Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Ah! é porque tu não sabes o que é ser pai, Mariana; é porque ignoras que não há punhal que rasgue mais dolorosamente as entranhas de um pai do que as lágrimas de uma querida filha!... Fala, meu anjo, fala, meu amor, fala, minha filha!... Por que choras?... Tens porventura cometido uma falta?... A alma de teu pai é grande para te perdoar!... Ofenderam-te?... Fala, e meu trêmulo braço readquirirá as perdidas forças para vingar-te... O que tens? Vê que o teu silêncio faz mal a ti mesma... Lembra-te que esse mistério em que envolves a tua dor pode dar lugar a que alguém suspeite...
Com a rapidez do relâmpago desapareceram todos os sinais de dor ou de enternecimento, que em Mariana acabavam de mostrar-se. Tinha despertado a vaidade... a mentira.
A viúva ergueu-se.
– Então, minha filha?
– Nada sofro, meu pai.
– Mas que contradição é essa?... Chego e acho-te risonha; dou graças a Deus pelo teu contentamento, e cais a meus pés desfazendo-te em pranto; chorando também por minha vez, peço-te que fales; e tu te ergues altiva, com os olhos enxutos, e me dizes que nada sofres?! Como explicas isto?
A viúva pensou um momento, e depois respondeu tão sossegadamente como se fora a própria verdade que nos seus lábios falasse:
– Meu pai, disse ela, tenho-lhe causado imensos pesares...
– Não nos lembremos das dores passadas. O que eu quero saber é simples: o que te atormenta hoje?
– Remorsos.
– Remorsos?! exclamou Anacleto.
– Sim, meu pai; remorsos dos desgostos que lhe tenho causado.
O velho fitou por alguns instantes os olhos no rosto de sua filha; depois, sacudindo tristemente a cabeça, disse:
– Não é isso.
– Oh! é isso, meu pai, é isso mesmo. Fui desde criança uma louca, cheia de presunção e vaidade, a mais pequena contrariedade ofendia meu orgulho; um homem que deixasse de queimar incenso a meus pés me levava ao desespero; e depois, envergonhada de meus sentimentos, de minhas puerilidades, eu escondia a causa de minhas penas a meu pai, que chorava julgando-me desgraçada, quando eu era somente uma pobre louca.
– E mais nada? perguntou Anacleto.
– Muito mais, meu pai, muito mais; porém tudo se reduz pouco mais ou menos a isso.
– E ultimamente?
– Ultimamente eu era, eu sou louca como dantes; eu sou criança ainda hoje, meu pai.
E com um sorrir gracioso Mariana continuou:
– Devo confessá-lo?... pois bem: eu sou ciumenta, meu pai, perdidamente ciumenta. Estou para casar-me, e se Henrique olha duas vezes para uma senhora, faz-me estar triste um dia inteiro; se conversa com prazer com outra, sou capaz de chorar duas horas. Eu não disse já que era louca?
– E mais nada? perguntou Anacleto de novo.
– Pois o que mais, meu pai?
– Minha filha, tu não queres ainda confiar-me os teus pesares; não tens piedade deste pobre velho, que tanto te ama!... paciência!
Outra vez se encheram de lágrimas os olhos de Mariana.
– Choras ainda?... eis aí...
– Meu pai! eu lhe tenho feito sofrer muito; ainda hoje, ainda agora acaba de chorar por minha causa. Pois bem; eu lhe prometo que amanhã, que nunca mais me há de ver pesarosa.
Anacleto estremeceu todo e disse:
– Mariana!...
– O que tem, meu pai?
– O que acabas de dizer pode-se entender de dois modos: é um pensamento que pertence tanto à vida como à morte, e talvez que ainda mais a esta última.
– Morte!... disse a viúva rindo-se; pensar em morte uma moça que está em vésperas de casar-se?
– Ah! Mariana, quem te poderá compreender suficientemente?!
A viúva apertou a mão de seu pai entre as suas e perguntou:
– Meu pai, encomendou as flores?
– Encomendei, respondeu o velho suspirando.
– Eu quero que o meu vestido de casamento esteja pronto amanhã.
– Está bem.
– Meu adereço de brilhantes?
– Também amanhã o terás.
– Como meu pai me ama! exclamou Mariana abraçando o velho.
Anacleto apertou sua filha contra o coração sem dizer palavra.
O velho sofria muito; apesar de todos os esforços que fazia a viúva, o olhar penetrante de seu pai lia-lhe a mentira no rosto.
Ah!... se ele pudesse ler também o pensamento sinistro e infernal que pairava no ânimo de Mariana; se ele adivinhasse que debaixo daquele rosto tão belo e tão risonho, daqueles olhos tão ardentes e dentro daquela cabeça tão graciosa estava a idéia da morte... o suicídio!...
– Mas, disse Mariana, agora é que eu reparo... meu pai está vestido para sair.
– Sim; lembrei-me, apenas há uma hora, que faz hoje anos um de meus velhos amigos, e vou jantar com ele; vinha por isso dizer-te adeus.
– Não pretende voltar cedo?
– De ordinário a gente se demora mais nestes dias...
– Então a que horas?
– Às dez da noite, pouco mais ou menos.
Apesar seu, Mariana sentiu que lhe iam faltar as forças... tornou-se pálida e segurou-se a uma cadeira.
Infelizmente escapou isso aos olhos de Anacleto, que se dispunha já a sair.
– Meu pai, disse a viúva com voz muito comovida e suspendendo o velho, que já se achava na porta: meu pai, prometi-lhe que nunca mais me havia de ver pesarosa... pois bem; abençoe de coração a sua filha.
Anacleto voltou-se com os olhos úmidos, e abençoou Mariana. Depois saiu.
– Abençoou-me pela última vez! murmurou surdamente a viúva. E ficou estática... pasma... aterrada. Tinha a morte na alma.
CAPÍTULO XLII
OS REMORSOS
O CRIME mesmo, quando parece triunfar ou poder fugir ao castigo dos homens, envolto nas sombras dos mistérios, é ainda assim mil vezes mais desgraçado do que a inocência, que sucumbe.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.