Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
A inocência é sempre bela, sempre pura, sempre anjo aos olhos de Deus, que vê tudo, que vê o bem e o mal. A inocência espezinhada pelos homens, ou com nobreza os despreza, ou chora doída de suas injustiças; mas seu coração se volta para o céu, e suas esperanças voam para a eternidade. Lá em cima o juízo dos homens é nada.
A inocência é a virgem encantadora amada por Deus. Ele lhe paga cada lágrima com um triunfo. A glória que a espera é tanto mais subida quanto mais doloroso foi o seu martírio cá embaixo.
E o crime?...
O crime é sempre duas vezes formidavelmente castigado, sem contar com as penas e tormentos a que o podem condenar os homens.
É castigado uma vez cá em baixo, e outras lá em cima. A sentença não tem apelação, nem na terra nem na eternidade; porque quem sentencia é o juízo seguro, justo e severo de Deus.
Os castigos inventados pelos homens são nada. A que se reduzem esses castigos?... aos tormentos físicos, à dor. Tornam-se ineficazes, ou por momentâneos, ou porque o hábito de os sofrer os nulifica.
O que é a forca ou a guilhotina?... Uma hora de terror, e um momento de dor. O que e a prisão com trabalhos?... Perguntai aos galés se no fim de um ano lhes pesam os ferros como no primeiro dia; se no fim de dez anos os seus sofrimentos são os do primeiro ano?...
E depois, contra a polícia e vigilância dos homens tem o crime os ermos e as noites; e tem mil vezes, para vergonha da humanidade, uma proteção escandalosa, que o torna impune, embora em casos tais essa proteção deva ser considerada um outro crime... igual talvez ao primeiro.
Mas, graças a Deus, aí está sobre os homens, vigilante sempre, o olhar luminoso da Providência.
Não há ermos para esse olhar; os bosques sombrios, as cavernas, as altas penedias aparecem diante dele lisos todos como a superfície de um quieto lago.
Não há noite, não há trevas, não há mistério: esse olhar é o sol
Não há proteção possível; perante o alto juízo, quem protege um delinqüente é o delinqüente mesmo com o arrependimento sincero e profundo; com a prática de nobres e puras ações.
E esse juiz severo e justo castiga duas vezes. Cá... e lá. E os tormentos não são destinados ao corpo. O pó fica desprezado, quem sofre é a alma.
O juiz severo, justo e onipotente castiga lá... Em sua infinita sabedoria – ele sabe como. – Nós, míseros insetos diante dele, não podemos compreender esse castigar da onipotência.
E cá, ele criou na alma do homem a consciência. A consciência é terrível!... a sabedoria de Deus fez cada homem juiz de si mesmo, e cada criminoso algoz de si próprio.
A consciência castiga com os remorsos. O corpo continua sempre desprezado. Os tormentos são ainda e sempre votados ao princípio que peca.
O ladrão não dorme o sono que regenera as forças; dorme um sono que fatiga; porque ele desperta cem vezes ouvindo o tinir do ouro que roubou, e outras tantas vezes vendo diante de si a imagem do carrasco.
O assassino ainda mais. Esse homem que, mercê da noite e da solidão, matou impunemente o seu semelhante, que enterrou seu cadáver às escondidas no deserto, e que vos parece viver sossegado e impune porque a justiça humana ignora o seu crime; esse homem... sofre mais do que sofreu sua vítima no momento terrível, em que viu erguido sobre o seu peito o punhal mortífico. Esse homem vela sempre... de dia e de noite um fantasma o persegue e maldiz; sua sombra tornou-se um espectro. Ele vê a cada passo a sepultura que abriu; vê o cadáver que enterrou; escuta o som do soquete com que calcou a terra... E vê erguendo-se da cova vingativo e formidável o esqueleto do morto.
Sabes quem é o pintor que prepara esse quadro formidável?... É a imaginação escravizada pelos remorsos. Os remorsos não são outra coisa mais do que o castigo que Deus impõe ao crime aqui na terra.
A infinita sabedoria de Deus quis que o homem se punisse a si mesmo; e o homem, com efeito, a si próprio se atormenta com esse aparelho de horríveis torturas, a que se dá o nome de remorsos.
A desgraçada filha de Anacleto estava sendo a prova viva desta verdade eterna.
Mariana era uma mulher enormemente criminosa. Não tinha ainda comparecido como ré diante de nenhum tribunal da terra; mas o castigo de Deus torturava a mísera.
Tinha remorsos.
Como havia essa mulher sido levada à perpetração de um crime horroroso? Ela, filha de um homem bom, irmã de um homem virtuoso, tendo diante dos olhos constantes exemplos de piedade e religião?... Como?... Ah! não precisais ir pedir uma resposta ao péssimo da natureza humana, com que erradamente pretendeis explicar os efeitos das paixões que não foram combatidos desde o berço.
Quereis saber por que Mariana ousou tanto?... Perguntai à vaidade.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.