Por José de Alencar (1875)
— Tenho-o como certo. Aquela carta é uma ordem, ou como diríamos em linguagem forense, um mandado cominatório para o capitão Marcos Antônio Fragoso comparecer incontinenti na oiticica a fim de receber-se em matrimônio com a sr. D. Flor Pires Campelo, sob pena de, não o fazendo, ser tido e havido por desleal, indigno, etc.
— Boa maneira de sair-se da entalação! observou João Correia.
— Assim fica parecendo que é êle quem obriga o primo Marcos Fragoso a casar, e não ao contrário; mas, como chegamos ao mesmo fim por êste ou aquele modo, que mal nos faz o velho rabugento?
— Eu é que não o admitia, se fosse comigo, exclamou Daniel Ferro.
— Em verdade êsse desfecho não me parece muito conforme, primo Ourém, disse Fragoso, abalado pela opinião de seu parente de Inhamuns.
— Não nos venha cá embrulhar o caso, com as suas arrancadas de touro bravo, Daniel Ferro; isto não é vaquejada; trata-se de caça mais fina. E você, primo Fragoso, lembre-se que no fim de contas o capitão-mór Campelo é seu futuro sogro.
Nesse momento o Nicácio que ainda vinha a uns cincoenta passos de distância, fincou no chão uma vara que trazia, e tornou atrás, deixando a carta pegada na ponta da estaca.
Marcos Fragoso e Daniel Ferro trocaram entre si um olhar significativo; e voltaram-se à uma para o licenciado de quem esperavam a explicação de tão singular procedimento.
O Ourém, um tanto enfiado com aquele excesso de prudência, que por certo não indicava mensagem pacífica e amistosa, adiantou-se ao encontro do João Correia, que tinha ido em busca da carta.
— Então, primo Ourém, é assim que se usa intimar os mandados lá no su fôro? disse Fragoso em tom de mofa.
— Vamos a ver! respondeu o licenciado, abrindo a carta que lhe entregara o joão Correia.
Os quatro amigos leram a um tempo estas poucas palavras escritas em bastardo no meio da fôlha de papel:
«O CAPITÃO-MÓR DE QUIXERAMOBIM, GONÇALO PIRES CAMPELO, VAI MOSTRAR, AO NASCER DO SOL, O CASO QUE FAZ DAS AMEAÇAS DE UM BANDOLEIRO ATREVIDO».
Não se tinha dissipado ainda o pasmo produzido por êste repto insolente, quando o sino da capela começou a tanger uns repiques festivos.
Todos os olhares voltaram-se para a casa; e fitaram-se atônitos na cena que alí se desdobrava naquele instante.
XX – O casamento
O primeiro golpe de luz, jorrando do oriente, foi bater de chapa na frente da casa. Tinha nascido o sol.
No patamar, acabava de assomar o vulto majestoso do capitão-mór Campelo, que trajava a sua farda de veludo escarlate com recamos e galões dourados.
Os calções eram, como a véstia, de gorgorão branco entretecido de prata; e os coturnos do mais fino cordovão, tinham no salto vermelho a espora de ouro, e na pala do rosto uma fivela de pedrarias.
Ao lado pendia-lhe do talim bordado a espada com bainha também de ouro e copos cravejados de diamantes, como o argolão que prendia-lhe ao pescoço a volta de fina cambrais, cujas pontas caíam sôbre os folhos estofados da camisa.
O chapéu de feltro, armado como então usava-se, com a aba da frente apresilhada e um respeitável rabicho com laçada de fita amarela completavam o trajo de cerimônia do capitão-mór.
Com êle saíra D. Genoveva, também vestida de gala, com uma roupa mui rica de veludo azul, alcachofrada de ouro, e coberta de gemas preciosas desde o pente do toucado até os sapatos de setim.
Colocaram-se ambos, marido e mulher, de um e outro lado da porta, um tanto voltados para dentro como esperando alguém que devia passar.
Apareceu então D. Flor.
A donzela vinha radiante de formosura e graça. Debuxava-lhe o talhe airoso um vestido de lhama de ouro, justo e de estreita roda como usam-se agora à moda daquele tempo.
Uma petrina de setim azul recamada de rubís como uma faixa de céu estrelado, cerrava-lhe a mimosa cintura, e recortando-se em coração, debuxava um colo do mais perfeito cinzel. Eram dessa mesma teia celeste os chapins em que se engastavam as jóias de dois pés de sílfide.
A túnica de veludo carmesim, atufando-se em dois elegantes falbalás, formava a cauda que a gentil donzela arrastava com o altivo garbo de uma rainha.
O toucado alto, composto de crespos que borbulhavam uns sôbre outros como as ondas de uma cascata, era coroado por um diadema de brilhantes, que cintilavam aos raios do sol nascente, sôbre aquela fronte senhoril, como se a aurora brilhasse da terra para o céu.
Preso por um airão de ouro, o longo véu de alva e finíssima renda de escócia, todo semeado de raminhos de alecrim e flor de laranja, com lizes de ouro, descia-lhe até os pés, e arfando às auras matutinas, formava-lhe uma nuvem diáfana.
Pousava a mão calçada com luva de sêda branca no braço de Leandro Barbalho, também trajado com apuro e riqueza e pelo mesmo teor do capitão-mór com a diferença de trazer a casaca de setim verde de Macau.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.