?

Um meio lhe sugeria o espírito; um meio que a livrava das humilhações. Era um meio extremo... e desesperado; era o suicídio. Mas o mundo se mostrava a seus olhos tão belo... tão feiticeiro!... e ela tinha apenas quinze anos de idade!... qual é a moça de quinze anos que não ama loucamente um mundo que sorri de joelhos a seus pés? morrer, não. Aos quinze anos Mariana não se achou com bastante força para matar-se.

Que outro partido restava?... A resignação.

Ainda há pouco, tinha falado o amor do mundo para repelir a idéia da morte. Agora, contra a idéia da resignação, ergueu-se o amor de si mesma levado a excesso; ergueu-se a vaidade. Resignar-se a quê?... a passar de rainha a vassala?... não ganhar nunca mais um só desses olhares ardentes e puros que corações anelantes dardejam sobre o rosto da inocência?... resignar-se-ia, quando passasse pálida e dolorosa, ouvir dizer – coitada! – quando ela estava acostumada a escutar – formosa!... oh! era muito para Mariana. A mulher vaidosa escolheria antes a morte que a resignação.

E com efeito, a filha de Anacleto não se quis resignar ao triste papel que lhe marcavam as conseqüências do seu erro. Primeiro esperou que o homem que a iludira a salvasse; quando não pôde mais esperar nada desse homem, esperou do tempo... ela mesma não sabia o quê; mas esperava sempre.

Quando porém o tempo correu tanto que tinha já corrido bastante... Mariana despertou assombrada ante o espectro sinistro de uma desgraça iminente.

Falou outra vez a morte... falou outra vez a vaidade... a resignação ficou sempre vencida. As paixões triunfaram sempre.

A mísera teve um dia de desespero, de febre... um dos mais fatais demônios que tentam perder o coração humano, a vaidade, soprou um pensamento horroroso... abominável na alma da desgraçada mulher; esse pensamento era uma infâmia... era um crime... mas realizou-se.

Foi um infanticídio.

----------------------------------------------------------------------------------------------

Mariana era sempre rainha.

O segredo de sua honra tinha escapado aos olhos do mundo. Os homens não podiam julgá-la criminosa...

Mas o olhar de Deus estava sobre ela terrível e severo.

Mas a lei eterna da Onipotência se estava cumprindo à risca. A delinqüente se punia a si mesma; a mãe desnaturada era o algoz de si própria.

Mariana tinha remorsos.

No movimento belo, encantado, estrepitoso de um baile, quando tudo era prazer, perfumes e flores; ao som dos instrumentos, que executavam a música viva de uma valsa; ao som das doces lisonjas que dez cavalheiros murmuravam a seus ouvidos, Mariana via a imagem de uma criança recém-nascida, que jazia morta no meio da sala. Ouvia a natureza exalando um gemido pungente... e ouvia maldições e pragas, que mil bocas invisíveis estavam proferindo contra ela...

Depois vinha um menino louro, travesso e belo brincar a seu lado... então ela se lembrava!... e essa lembrança era terrível; era um punhal de lâmina envenenada... era o castigo de Deus.

A sua vida foi sempre assim, sempre triste e fria dentro do coração, embora os lábios sorrissem obedecendo ainda à vaidade, que os mandava sorrir. Era uma vida partida em duas bem distintas uma da outra: uma, a vida exterior, que era a mentira, que lhe brincava no rosto; outra, a vida interior, que era a verdade, que lhe roía o coração. Resumidas e combinadas ambas essas vidas, davam em resultado a pior de todas: a vida de desgosto de si mesma.

Ao menos, porém, estava no meio de tudo isso, triunfando, a sua vaidade.

Ela era sempre rainha.

Mas uma noite... em uma dessas noites de festa, de ardor, de prazeres fugitivos, um mancebo se apresentou junto dela, deu-lhe o braço, e aproveitando um passeio, pronunciou a seus ouvidos duas palavras somente.

O terrível mancebo sabia tudo!...

A rainha caiu do seu trono... uma palavra só daquele mancebo a podia tornar objeto de sarcasmos e de maldições...

E a vaidade ainda triunfou. Mariana ainda se não quis resignar; e para continuar a ser incensada naquele mundo, que era tudo para ela, sujeitou-se a representar daí por diante o triste papel de escrava de Salustiano.

O resultado de tudo isto já não se ignora. Mariana estava sofrendo também o castigo de seu crime, imposto pelo poder de um homem.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...107108109110111...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →