Por José de Alencar (1875)
— Como posso eu faltar com o respeito devido ao sr. capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, quando não trago outro encargo senão o de assegurar-lhe o grande acatamento em que o tem meu primo, o capitão Marcos Fragoso, e do seu vivo desejo de continuar as boas relações de vizinhança em que está com o dono da Oiticica?
— Foi para mostra dêsse desejo que êle armou toda essa ralé de bandoleiros, e veio pôr cêrco à fazenda? observou Leandro Barbalho em tom de chasco.
— O séquito numeroso que trouxe o capitão Marcos Fragoso não foi para ameaçar, e menos ainda para atacar o dono da Oiticica; mas, ao contrário, com êste alardo quis meu primo dar a conhecer as fôrças de que dispõe, e com que êle se empregará sempre e da melhor vontade no serviço de seua senhoria, se…
O Ourém rebuçou esta conjunção com um sorriso dos mais açucarados:
— Se o sr. capitão-mór, como espera, aceder ao pedido que me incumbiu de fazer em seu nome, e que é ainda uma prova, e a mais significativa, da veneração, que vota à sua pessoa.
O capitão-mór não pestanejou, e permaneceu impassível no aspecto, mas interiormente rugia uma cólera que ameaçava a cada instante fazer irrupção.
— Sabe vossa senhoria que outrora usavam os cavalheiros, quando iam a algum torneio, apresentar-se na côrte com uma grande comitiva, não por afrontar, mas só para merecer a atenção. A mesma bizarria teve meu primo Marcos Fragoso vindo pedir ao sr. capitão-mór, como agora o faz por meu intermédio, a mão de sua formosa filha D. Flor, que se o é no nome, excede-lhe nas prendas.
Campelo ficou mudo. O Ourém, tendo esperado debalde a resposta, insistiu:
— O sr. capitão-mór ouviu o pedido; que decisão devo eu levar a meu primo Marcos Fragoso, que a espera ansioso?
— A mesma que lhe dei a primeira vez, respondeu Campelo.
— As circunstâncias mudaram depois disso.
— Pode ser; mas não mudou a nossa vontade.
— Talvez que vossa senhoria deseje algum tempo para melhor refletir?
— Já decidimos.
— Então a resposta do sr. capitão-mór é?…
— Não!
— Atenda vossa senhoria à posição difícil em que vai ficar meu primo Marcos Fragoso, assim desconsiderado, e lembre-se que nem sempre somos senhores de nossas paixões. Êste casamento poupará talvez grandes calamidades…
— Não! Não! Não!…
O capitão-mór erguera-se, e atirando ao licenciado aquelas três negativas, cortejou-o com arrogância, intimando assim que estava terminada a conferência.
Ourém compreendeu que, naquela ocasião pelo menos, nada mais tinha alí a fazer, e que sua missão conciliadora podia tornar-se em provocação, se com sua insistência exacerbasse a ira do capitão-mór.
Despediu-se, e tornou ao campo do Fragoso.
Já era então ao declinar do dia. O capitão-mór voltou a ocupar o seu pôsto no terreiro, acompanhado de três pagens que seguravam os bacamartes já carregados e as munições para carregá-los de novo.
Arnaldo e Leandro Barbalho colocaram-se junto dele, à espera do assalto, que não podia demorar-se depois da maneira rude por que o capitão-mór despedira o parlamentário.
Ao cair da noite anunciou-se novo emissário, portador de uma carta do capitão Marcos Fragoso para o dono da Oiticica.
XVIII – A carta
Fechara-se a noite.
D. Genoveva sentada à cabeceira da mesa de jantar presidia a trabalhos bem estranhos às habituais lidas caseiras. Ajudada de suas escravas enchia de pólvora e bala os cartuchos que enrolava a mão mimosa de D. Flor, com o auxílio da Justa.
Alina e a mãe na outra ponta da mesa faziam fios e rezavam baixinho a magnífica.
O capitão-mór deixando a sua gente de guarda no terreiro, foi ao camarim com padre Teles e Leandro Barbalho para tomar conhecimento da carta do Fragoso. Padre Teles rompeu o fêcho e deu a seguinte leitura:
Ilm. sr. capitão-mór Gonçalo Pires Campelo
Aos 5 de janeiro do ano de 1765
Prezadíssimo senhor
Peço vênia a vossa senhoria para não tomar por última e definitiva a resposta de que foi portador meu primo Ourém.
Ainda espero que, pesando em sua consumada prudência os males que podem afligir a duas famílias importantes e que sempre viveram em boa vizinhança, há de tornar de seu primeiro alvitre.
Se vossa senhoria julga-se ofendido em seus brios, não posso oferecer-lhe mais cabal reparação do que essa de beijar-lhe a mão como filho. Não espero senão o seu agrado para ir pessoalmente render-lhe êsse preito de minha submissão.
Resolví aguardar três dias para dar tempo a que vossa senhoria delibere com toda calma. Se expirado êste prazo, não tiver eu satisfação de meu pedido, só então, e muito a meu pesar, serei levado à última extremidade; porque também tenho que dar contas de mim aos parentes e amigos, defendendo-me de tão dura afronta.
Guarde Deus a vossa senhoria por muitos anos. Dêste seu servidor, pronto sempre às suas ordens
Marcos Antônio FRAGOSO
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.