Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Logo na primeira noite, João ofereceu a seus hóspedes uma excelente ceia. Jacó era amigo de bom vinho, e Helena, ou por condescendência, ou por que quer que fosse, gostava de tudo de que seu marido gostava. Portanto comeu-se e bebeu-se até alta noite.

Na que se estava seguindo, repetiu-se a mesma cena.

No entretanto conversavam.

– Mas, como ia fazendo notar, disse João, parece que o destino foi quem decidiu que nos ajuntássemos; eu fui um dos que cooperaram para sua desgraça, e portanto era justo que viesse ajudá-lo a sofrê-la.

– Não nos lembremos disso, disse Helena.

– Sim, afoguemos os pesares com vinho.

– Vá feito! exclamou Jacó; à saúde da boa amizade.

E apenas esvaziados os copos, João os encheu de novo, porém com vinho diferente.

– Esta mistura de vinhos é que ontem me fez mal, observou Helena.

– Ora, saúde... um dia não é todos os dias...

– Apoiado! bradou Jacó.

– Comamos um pouco deste bolo inglês para fazer lastro.

– Vamos a ele, que está excelente!

– Eu já pedi a uma comadre minha a receita dos bolos ingleses; mas a maldita egoísta deu-me uma como a cara dela.

– Perdemos uma dúzia de ovos, meu caro João.

– Deixe estar, sra. Helena, que eu lhe hei de trazer a verdadeira receita dos bolos ingleses.

– Oh! Sr. João, não faz idéia do gosto que me dará.

– Sr. Jacó, lá vai a saúde da sua boa senhora!...

– À razão da mesma!

Jacó e Helena, pouco habituados a beber vinhos de diversas qualidades, começavam a demonstrar uma alegria e vivacidade muito significativa.

– Que vinho delicioso! disse o escrivão.

– Tem vinte e cinco anos de sepultado.

– Ah!... eu logo vi...

– Mais um copo.

Os dois não se fizeram rogar.

– A propósito, disse João, ontem o sr. Jacó começou a contar-me uma história que infelizmente não pôde concluir.

– Qual?

– A história de uma grande trovoada doméstica. Uma briga entre marido e mulher, a conseqüente separação dos sujeitinhos, e depois a sua recente conciliação... que diabo! eu fiquei espantado de o ouvir contar as coisas como se as tivesse testemunhado, e ainda mais me espantei quando disse que tinha documentos disso no “coração”.

– Quando?... ah!...

Helena soltou também a sua risada.

– Ele não entende o que é o meu “coração”!...

– É verdade... confesso que não posso adivinhar semelhante charada.

– É segredo de família, e portanto...

– Basta... já não quero saber. Vá um copo de vinho aos segredos de família.

– Vá!

João, que desde a noite anterior concebia as melhores esperanças de realizar o plano que trouxera em mente quando viera morar em casa de Jacó, deixou passar cerca de um quarto de hora, durante o qual fez com que o ex-escrivão e sua mulher esvaziassem ainda mais dois cálices de vinho, e depois disse:

– Mas, tornando, como lá se diz, à vaca fria, devo notar que não são muito concordes em um ponto da tal história.

– Em qual?

– O sr. Jacó diz que o casal brigado e separado reconciliou-se em conseqüência de uma carta muito cheia de lamúrias e de tolices, escrita por um deles.

– É certo!

– Foi tal qual.

– Sim; mas ontem o sr. Jacó sustentou que a carta estava assinada pela mulher, e a sra. d. Helena jurou que era do próprio punho do marido.

– É da mulher.

– É do marido.

– Então em que ficamos?

– Não faltava mais nada?... uma mulher abaixar a cabeça a um homem!...

– Pois digo-lhe eu que a carta é da mulher! exclamou Jacó, dando na mesa um forte murro.

– É mentira, sr. João!

O velho soltou uma gargalhada estrepitosa.

Jacó e Helena, extremamente espiritualizados, teimavam um com o outro com desespero e furor. João, em vez de apaziguá-los, os desafiava cada vez mais com suas gargalhadas.

– Ferve-me o sangue quando esta mulher do diabo teima comigo!

– Este homem, sr. João, não abre a boca que não minta! é um inimigo das mulheres...

– Pois se a carta é da mulher!...

– É do marido!

– Oh! senhora... não teime...

– Tenho dito; é do marido.

– A senhora não sabe que eu tenho a carta no meu “coração”?..

João fez um movimento.

– Pois, se lhe parece... eu não tenho medo...

Jacó olhou para João com ar ainda meio temeroso.

– Deixemo-nos disto, disse este; acabemos com esta contenda; vá à saúde dos bons esposos!

Os copos esvaziaram-se de novo; daí a algum tempo João tornou:

– Mas vamos: a carta era da mulher ou do marido?

A embriaguez de Jacó e Helena já então era completa; gaguejavam ambos, falando ao mesmo tempo.

– É da mu... lher...

– É do ma...ri...do...

– Quem fala verdade? decidamos.

– Eu...

– Eu...

Os dois disputantes ficaram desesperados outra vez.

– Eu vou... bus... car... o “co... ra... ção”!... exclamou Jacó.

Helena respondeu-lhe com um insulto, e o escrivão, cambaleando e segurando-se pelas paredes, dirigiu-se ao seu quarto.

No entretanto, e para que Jacó não se deixasse ficar no quarto, pois que tudo se podia esperar do estado de embriaguez em que se achava, João, instigando Helena, fazia com que a mulher injuriasse em alta voz a seu marido.

Jacó apareceu de novo à porta da pequena saleta.

João lançou um olhar cheio de curiosidade, de dúvida e de esperança sobre aquele homem.

O ex-escrivão vinha abraçado com uma caixa de jacarandá, que se mostrava sob a forma de um coração.

Era de fato aquilo que ardentemente desejava ver o antigo agente de Salustiano: era o “coração” de Jacó.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...102103104105106...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →