Por José de Alencar (1875)
Eram as redes, que movidas ao compassado balanço, ocultavam às vezes o foco da luz e logo o descobriam, fazendo correr pelo campo umas sombras vagas, trêmulas e esguias, que lembravam os fantasmas e espectros das lendas populares.
Manuel Abreu e seus companheiros observavam atentos a linha, que indicava o acampamento das bandeiras do Fragoso e o cêrco pôsto à casa da Oiticica. No prolongamento do arco e ligação dos postos entre si, ciam êles o empenho de impedir a comunicação com o exterior.
O dono da Oiticica não podia contar senão com seus próprios recursos, e devia abandonar a esperança de obter socorro de for; pois antes que êste chegasse, o inimigo teria levado de assalto a casa.
— Não ouve um tremor? perguntou Arnaldo de repente ao feitor. Talvez tenham esperado pela noite para atacar-nos.
— Mas se agora mesmo veio uma carta do homem! disse o Abreu.
— Que tem isso? acudiu o Nicácio. É manha o cabra. Então aquele Onofre que é da pelo do cão.
— Não há que fiar! observou João Coité!
A-pesar-de suas dúvidas, Manuel Abreu conhecia bem a perspicácia do sertanejo para desprezar o seu aviso. Adiantou-se até o parapeito do terreiro e os companheiros o seguiram para verificar, se com efeito alguma partida se aproximava.
Quando tornaram aos bancos, Arnaldo havia desaparecido. Os outros suspeitaram que êle havia-se divertido à custa do Abreu; e porisso afastara-se dalí, para outro ponto do terreiro.
Enganavam-se. Apenas tinham êles voltado s costas, Arnaldo com uma agilidade, que em outro seria para admirar, mas era nele comezinha, de um salto suspendera-se a um ramo da Oiticica, e sumira-se por entre a espêssa folhagem.
Ganhando o tronco, despiu a roupa, que estendeu pelos galhos, e resvalou pela broca da árvore até a cava subterrânea, e gatinhando às vezes como um cão, ou rojando como um réptil, foi sair na bôca do fôsso.
Daí em diante corria uma levada cheia pelo inverno e que atravessava a linha de cêrco estendida pelo inimigo. O sertnaejo aproveitou-se do córrego, como de um caminho coberto, para transpor o acampamento.
Seguiu por dentro sutilmente, com água até os olhos. Quando chegou perto das barracas e tendas, os cães latiram, e acudiu logo uma das rondas ligeiras que os capitães das bandeiras tinham estabelecido para melhor guardar os passos entre os postos, e mais apertar o cêrco.
Arnaldo, porém, mergulhara, e caminhando por baixo d’água como a lontra ou a capivara, foi surdir muito além, já na floresta. Aplicou então o ouvido e distinguiu o mesmo tremor que pouco antes percebera confusamente, quando estava sentado embaixo da oiticica, e de que serviu-se para distrair a atenção do Manuel Abreu e sua gente.
Continuou no rumo dessa repercussão da terra, que lhe indicava a marcha de uma multidão. A certa distância êle soltou o berro da jibóia que era o grito de guerra de Anhamum. Outro berro lhe respondeu e o tropel dos passos cessou.
Momentos depois os dois amigos encontravam-se na espessura da floresta.
— Anhamum recebeu sua flecha que tu lhe mandaste, chefe dos tapijaras; e soprou o boré para convocar os seus guerreiros. Êle veio pelo rasto dos inimigos.
— Tu és um amigo fiel, chefe dos Jucás; teus guerreiros terão muitos inimigos a combater, e muitas armas e roupas para levar à sua taba.
Arnaldo sabia quanto os índios eram ávidos daqueles objetos, principalmente dos veludos e sêdas de côres vivas, com que se enfeitavam; porisso, embora tivesse confiança na dedicação do chefe, quis por êsse modo estimular a gana dos selvagens.
Combinou o sertanejo com o chefe um plano de ataque.
Os selvagens ficariam ocultos na mata, de espreita ao inimigo. No momento de assalto à casa, e a um sinal convencionado, Anhamum cairia sôbre as bandeiras do Fragoso, e as meteria entre dois fogos.
Despachou-se também imediatamente um guerreiro para ir ao encontro do Agrela, que Arnaldo supunha já estar àquela hora de volta da Barbalha; pois não era muito que, avisado como fôra, desse conta da expedição em oito dias, tanto mais quanto ao chegar a seu destino conheceria a mentira da suposta viúva.
O mensageiro devia prevenir o ajudante do cêrco pôsto à Oiticica; e recomendar-lhe da parte de Arnaldo que aguardasse a ocasião do assalto para dar também sôbre o inimigo, e cortar-lhe a retirada.
Tomadas estas disposições, tornou o sertanejo pelo mesmo caminho.
Tinha a sorte do Fragoso em sua mão; e ia oferecer ao capitão-mór a maior satisfação que êle podia experimentar nesse momento: a de castigar a insolência do rapazola que se atrevera a afrontar seu poder.
Maior, porém, era o seu júbilo de arredar para sempre daquele sítio o homem que tinha ousado erguer os olhos para D. Flor e cobiçar a sua beleza.
Imagine-se, pois, do golpe que o trespassou quando, entrendo pressuroso no camarim do capitão-mór, ouviu aquelas palavras em que a donzela, conformando-se ao desejo do pai, dava-se por espôsa a Leandro Barbalho.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.