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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Até que enfim! murmurou João por entre os dentes.

E ergueu-se para ir ajudar a Jacó, que vinha cambaleando.

O ex-escrivão chegou finalmente à mesa, e indo depositar aí a caixa que trazia, debruçou-se sobre ela olhando meio risonho, e ainda meio desconfiado para João.

– Vamos decidir a questão, disse este.

– É do ma.... ri... do, balbuciou Helena.

Com um movimento de desespero o ex-escrivão desabotoou o seu infalível fraque roxo, abriu a camisa, e deixando ver um peito vermelho e cabeludo, foi com a mão mal segura tirar um cordão preto, a que estava presa uma pequena chave.

– Vejamos... vejamos... disse João todo desejos e esperanças.

Jacó trabalhou por muito tempo para introduzir a chavinha na fechadura; porém, conhecendo que o não podia fazer, sentou-se de novo risonho, e disse gaguejando:

– Que... di... a... bo....não pos... so... pa... re... ce... me que... es.. .tou bê...ba...do

– Dê-me a chave, que eu abro...

O ex-escrivão soltou uma gargalhada, sacudiu a cabeça e tornou a enfiar o cordão no pescoço.

Também não vale a pena perder tanto tempo por isso, tornou João; acabemos o prazer desta noite com um último copo de vinho.

E encheu os copos. Jacó bebeu metade e entornou sobre a mesa e sobre si mesmo a outra metade.

Helena não bebeu, porque já dormia a sono solto.

O antigo agente de Salustiano deixou cair a cabeça, e pareceu adormecido.

Daí a pouco Jacó roncava como um endemoninhado.

No fim de um quarto de hora João ergueu-se, observou cuidadoso os dois esposos; abriu a camisa do ex-escrivão, tirou-lhe o cordão do pescoço, e introduzindo a chavinha na fechadura da misteriosa caixa, deu uma volta, e o “coração” de Jacó ficou por dentro patente a seus olhos.

A caixa estava cheia de papéis de todos os tamanhos e de toda natureza.

Cartas de família, escritos de amor, originais de antigos impressos, tiras de papel com algumas linhas escritas, mas cujo sentido era quase impossível decifrar, antigos processos... papéis judiciais... e uma multidão imensa de outros objetos enchiam o “coração” de Jacó.

O ex-escrivão tinha realmente dado um nome muito significativo àquela caixa: era o seu “coração”.

Era o coração do homem mau, intrigante, maledicente. Dentro dele estavam os materiais com que ele podia acender a guerra entre famílias.

Jacó era um malvado, ou para melhor dizer, um miserável malvado.

João não se demorou em fazer observações sobre o que tinha diante dos olhos; foi passando um por um todos aqueles papéis, até que chegou a um processo.

– Ah! ei-lo aqui!... ei-lo aqui!... exclamou sem poder suster-se.

E folheando o processo chegou a um lugar em que havia um documento:

– A letra falsa!... disse.

E como se mais nada lhe importasse do resto; como se houvera completado a sua missão naquela casa, guardou o processo no largo bolso de sua sobrecasaca, fechou o “coração” do mau, pôs de novo o cordão no pescoço de Jacó, e indo ao corredor da casa despertou a escrava, mandou que lhe abrisse a porta da rua e tomando o chapéu, saiu.

Era mais de meia-noite.

CAPÍTULO XLI

MARIANA

UMA VERDADEIRA guerra de emboscadas era a que estava declarada. Cada um dos combatentes tinha seu segredo, e por ele velava; alguns tinham dois segredos também: um que fazia alentar, e outro que fazia corar. Outros viviam suspensos e temerosos, vítimas e inocentes da intriga que fumegava.

João e Rodrigues, senhores das pontas daquela meada embaraçada, velavam, tendo os olhos fitos em Salustiano e Mariana; mas pareciam guardar ainda para si o – seu segredo querido, – que era talvez a história de Cândido.

Salustiano e Mariana esperavam e tremiam. Tinham que esperar. Ambos porém tinham ao mesmo tempo de corar.

A velha Irias ignorava porventura tudo? parece ao menos que sim.

Anacleto, Cândido e Celina eram aqueles que viviam suspensos e temerosos; eram eles as vítimas inocentes que se preparavam, porque o primeiro deveria chorar por sua filha, e os dois últimos por seu amor.

Henrique nada temia e tudo esperava. Estava quase a brilhar o dia de seu casamento.

Os acontecimentos se iam precipitando, e deixavam adivinhar que o drama corria para um próximo desfecho. O dia que sucedeu à noite de embriaguez de Jacó e de Helena, embriaguez que havia deixado cair o “coração” do ex-escrivão nas mãos do antigo agente da casa de Salustiano, foi de terríveis surpresas para o primeiro e para Mariana.

Salustiano soube na manhã desse dia que um documento importante, que o tornava criminoso público, havia caído nas mãos do homem que dois dias antes se declarara seu inimigo.

Concebe-se qual deveria ser o efeito dessa horrível notícia: era um raio que acabava de levantar-se sobre a cabeça do mísero mancebo.

A Providência castiga o crime por todas as maneiras: castiga-o mil vezes por seus descuidos e imprevidências. Aqueles que tinham comprado Jacó, poderiam e deveriam tê-lo visto queimar o processo e a letra falsa. A falta desse cuidado era agora um castigo que vinha sobre o crime que não deveria ficar impune.

(continua...)

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